Diário da Região

13/01/2018 - 17h56min / Atualizado 13/01/2018 - 17h56min

VÍCIO ELETRÔNICO

OMS estuda caracterizar obsessão por jogos eletrônicos como doença

Organização Mundial da Saúde estuda caracterizar obsessão por jogos eletrônicos como doença

Guilherme Baffi 11/01/2017 Mateus Alves Pereira trabalha em uma lanhouse e chega a passar 12 horas online por dia
Mateus Alves Pereira trabalha em uma lanhouse e chega a passar 12 horas online por dia

O vício em jogos pode ser classificado como uma doença pela Organização Mundial da Saúde. Estuda-se incluir o "gaming disorder" na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), que está sendo revisada após 28 anos. O transtorno dos jogos eletrônicos é caracterizado como um comportamento que prejudica a capacidade de controlar a prática de jogos, dando mais importância a eles que a outras atividades diárias. E mesmo com o aparecimento de consequências negativas por conta disso, a pessoa não consegue deixar o hábito.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a CID fornece uma linguagem comum para registro e monitoramento de doenças. Assim, os profissionais de saúde de todo o mundo podem compartilhar dados como óbitos e internações por meio de uma linguagem padronizada, o que facilita a análise dos números e a tomada de decisões.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que o uso abusivo de internet, computadores, smartphones e outros aparelhos eletrônicos, além do descontrole no uso de videogames, aumentou nas últimas décadas e esse crescimento veio associado a casos documentados de consequências negativas para a saúde.

"A decisão de incluir o transtorno dos jogos eletrônicos na CID-11 tem base nas revisões das evidências disponíveis e reflete um consenso de especialistas de diferentes disciplinas e regiões geográficas", considerou a OPAS em informativo divulgado na sexta-feira, 12.

De acordo com o psiquiatra Jair Mari, coordenador dos Estudos de Campo no Brasil para o Desenvolvimento da Classificação dos Transtornos Mentais e de Comportamento da CID, há um debate para a CID incluir a categoria de gaming disorder. "Este termo {gaming disorder} refere-se a um comportamento de jogo persistente ou recorrente caracterizado por um descontrole sobre o jogo, em prejuízo de outras atividades na medida em que o jogo tem precedência sobre outros interesses e atividades diárias, mesmo quando a continuação de jogos implica a ocorrência de consequências negativas."

Já quanto a legitimar o descontrole em relação a videogames como transtorno específico, isso ainda necessidade de muito debate, de acordo com o especialista, uma vez que há dúvidas de como definir o conceito.

José, publicitário de 35 anos, preocupa-se em fazer passeios com o filho Caio, 8 anos, para que ele veja que "a vida não precisa ser touch para ser legal", como define. O menino adora ficar no celular por horas a fio - se bobear, o dia todo. A paixão começou antes do garoto ser alfabetizado, quando pesquisava assuntos em que tinha mais interesse, ainda em comando de voz. "Depois começou com joguinhos também, vídeos no YouTube. Agora ele quer ser youtuber e por conta disso, hoje, o que ele mais gosta são os aplicativos de edição", conta José. Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.

Juntos, os amigos Mateus Alves Pereira, de 22 anos, e o vendedor José Victor Sakamoto, de 24, chegam a passar 20 horas online por dia. Mateus trabalha em uma lanhouse e desde pequeno gosta de jogos. Em dois jogos somados, tem mais de 9 mil horas de atividades em cinco anos. Acredita que não dá para generalizar quando se fala que os apaixonados por jogos têm algum distúrbio e conta que a maioria dos amigos que fez foram justamente no ambiente de trabalho. Ele é tão focado neste tipo de atividade que promove campeonatos de videogame.

"Tem diferença entre se dedicar no jogo e ficar estagnado, jogar simplesmente e esquecer dos problemas." Quando o jogador não evolui no game, Mateus acredita que possa haver algum problema: ele está utilizando o game para mascarar e tirar a cabeça de algum problema. Mateus acha que, se não houvesse telas e controles, a vítima poderia direcionar a questão para outras coisas, como drogas e entorpecentes. "Usam como se fosse uma droga. Não é uma questão de jogo, é da pessoa."

Victor comenta que os jogos servem como interação, e às vezes criam-se laços por meio deles. "Aproxima as pessoas que têm o mesmo gosto, é uma comunidade". Ele também acredita que não dá para generalizar os aficionados como doentes. "Se fosse assim, trabalhar o dia inteiro também seria. Trabalho te dá remuneração, jogo te dá diversão."

Victor Martins Fregonesi, estudante de análise e desenvolvimento de sistemas de 22 anos, conta que fica quase o tempo todo conectado em celular e computador. "Sou uma pessoa bem tímida, me ajudou muito a fazer amigos e também em quesito de trabalho e faculdade. Melhorou muito meu inglês." Ele não se considera um viciado e diz que para se manter no mercado precisa de tecnologia. "Estou sempre com celular na mão". Na internet, joga, assiste a filmes e séries, estuda, lê e pesquisa e conversa e garante que não teve problemas em relacionamentos. Todo final de semana saio com meus amigos. São como eu, constantemente conectados."

(Com Agência Brasil)

Jane decidiu apoiar o gosto do filho Enzo

Desde os três anos, Enzo Ferrari Favaro, hoje com 8, demonstra interesse em jogos. A mãe, Edijane Ferrari Favaro, artista plástica de 51 anos, resolveu procurar uma escola de tecnologia para que o hobby do filho pudesse se transformar, no futuro, em profissão. Ela decidiu não lutar contra a paixão do menino. "Hoje a gente sabe que os perigos lá fora são grandes, a gente não deixa o filho brincar em rua, sair sozinho. Eles estão muito fechados e esse ambiente é propício para que encontrem uma área onde tenham prazer, satisfação", acredita.

