Diário da Região

12/01/2018 - 16h45min / Atualizado 12/01/2018 - 16h55min

ARTISTA DO MUNDO

'Meu trabalho surgiu ruas e permanece nas ruas', diz Kobra em entrevista ao Diário

Uma das principais referências da street art na atualidade, grafiteiro e muralista Eduardo Kobra está presente nos cinco continentes com seus imensos painéis urbanos

Divulgação Eduardo Kobra
Eduardo Kobra

Das ruas da cidade de São Paulo para o mundo, o grafiteiro e muralista Eduardo Kobra, 41 anos, tem sua arte presente nos cinco continentes. Seus imensos paineis colorem a paisagem urbana de mais de 30 países, fazendo do brasileiro uma das principais referências da street art na atualidade.

Sua série mais representativa é Olhares da Paz, em que pinta figuras icônicas que lutaram por um mundo mais tolerante e menos desigual. Por meio da pintura 3D, Kobra já retratou nomes como Nelson Mandela, Anne Frank, Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama, John Lennon e Frida Kahlo.

Entre suas produções mais recentes está o mural feito na entrada de uma estação ferroviária em Mumbai, na Índia, em outubro de 2017, em homenagem a Mahatma Gandhi, que foi retratado pelo brasileiro desembarcando de um trem em um vagão de terceira classe.

"Há essa mensagem de humildade que o Gandhi transmitia, mostrando que todos são iguais. Das milhares de pessoas que frequentam ali (estação ferroviária), todas têm sua importância na cidade", comenta Kobra em entrevista exclusiva à Revista Vida&Arte.

Outra produção recente do artista brasileiro foi o mural de aproximadamente 300 metros quadrados pintado em Palm Beach, na Flórida (EUA), durante o evento Canvas Outdoor Museum Show, em dezembro do ano passado. Situada atrás do Conselho Cultural de Palm Beach, a obra traz uma releitura do icônico discurso I Have a Dream (“Eu Tenho um Sonho"), feito pelo ativista norte-americano Martin Luther King, sobre a necessidade de união e coexistência harmônica e pacífica entre brancos e afrodescendentes.

"Nosso mural servirá como uma manifestação artística contra todas as formas de preconceito e intolerância. Uma arte pela paz e pela manutenção do sonho de que possamos construir, juntos, um mundo melhor para todos”, afirma o artista, que participou pela segunda vez do evento na Flórida - em 2015 ele pintou as obras Einstein vai à Praia e Hamlet.

História e natureza

Um dos pioneiros da pintura 3D, Kobra também envolve a memória e a defesa do meio ambiente em suas criações. Por meio da série Muros das Memórias, ele cria o contraste entre o antigo e o contemporâneo. Somente em São Paulo, imagens antigas da capital paulista ocupam cerca de 40 locais. Também há obras memorialistas em cidades como Belém, Rio de Janeiro e Santa Maria (RS), além de países como Estados Unidos, Suécia, França, Inglaterra, Rússia, Polônia, México, Japão, Emirados Árabes e Taiti.

Outra importante série é Greenpincel, que busca alertar e combater as agressões do homem aos animais e ao planeta como um todo. Uma das obras é o chocante mural Welcome to Amazônia, na Avenida Rebouças, em São Paulo, que mostra um ambiente totalmente arrasado. “Todas as tragédias naturais que têm acontecido em nosso planeta mostram que proteger os animais e a natureza como um todo é também uma forma de protegermos o ser humano”, diz.

Na entrevista à Revista Vida & Arte, o artista conta que estar presente nos cinco continentes era seu maior sonho. Hoje, o que lhe atrai é o novo. "Quero estar nos lugares onde nunca estive antes", sinaliza.

V&A - O que a rua representa hoje para sua arte, já que ela conquistou as galerias?

