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Diário da Região

20/01/2018 - 18h55min / Atualizado 20/01/2018 - 18h55min

TV influenciadora?

Séries viram grandes protagonistas de discussões culturais

Séries tem se tornado as grandes protagonistas das discussões culturais promovidas nas redes sociais, nos encontros entre amigos e nas mesas de bares, mas essa discussão é relevante? E o cinema?

Beth Dubber/Divulgação 13 Reasons Why se tornou um fenômeno em 2017, movimentando as discussões culturais, mas alguns questionam se os motivos foram os certos
13 Reasons Why se tornou um fenômeno em 2017, movimentando as discussões culturais, mas alguns questionam se os motivos foram os certos

As séries de TV sempre estiveram por aí, mas nos últimos anos elas passaram por uma verdadeira revolução, quebrando barreiras de linguagem, de abordagem e de temática. Essa revolução trouxe ganhos consideráveis para a qualidade do que é feito para a telinha, atraindo cada vez mais a atenção do público e, consequentemente, expandindo a oferta.

No Brasil, os enlatados americanos, como eram chamadas as produções neste formato, tinham, até recentemente, um público bastante específico. Dificilmente uma série conseguia quebrar essa barreira e atingir as massas. Eram apenas alguns fenômenos esporádicos. Mas isso mudou consideravelmente de uns cinco ou seis anos para cá, atingindo seu ápice atualmente.

Cada vez mais as séries de TV se tornam as protagonistas das discussões culturais promovidas nas redes sociais, nos encontros entre amigos e nas mesas de bares. Elas se tornaram influenciadoras de movimentos, promovendo verdadeiras comoções em torno de sua simples existência ou das temáticas abordadas.

E tudo isso aconteceu com a expansão no alcance dessas séries, o que está diretamente ligado ao crescimento dos chamados serviços de streaming, com destaque para a Netflix, que vem ditando o caminho das pedras desde que começou com suas produções originais, em 2013.

Nesse processo, o cinema e os filmes foram perdendo força. "Tudo isso transformou radicalmente o mercado de cinema no Brasil e no mundo. Até os anos 2000, mais ou menos, tínhamos um perfil muito determinado de como as séries eram. Normalmente policiais ou comédias. De um tempo para cá, houve uma diversificação no conteúdo e hoje temos um caldeirão de diversificação neste mundo incrível", analisa o crítico de cinema Felipe Boso Brida.

Esse debate sobre o que é melhor e o que tem mais força hoje em dia, cinema ou televisão, não é novo e rende horas de discussão. Por exemplo, em 2016, o jornalista Brian Raftery, da Wired, escreveu um artigo em que questionava se aquele poderia ser o ano em que os filmes parariam de importar para o público.

Uma reação extrema de Raftery motivada pela falta de interesse em certas produções que antes, quando a oferta de conteúdo e mídias era muito menor, seriam um sucesso quase que certeiro.

Dias depois, Richard Brody, da The New Yorker, escreveu um artigo de resposta em que apontava porque os filmes ainda importam. Mas mesmo discordando da opinião de Raftery, Brody reconhece que o colega jornalista caminha em direção a uma discussão importante, apenas abordada de forma errada.

Puxando na sua memória, qual o último filme que conseguiu movimentar a cultura popular, desencadear debates acalorados e ditar tendências? Em 2017, Mulher-Maravilha dominou as conversas por um período, sempre pelos motivos certos, com o sucesso do longa, o fato de ter sido dirigido por uma mulher e por desempenhar um papel importante na luta constante por representatividade.

No mesmo ano, 13 Reasons Why se tornou um fenômeno. Gostando ou não da série, achando certa ou não sua abordagem, é inegável sua força na cultura de massa. Big Little Lies também movimentou as conversas, indo além do impacto cultural pela sua qualidade e expandindo a conversa para questões importantes, como violência doméstica.