Enzo joga em uma série de dispositivos: videogame portátil, console, computador e celular. As atividades são multimídia. Enquanto presta atenção no game na TV, está ouvindo o que o pessoal do Youtube tem a dizer sobre as melhores jogadas. "É muito viciante. Depois que eu entro não consigo parar de jogar", conta. O almoço é consumido em meio aos aparelhos e ele não tem dúvida quando questionado sobre o que espera do futuro. "Quero ser programador de games", sonha.

O menino sempre gostou de tecnologia. Para que os pais pudessem fazer as refeições, assistia a vídeos infantis no tablet. Jane garante que conversa com o filho e orienta a quando se cansar deixar um pouco os jogos de lado e ir fazer outra coisa. "Quando está exaurido ele para e busca outro tipo de atividade. Jogar bola, andar de skate, brincar de hominho". Segundo ela, impor horários não funciona para Enzo, pois gera uma ansiedade. "Se eu deixo à vontade ele mesmo entende."

Para a mãe, há vantagens na tecnologia. "Eles ganham pontos, ganham competições, tem o lado positivo. Meu filho consegue falar uma linguagem muito mais adulta do que outras crianças, porque ele tem um vocabulário maior. Está aprendendo inglês". Além disso, ele fica estimulado a superar os desafios impostos nos jogos. A artista plástica garante que policia tudo que o menino faz na rede. A conta que ele utiliza no YouTube é dela. "Tive que aprender tudo isso", brinca.

Oficinas

Até 21 de janeiro, a SuperGeeks, escola de programação e robótica de Rio Preto voltada para crianças e adolescentes, promove oficinas gratuitas no Riopreto Shopping. Luis Paolini, diretor, defende o lado positivo de jogar videogames regularmente.

"Existem estudos que comprovaram o aumento de massa cinzenta em três partes do cérebro: o hipocampo direito, o córtex pré-frontal direito e o cerebelo. Isso significa melhora em orientação espacial, habilidades motoras, formação de memória e planejamento estratégico", afirma.

 

Fique Atento

Dicas para perceber se seu filho está se tornando um viciado em games e evitar problemas com a tecnologia

  • Monitore tudo o que a criança faz na internet. Observe onde navega, o que digita, com quem conversa, quais games joga
  • Fique atento à vontade em fazer coisas fora das telas. Se a criança deixa de brincar com amigos, não quer ir a um aniversário, o adolescente não quer ir a festas ou sair com a turma, é sinal de alerta
  • Percebeu que a coisa está saindo do controle? Imponha limites ao tempo gasto no computador e converse com a criança para conscientizá-la do problema
  • Observe se a criança se relaciona com os colegas, realiza as tarefas escolares e vai para a escola sem resistir
  • Diversifique as atividades do seu filho, para que ele sinta prazer em práticas não dependentes de tecnologia. Tocar instrumentos musicais e praticar esportes são boas opções
  • Dê atenção a seu filho. Tablet na mão apenas para distrair a criança e eximir os pais da obrigação de conversar, brincar e dar afeto não é uma boa opção

Fontes - Eduardo Martins Morgado, professor do Departamento de Computação da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Marcus Vinicius Maltempi, professor do programa de pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro em Educação Matemática e Sandro Caramaschi, psicólogo e professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru

Pais devem estar sempre atentos

Sandro Caramaschi, psicólogo e professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, diz que a nova classificação, que inclui o transtorno por jogos eletrônicos na lista de doenças, facilita a definição de um campo de ação, mas não é uma coisa totalmente nova. “É uma compulsão”, define.

Marcus Vinicius Maltempi, professor do programa de pós-graduação da Unesp de Rio Claro em Educação Matemática, acredita que a dependência em jogos, como outras, pode ser entendida como doença. Ela pode impactar no desenvolvimento cognitivo, emocional e educacional da criança, que pode se tornar imediatista, superficial, depressiva, se isolar e ter dificuldade de lidar com a depressão.

Caramaschi aconselha os pais a prestarem atenção se a utilização dos meios digitais está prejudicando outras atividades. “O que a gente espera para o bom desenvolvimento infantil é que a criança tenha o máximo de experiências”, afirma. Se a pessoa – seja ela criança ou adulto – estiver deixando de aproveitar situações da vida (saiba mais ao lado), há um sinal de alerta e algumas medidas podem ser tomadas.

O professor Eduardo Martins Morgado, do Departamento de Computação da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru, acredita que os responsáveis devem monitorar tudo que o pequeno faz quando conectado. Caso contrário, podem ter acesso a informações não condizentes com a idade, o que é prejudicial.

José, pai de Caio (nomes fictícios), conta que sempre chega de surpresa e pede para ver o que o filho está fazendo. O pequeno tem um canal no YouTube, e o pai conversou sobre o que ele pode encontrar por lá. "Expliquei que tem muita gente maldosa e sem educação na internet e que se ele não souber se afastar dessas coisas eu tiro o celular de uma vez por todas", afirma. 

Apesar dos cuidados, a preocupação permanece. "Por mais que a gente tente controlar e supervisionar a qualidade das informações que ele está consumindo, acaba sendo impossível ter esse controle 100% do tempo."

Morgado faz um alerta aos pais. “Quando começam a oferecer o uso de jogos, aparelhos para não dar atenção à criança não é a tecnologia que está disfuncional, é o relacionamento pai e filho.”

 

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