Eduardo Kobra - O meu trabalho surgiu nas ruas e permanece nas ruas. Nas galerias, eu produzo numa proporção infinitamente menor. As minhas produções para galerias são pontuais e específicas. Continuo com meu trabalho totalmente focado na rua. No dia em que o meu trabalho não puder mais estar nas ruas - isso, claro, por um motivo realmente importante (por exemplo, eu não consiga mais subir uma escada) -, não faz sentido simplesmente ele ir para as galerias. O meu trabalho está na principal galeria, que é a rua, que permite o acesso de todas as pessoas. A galeria é um outro tipo de suporte, que também considero importante, mas o artista de rua deve permanecer nas ruas. O que eu faço para as galerias é o seguinte: cada obra que pinto nas ruas tem um original, uma tela que acabo fazendo antes de pintar o muro. E essa obra eu acabo mandando para a galeria, que é uma peça única. Mas o foco é a rua mesmo.

V&A - Quais as principais dificuldades que enfrenta ao produzir um mural de grande proporção em meio ao caos urbano?

Kobra - Para mim, desafio é pintar coisa pequena, fazer desenho em menor escala. Isso eu não tenho a mínima afinidade. Não dá nem para esperar de mim isso. Agora, pintar na rua é natural, é o que eu faço há 28 anos. Eu me acostumei a grandes dimensões. Nós desenvolvemos algumas técnicas, algumas maneiras de se fazer isso. Há métodos de ampliação de imagem e tudo mais. Quando estou pintando na rua, nem barulho de automóvel me incomoda. Eu acabo ficando tão concentrado na pintura que a cidade se torna silenciosa. Inclusive, me sinto bem em lugares movimentados, com grande circulação de pessoas. Eu lá em cima do prédio, paradinho, olhando a cidade lá de cima, sabe? Acho um imenso privilégio poder ter minhas obras nesses pontos importantes da cidade. Eu sempre fui movido pelos desafios. Se você quer mexer comigo, me passe um trabalho que eu nunca fiz. Como sou autodidata, toda a minha carreira foi pautada nisso, na busca por descobrir as coisas, muitas vezes sem ter ninguém para poder dizer o que é que devia ser feito. Tudo na base da dedicação e da pesquisa.

V&A - Uma de suas recentes produções foi o mural de Gandhi em Mumbai, na Índia. Como é a arte urbana neste país? Você costuma entrar em contato com grafiteiros e artistas locais?

Kobra - O graffiti é um movimento novo, com cerca de 30, 40 anos de existência. Mas o grande momento é agora, de 20 anos pra cá. Então, em vários lugares do mundo é novo esse movimento. Na Índia, é novo. A Índia é um país que tem milênios de história da arte, a arquitetura e tudo mais, mas, com relação à street art, ao graffiti, não existe tradição alguma nesse aspecto. Eles estão começando, há um movimento, mas pequeno. Eu tive contato com alguns artistas de lá. Em todos os países que passo acabo conhecendo artistas, visito museus, galerias, vou conhecer as obras do grafiteiros. Claro que isso dentro do possível no período em que estou na cidade. De qualquer forma, o graffiti é um movimento novo na Índia. A gente acabou ocupando o principal cruzamento de Mumbai, numa estação de trem. O painel de Gandhi é tridimensional. Ele está em uma esquina, mas, quando você olha, você o vê como se ele estivesse reto. É o Gandhi descendo do trem num vagão de terceira classe. Então, há essa mensagem de humildade que o Gandhi transmitia, mostrando que todos são iguais. Das milhares de pessoas que frequentam ali, todas têm sua importância na cidade.

V&A - Na série Olhares da Paz, você já retratou grandes nomes que marcaram a história da humanidade. Haveria alguma personalidade viva que merecesse ser retratada nesta série?