Há ainda The Handmaid's Tale e Alias Grace, ambas baseadas em obras de Margaret Atwood, que tratam, de maneiras diferentes, do papel da mulher na sociedade e de questões como o sistema prisional, intolerância e fanatismo religioso.

"Master of None também é um exemplo, uma comédia que aborda a questão de raça, de barreiras culturais. São séries importantes que discutem a atualidade, às vezes de forma dramática, às vezes de forma cômica", diz Felipe.

E é justamente por essa abordagem diversificada e aberta de temas importantes que a TV vem ofuscando o brilho do cinema, afirma o arquiteto Bruno Pereira, fã de séries. "Acredito que as séries estão tendo um domínio maior no mercado e sobre as pessoas por dois motivos. Primeiro pelo formato de mídia e segundo por abordarem, de forma mais abrangente, assuntos muitas vezes adormecidos, mas que estão aí presentes no mundo."

Alcance

Para o publicitário Alexandre Luiz de Barros Rosa, que tem um podcast chamado Cine Alerta, onde debate séries e filmes, a força da televisão está justamente em sua relação prolongada com o espectador. Um seriado, em seu formato tradicional, antes do modelo da Netflix de liberar uma temporada de uma vez, traz episódios semanais. Dessa forma, o espectador terá contato com a produção por pelo menos 13 semanas, considerando séries mais artísticas cujas temporadas são compostas por 13 episódios.

"Então, são 13 semanas que o público tem contato com essa série e, assim, 13 semanas que ele passa debatendo o seu conteúdo com amigos, outros fãs, etc., gerando uma movimentação muito grande ao redor do programa e, assim, despertando a curiosidade de outras pessoas e expandindo o alcance", pondera.

Há ainda a questão das temporadas. A maioria dessas produções dura mais que uma temporada, então, todo ano, mais ou menos na mesma época, a série retoma o foco do debate. "Ela ajuda a colocar em pauta determinados assuntos porque ela não deixa as pessoas que a acompanham pararem de pensar no tema abordado", afirma Alexandre antes de completar: "No cinema, isso não acontece. A pessoa assiste ao filme, de mais ou menos duas horas, e a discussão em torno dessa obra normalmente não vai passar de uma semana."

 

'Massa quer ver Game of Thrones'

Divulgação American Crime, uma série relevante sociologicamente, mas ignorada pelo grande público
American Crime, uma série relevante sociologicamente, mas ignorada pelo grande público

A TV tem sido apontada como desbravadora no quesito abordagem de temas polêmicos, trazendo para o centro do debate temáticas importantes e sérias como bullying, suicídio na adolescência, abuso doméstico, imigração, o mal do capitalismo, entre tantos outros temas.

"Acho que as séries possuem um poder e papel grandioso perante a sociedade. A cada trabalho novo lançado mais debates e questionamentos surgem e, por isso, vejo que a responsabilidade de seus idealizadores é enorme enquanto formadores de opinião", diz Bruno Pereira, arquiteto e fã de séries.

No entanto, o publicitário Alexandre Luiz de Barros Rosa não vê um interesse genuíno e considerável das massas em tópicos realmente contestadores ou importantes. "13 Reasons Why chamou a atenção pelo motivo errado. A discussão foi sobre como a Netflix aborda determinados temas e leva para seu público. Mas não sei o quanto o público de massa está realmente atento às produções que trazem debates mais sérios e de importância cultural."

Ele exemplifica sua opinião com a série American Crime, exibida no Brasil pelo canal AXN. A produção, uma antalogia que narrava a cada temporada uma história diferente, com personagens e atores diferentes, buscava tocar em tópicos espinhosos, mas nunca teve atenção ou audiência do público.

"Era uma série de extrema importância cultural e sociológica. Ela pegava um tema e discutia de forma muito pungente. Não teve audiência nenhuma, não gerava comoção pela internet. Essa é uma produção que está na mesma toada de filmes como Corra! e Moonlight, que também propunham discussões importantes e atingiam um determinado público. O público de massa quer ver Game of Thrones", conclui.

 

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