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Diário da Região

22/01/2018 - 22h43min / Atualizado 23/01/2018 - 09h09min

CUIDADO E BOM GOSTO

Músicas com apologia à criminalidade geram polêmica

Em meio a letras polêmicas, que chegam a fazer apologia à violência sexual e de outros tipos, é preciso conversar com os filhos para evitar que o conteúdo das músicas influenciem as crianças

Johnny Torres 22/1/2018 A pequena Melissa, 4 anos, com os pais Leonan e Nathália: não permitem que a menina ouça músicas impróprias
A pequena Melissa, 4 anos, com os pais Leonan e Nathália: não permitem que a menina ouça músicas impróprias

Em tempos em que as crianças estão constantemente conectadas, pode ser um desafio para os pais lidar com a exposição dos pequenos às letras de músicas, principalmente aquelas que apresentam conteúdo sexual ou de violência. Nos últimos dias, dois funks do tipo foram alvo de protestos de mulheres porque incentivariam o estupro: "Surubinha de leve", de MC Diguinho, e "Vai, faz a fila", de MC Denny.

O cabeleireiro Leonan Moreira Batista, de 26 anos, e a mulher Nathália Favaro Cândido, esteticista de 25 anos, não escutam esse tipo de canção em casa. A filha Melissa, 4, não tem acesso a esse tipo de conteúdo e o relacionamento com os pais é pautado em conversas. "Como ela não tem acesso a gente ainda não achou necessário falar sobre. A gente explica sobre tudo. As crianças de quatro anos são muito inteligentes. Ela não ouve em casa", diz ele. O pai garante que quando a filha for mais velha vai falar sobre as músicas com ela e explicar que o que é pregado nelas não é correto, para que ela decida se quer ouvir ou não.

Em "Só Surubinha de Leve", MC Diguinho canta para dar bebida às meninas, praticar o ato sexual e depois abandoná-las na rua. Após a polêmica, ele mudou a letra, dizendo agora: "Taca a bebida / Depois taca e fica / Mas não abandona na rua". O relançamento ocorreu na quinta-feira, 18. "Espero que vocês possam compreender, em nenhum momento passou pela minha cabeça ofender ninguém, na minha casa são quatro mulheres, minha mãe, duas irmãs e uma sobrinha, não tem porque eu fazer algo para ofender as mulheres e nem a ninguém porque minha mãe me deu educação para respeitar o próximo", defendeu-se o cantor em seu Instagram. Em comunicado oficial, a assessoria de imprensa disse que ele reconhece o conflito de informações e que jamais iria denegrir a honra e a moral das mulheres.

Em "Vai, faz a fila", MC Denny afirma que manteria relações sexuais com a mulher ainda que ela pedisse para parar, pois foi ela quem escolheu ir até onde ele está. A reportagem não conseguiu contato com o cantor.

Andréia Regina de Souza Passos, funcionária pública de 47 anos, é mãe do médico Rafael, do estudante de gastronomia Leonardo e do estudante Pedro, respectivamente, de 27, 19 e 12 anos. Ela conta que não perde oportunidades de conversar com eles, desde pequenos. "Às vezes você está em um passeio e passa alguém. A partir da música ali no carro a gente já começa uma discussão", afirma. Ela pergunta o que os filhos acham, fazendo com que pensem. "Acho que a partir do convívio eles vão criando noção de que aquela música não é legal. Parte do pressuposto que eles têm senso crítico, você só aguça isso", acredita. A postura é a mesma para qualquer tipo de letra com relação à violência. "Sempre fui a favor da conversa, aqui a violência não impera dentro de casa. Para eles, ver uma cena de violência é incomum."

Leonardo conta que sempre gostou de canções que fazem refletir. Acredita que as músicas podem influenciar o comportamento, tanto no tipo de roupa que se usa quanto nas ações negativas. "Se os pais não orientarem que isso é errado, os filhos vão achar que essa apologia ao crime, ao estupro é certa. Os pais têm que intervir sim, e falar que é errado."

O tenente Aderley Doreto, da banda da Polícia Militar, afirma que a PM é contrária a todas as músicas que incentivam o comportamento violento. "Sou contra essa estimulação. A gente vive em um país democrático em que a cultura é de cada um. Culturalmente as pessoas têm muita liberdade", afirma. Ele comenta que a PM tem o projeto Músicos do Futuro, voltado para crianças de 10 anos que estão cursando o 4º ano do ensino fundamental. "A gente aproveita para ensinar civismo, cidadania, patriotismo e música também, com flauta e coral."