Kobra - Eu fiz, recentemente, a Malala (Yousafzai) em Roma. Porém, grande parte dos meus trabalhos acaba sendo relacionada à memória e à história. Então, naturalmente, a maioria é de pessoas que já faleceram, que fizeram história em algum momento. Eu já retratei também o Dalai Lama - estou até com um painel novo nos Estados Unidos. Há, sim, personalidades vivas que são relevantes e importantes, mas ainda há muita história a ser contada através da pintura. Isso vai acontecendo naturalmente. Se eu chego em determinado local e há uma história bacana para ser contada, de uma coisa relevante, não tem nenhum problema. Outro exemplo: a gente fez em São Paulo um painel sobre o Condicionado. Se você for ver, o Condicionado é uma pessoa que está viva, é um morador de rua que viveu 20 anos numa praça e é um escritor superimportante. Ele vivia nessa praça escrevendo, tinha pilhas e pilhas de livros escritos lá. Hoje, ele saiu da rua. E é uma pessoa que acabei retratando porque achei relevante. Então, depende de cada caso. Mas não é nenhum impedimento. Eu fiz o Mano Brown dos Racionais porque acho que ele é uma pessoa importante na cultura urbana, uma voz ativa da periferia, uma voz do gueto, dos negros.

V&A - O graffiti é, sobretudo, um ato político. Você é uma pessoa ligada nos assuntos da política brasileira? O que acha desse momento?

Kobra - Eu sempre procuro usar os muros para passar uma mensagem. Não é só uma questão estética, há um argumento. Claro que exploro alguns segmentos na minha obra. Geralmente eu falo sobre história, sobre memória, proteção aos animais... tem ainda as pinturas em 3D. Eu tenho alguns murais relacionados a temas políticos, mas depende muito da situação. Eu não vou fazer aleatoriamente. Tenho uma série de painéis que pintei em São Paulo no ano passado, de uma série chamada São Paulo Uma Realidade Aumentada. Eu pintei 10 painéis falando da situação social da cidade: moradores de rua, questão política, fome, saúde, educação. É algo também presente no meu trabalho. Ou seja, se eu tiver uma inspiração nesse aspecto, nesse sentido, eu vou desenvolver. Acho superimportante e considero que os muros são, sim, uma forma de atingir as pessoas, de transmitir ideias, enfim, acaba sendo um veículo de comunicação. Um dos caras que eu mais me inspirei na história, que é o Diego Rivera (muralista mexicano), já utilizava os muros com esses princípios políticos. Como tenho uma história dentro da própria cultura hip hop, que também vem falando de questões políticas e sociais, isso faz parte, sim, do meu trabalho. Tudo o que acontece no cenário político brasileiro não reflete o que o povo brasileiro é. Reflete, sim, o que a classe política é. O povo brasileiro é um povo trabalhador, batalhador, que acorda cedo todo dia, trabalha, estuda... é um povo de luta que paga impostos altíssimos. É absurdo ver um país pobre que paga um preço tão caro morrendo nas filas dos hospitais. Isso é um absurdo. Se eu puder protestar e falar, eu vou fazer.

V&A - Há algum lugar que você gostaria de estar presente com a sua arte?

Kobra - Em 2017, eu completei os cinco continentes. São pouco mais de 30 países. É claro que tem países que eu volto algumas vezes. Nos Estados Unidos, já fiz vários murais. Não tenho um país específico. Eu tinha o desejo de estar nos cinco continentes, isso era algo que queria muito. Hoje, o que me move é a novidade. Se fosse pra escolher hoje, eu escolheria lugares que nunca estive antes. Meu padrão de escolha é esse hoje.

V&A - O que você gosta de fazer quando não está pintando ou criando?

Kobra - Eu tenho levado uma vida muito mais tranquila atualmente. Eu viajo muito - somente este ano estive em 13 países; foi um ano bastante tenso. Todos pingando, não foi nenhum a passeio. E eu fui com um bebê de um ano e seis meses. Quando não estou trabalhando, eu estou com ele. Ele foi para seis países comigo no ano passado. É uma questão difícil para mim, como eu vou priorizar duas coisas tão importantes na minha vida. Hoje, esses princípios de família, de estar com meu filho, predominam na minha vida. Então, quando não estou trabalhando, estou com meu filho. Não tenho nenhum grande hobby. Minha vida toda é focada simplesmente na minha arte. 

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