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Diário da Região

30/01/2018 - 09h46min / Atualizado 30/01/2018 - 09h46min

OSCAR 2018

A Forma da Água nasceu na infância de Del Toro

Em entrevista, diretor mexicano fala do impacto causado pelo filme O Monstro da Lagoa Negra, de Jack Arnold, que ele viu quando criança

Amanda Edwards/Divulgação Diretor mexicano criou fábula sobre pessoas esquecidas
Diretor mexicano criou fábula sobre pessoas esquecidas

Era uma vez um garotinho chamado Guillermo del Toro, que, aos 6 anos, costumava assistir a um filme na TV todos os domingos em sua casa em Guadalajara, México. Num determinado domingo, foi a vez de O Monstro da Lagoa Negra (1954), de Jack Arnold. Quando viu a criatura nadar por baixo da atriz Julie Adams, metida num maiô branco, foi uma revelação.

"Eu tinha 6 anos e senti algo inexplicável por ela", disse, entre risos, em entrevista à reportagem em Londres. "E senti algo pela criatura que também era inexplicável. Achei que aquela cena era a coisa mais linda que tinha visto. Pensei que os dois iam terminar juntos, e não acontece."

Foi assim que nasceu A Forma da Água, que concorre a 13 Oscars, incluindo melhor direção - se Del Toro ganhar, vai ser a quarta vez que um mexicano leva o troféu na categoria em cinco anos, juntando-se a seus grandes amigos Alfonso Cuarón (em 2014, com Gravidade) e Alejandro González Iñárritu (em 2015 com Birdman e em 2016 com O Regresso).

O sonho do pequeno Guillermo levou 47 anos para chegar às telas. "Não tinha achado uma maneira de contar a história espiritualmente, emocionalmente, politicamente", explicou o diretor. Eis que, em 2011, num café da manhã, Daniel Kraus lhe contou que tinha a ideia de um filme sobre uma faxineira trabalhando numa instalação secreta do governo que conhece um homem anfíbio mantido lá e o leva para casa. "Percebi que era a maneira de fazer, porque é o tipo de pessoa em quem ninguém presta atenção, que conseguiria levar a criatura para casa", contou Del Toro.

E foi assim que nasceu sua fábula sobre Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira muda que se apaixona pelo homem anfíbio (Doug Jones) e conta com o apoio de amigos como Giles (Richard Jenkins) e Zelda (Octavia Spencer).

Para fazer seu conto de fadas com toques de suspense, musical e filme de espionagem, Del Toro situou a história em 1962, no auge da Guerra Fria. "Quando alguns americanos dizem: 'Vamos tornar a América grande novamente' (slogan do presidente Donald Trump), eles sonham com essa época, com Kennedy na Casa Branca, corrida espacial, TV, vida no subúrbio, dinheiro abundante do pós-guerra. E tudo era lindo para quem era homem, branco e heterossexual. Mas para o resto não era legal, tinha racismo, machismo, narcisismo, movimento de pensamento positivo. Tudo o que nos transformou no que somos hoje."

Assim, ele povoou sua fábula de "outros": um monstro que só se comunica pelo olhar e por gestos submetido a experimentos, Elisa, uma faxineira muda, sua amiga Zelda, também faxineira e negra, e Giles, um pintor que precisa esconder a homossexualidade. "O filme é sobre pessoas esquecidas, ignoradas", disse Jenkins, que concorre ao Oscar de coadjuvante. "Sempre prestei atenção nelas, desde criança. Tinha um cara que ficava horas olhando a vitrine no pet shop. Sempre imaginava quem era, onde morava."

O cineasta levou três anos na criação do homem anfíbio, com ajuda do escultor Mike Hill. "Tinha de ser uma mistura de animal, protagonista de cinema, deus e monstro de filme", disse Del Toro. Acima de tudo, necessitava ser alguém por quem uma mulher podia se apaixonar. Essa mulher precisava ser interpretada por uma atriz que "ouvisse e olhasse muito bem". A inglesa Sally Hawkins sempre foi sua primeira escolha e estava no projeto desde que vendeu a ideia para o estúdio Fox Searchlight. "Porque se ela olha a criatura como um pedaço de borracha, acabou. E Sally olhou para ele e realmente gostou. Ela ficou nervosa em sua presença, meio que se apaixonou pela criatura."

Fascinado por monstros e mundos fantásticos, Del Toro lamenta que o formato ancestral das parábolas e contos de fadas tenha cedido espaço quase totalmente ao realismo. "Na era da razão, entronamos a razão e destronamos as fábulas. Mas essa é minha catedral", disse. "Para mim, elas abrangem todas as artes e servem como espelho de quem somos e onde vivemos."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

 

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