Diário da Região

09/12/2017 - 21h32min

Artigo

Nós e a dança dos preços

Divulgação Celso Ming
Celso Ming

Os números não mentem, a inflação mergulha mês a mês, mas continua difícil convencer o consumidor. Quando volta do supermercado, muita gente balança a cabeça, carregada de incredulidade: "Os jornais dizem que a inflação caiu, mas, no meu bolso, não baixou, os preços continuam subindo, minha vida fica todos os meses mais cara". Pergunta: tem cabimento essa percepção? Como tanta gente pode estar enganada?

Não cabem suspeitas sobre a apuração do IBGE. Pode acontecer algum engano nos levantamentos, mas, se houver, no mês seguinte virá a correção à medida que os novos preços forem pesquisados. Além disso, o IBGE não é o único instituto que faz esse tipo de pesquisa. É verdade, os universos não coincidem. A Fipe, por exemplo, pesquisa apenas o custo de vida da classe média e, ainda assim, apenas na Grande São Paulo. O Dieese foca a classe trabalhadora, também em São Paulo. E a Fundação Getulio Vargas trabalha com outro mix, que abrange apenas sete capitais. Mas os resultados são consistentes e convergentes entre si.

Um dos fatores que devem ter contribuído para a percepção de inflação em alta foi a disparada dos preços do botijão de gás (14,75% em 11 meses); o avanço da conta de luz (13,87%); e a perspectiva de alta forte nas mensalidades das escolas particulares (coisa de 9,0% em janeiro). Mas os custos de casa e comida, que têm peso forte na cesta de consumo, caíram ( -1,51% e -2,40%, respectivamente) mais do que o necessário para compensar essas e outras altas.

O que deve ser acrescentado é que, na prática, o custo de vida calculado pelo IBGE não existe, porque corresponde a uma média e a família média não existe. A rigor, cada pessoa tem custo de vida diferente da outra, porque as cestas de consumo não coincidem.

Família com bebê em casa, por exemplo, consome mais leite em pó, fraldas, essas coisas. Os coroas de casa gastam mais com remédios, tratamento de saúde e menos com condução. Os intelectuais compram mais livros; e quem viaja muito tem mais despesa com passagens aéreas, hospedagem e tal.

Isso assim considerado, na média, o custo de vida está bem mais baixo do que há um ano, o que planta consequências também díspares, caso a caso.

Proprietários de imóveis que vivem de aluguel, por exemplo, enfrentam, pela primeira vez em muitos anos, reajustes negativos. Também ficou difícil compor uma carteira de títulos de renda fixa que proporcionem rentabilidade superior a 10% ao ano. E, como prestadores de serviços estão mal acostumados a reajustar tudo muito para cima, renegociação de contrato passou a dar mais trabalho.

Porém, no geral, viver com uma inflação mais baixa traz inúmeras vantagens. O salário ficou mais preservado, o consumidor mantém melhor a memória dos preços: a cada chegada à prateleira de supermercado ficou mais fácil lembrar de qual foi o último preço pago no sabão em pó ou no quilo de tomate.

Mas falta muito para que os benefícios da inflação mais baixa sejam incorporados ao dia a dia das pessoas. Falta, por exemplo, cair o custo do crédito.

 

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