Justiça

A Constituição Federal garante a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação. Na última semana, as comissões da Ordem dos Advogados do Brasil da Mulher e de Segurança Pública, seção do Estado do Rio de Janeiro, divulgaram nota repudiando qualquer tipo de manifestação que, sob o manto de caráter social e cultural, apresente conteúdo machista e reitere a cultura do estupro. A decisão partiu da divulgação de "Só Surubinha de Leve", que teve milhões de visualizações na versão original.

O texto aponta o respeito e valor que deve ser dado ao funk e diz que não há na nota intenção de censura. "O enquadramento da letra da referida música como crime ou não precisa ser apurado pelo Ministério Público."

Outra letra

Outra música que faz sucesso e traz letra polêmica é "Que tiro foi esse", de Jojo Maronttinni. Na internet, "que tiro foi esse" significa algo arrasador, magnífico, semelhante à expressão "lacrar", quando alguém está muito bonito e arrumado ou fez algo grande. Jojo divulgou um vídeo dizendo que jamais faria uma música incentivando a violência e pedindo para que as pessoas não falem sobre o que não conhecem ou viveram em uma comunidade.

O que dizem as músicas

Só Surubinha de Leve

MC Diguinho

A música fala que as pessoas podem ir sem dinheiro, mas devem levar mulheres. O refrão manda dar bebidas alcoólicas para as meninas, manter relações sexuais com elas e depois abandoná-las na rua.

Vai, faz a Fila

MC Denny

Na letra, o rapaz chama a mulher para perder a virgindade e diz que manterá relações sexuais com ela mesmo que ela peça para ele parar, pois foi ela que o procurou então "vai aguentar."

Que Tiro foi Esse?

Jojo Maronttinni

Na letra, ela canta: "Que tiro foi esse, que tá um arraso? / Samba / Na cara da inimiga / Samba / Desfila com as amigas / Quer causar, a gente causa". Embora a letra fale de tiro, essa é uma expressão que significa que a pessoa "arrasou", está muito bonita, algo semelhante à expressão "lacrar".

Dicas para os pais

Converse com seu filho. Tratando adequadamente, qualquer tema pode ser debatido em qualquer idade. Na dúvida de como abordar, procure ajuda de um psicólogo - tratar de forma errada assuntos delicados pode trazer complicações.

Explique claramente as razões pelas quais você acredita que aquele não é um material adequado. Assim, você dá a ele formas de decidir sozinho o que é melhor com base em argumentos e não em proibições.

Proibir não é a melhor opção. Para a criança e o adolescentes que estão buscando sua identidade, isso pode ser um incentivo a que ouçam a música que os pais estão vetando.

Se você não quer que seu filho escute determinada canção ou tenha determinado comportamento, não a ouça você também nem faça o que está pedindo que o menor não faça. Crianças e adolescentes se espelham nos pais. Além disso, você perde a credibilidade ao dizer que uma coisa que você mesmo faz é errada.

Fonte: Alexandre Caprio, psicólogo

 

Proibir não é o caminho

O psicólogo Alexandre Caprio explica que a criança está em desenvolvimento. Se ouve uma música - e vê o cantor, por exemplo, cercado de bens materiais e por mulheres - pode achar que um discurso oposto ao da canção é demagogo e que o que a letra diz é verdadeiro.

Caprio acredita que proibir a criança ou adolescente de ouvir determinada música não é a melhor opção. "Estão tentando encontrar a identidade deles. É muito comum que na busca neguem o que os pais dizem durante um período. No momento que o pai proíbe alguma coisa a chance do garoto achar que o pai é careta, antigo e inadequado e a proibição se tornar o estímulo é muito grande."

O ideal é que os responsáveis expliquem à criança o porquê de a canção - ou qualquer outro material - não ser bacana. Assim, o jovem tem o poder de tomar uma decisão por si mesmo, baseado na lógica e não na proibição. Outra orientação é para que os pais não ouçam a música que não querem que o filho escute, pois eles são referência. "Não adianta ele vir falar que aquilo é ruim. Você monta um palco todo cheio de símbolos durante a vida da criança. Como é que depois chega dizendo que aquilo não é correto se você instituiu?" (MG)

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