Diário da Região

09/12/2017 - 16h47min

ENTREVISTA

Ciborgues pela própria natureza

Para o dramaturgo, diretor e pesquisador Rodolfo García Vázquez, do grupo paulistano Os Satyros, as tecnologias presentes no cotidiano redimensionaram o ser humano à condição ciborgue

Jorge Etecheber/Divulgação Dramaturgo e diretor Rodolfo García Vázquez, do grupo Os Satyros
Dramaturgo e diretor Rodolfo García Vázquez, do grupo Os Satyros

As tecnologias redimensionaram a existência a tal ponto que hoje é difícil dissociar os inúmeros recursos contemporâneos presentes no cotidiano da essência do ser humano. E são elas, as tecnologias, que dão ao humano a condição de ciborgue, assunto que é estudado há quase dez anos pelo diretor, dramaturgo e pesquisador Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores do grupo teatral Os Satyros, de São Paulo, que completou 27 anos de trajetória em 2017.

"Vivemos um outro tempo, não podemos mais ser as pessoas que nossos avós eram. A gente vive outro mundo, com uma maneira diferente de lhe dar com a vida", comenta ele, que esteve em Rio Preto para falar sobre a condição ciborgue em bate-papo realizado pelo Sesc dentro da programação da Semana Inclusiva. "A gente não consegue mais ter uma vida sem a eletrônica, sem o mundo digital, sem o celular."

Em entrevista ao Diário, o dramaturgo e diretor também falou sobre A Filosofia na Alcova, filme inspirado na obra do escritor libertino Marquês de Sade (1740-1814) que foi lançado pelo grupo paulistano no mês passado. O longa traz para a telona a história contada na primeira peça d'Os Satyros, que causou muito rebuliço por onde passou nos anos 1990. 

Explorando os recônditos da sexualidade humana, A Filosofia na Alcova soa como um manifesto perante a onda conservadora sobre as manifestações artísticas na atualidade.

Para ele, a censura que essa onda conservadora vem querendo impor ao universo artístico é fruto do medo diante do novo. "Os negros, as mulheres, os homossexuais, os transexuais, todas essas minorias que foram caladas durante toda a história da humanidade, estão começando a se colocar de uma forma diferente. E isso está assustando, as pessoas não sabem o que fazer com isso", destaca.

Qual a linha de raciocínio de sua pesquisa sobre a condição ciborgue?  

Rodolfo García Vázquez - Tudo começou com uma pesquisa sobre o teatro expandido. A gente estava pesquisando principalmente a telefonia na cena; como é que poderíamos usar o telefone, o celular em cena. Esse foi o primeiro impulso para essa discussão. A gente começou a trabalhar também com a internet em cena.

O teatro evitou se relacionar com a tecnologia. No ano passado, acabei meu mestrado, que discutia justamente isso: por que o teatro raramente foi visto como uma arte que é também tecnológica, como essa arte tecnológica pode ser experimentada hoje em dia e como ela reflete nossa vida? Vivemos um outro tempo, não podemos mais ser as pessoas que nossos avós eram. A gente vive um outro mundo, com uma maneira diferente de lhe dar com a vida.

Essa condição ciborgue, de certa forma, pode estar relacionada a vida cada mais automatizada do ser humano?

Vázquez - Na verdade, tento evitar um olhar moral sobre essas questões. Acho que a humanidade está vivendo uma nova experiência. Não sei se é a própria tecnologia em si ou se é o sistema em que nós vivemos - o sistema capitalista, neoliberal -, a forma como ele se organiza, que faz com que a gente tenha relações mais fragilizadas e mais volúveis. Mas também tem outros aspectos que acho muito importantes, como a questão da tecnologia da medicina e de como os medicamentos, por exemplo, mudam o nosso comportamento.

Se você fizer uma pesquisa com adolescentes, pelo menos 20%, 30% deles já consumiram algum tipo de antidepressivo ou estimulante. Nós somos uma sociedade medicada, e esse excesso de medicação é uma condição ciborgue.

É um campo em que ainda muitas questões estão sendo colocadas. Não sei como vai ser a próxima geração. Os famosos milleniuns já têm uma série de características muito marcadas pela tecnologia. Há estudos que mostram que crianças de 3 anos, por exemplo, têm dificuldade de distinguir o que é real do que é digital. Para elas, um bicho que morre na vida real e um bicho que morre na vida digital é praticamente a mesma coisa. Ou seja, a própria experiência da morte está mudando, a experiência da dor está mudando.

Vocês acabaram de estrear o filme A Filosofia na Alcova, baseado em um livro de Marquês de Sade que marcou a primeira montagem d'Os Satyros. A peça, em sua época, causou rebuliço por onde passou, e o filme estreia justamente em um momento que artes estão sendo alvo de censura por conta dessa questão do nu. 

Rodolfo García Vázquez - Há uma onda conservadora que está muito forte agora; o movimento pró-Bolsonaro é um pouco reflexo disso. Mas acho que o Bolsonaro está ocupando um espaço que não é dele. As pessoas querem alguma coisa nova na política e ele, por uma série de circunstâncias, ocupou esse espaço. Ele tem um viés muito mais conservador do que a sociedade de uma forma geral.

O movimento conservador botou a cara na rua, que era uma coisa que os conservadores no Brasil controlavam mais. Agora, eles estão se expondo mais, assumindo coisas. O protesto contra Judith Butler em São Paulo foi bem forte nesse sentido. Mas são segmentos sociais. 

Na sua opinião, o que Marquês de Sade tem a nos ensinar nos dias de hoje?

Vázquez - O Marquês de Sade coloca muito a questão da hipocrisia, de como a gente cultiva valores hipócritas, como aquilo que vale para um não vale para outro, como a defesa da moral e dos bons costumes, na verdade, oculta um desejo muito grande de controlar a vida do outro, reprimir e não deixar as pessoas serem o que elas são.

Toda a discussão em torno da Judith Butler, por exemplo, que batizaram de ideologia de gênero, é algo muito complicado. Ideologia de gênero é você achar que todo mundo que nasce com um pênis ou uma vagina vai ter um determinado tipo de comportamento. Isso é ideologia de gênero. O que ela (Judith Butler) coloca é que não é todo mundo que nasce com um pênis que vai querer usar roupa azul e vai querer brincar de carrinho. É essa discussão que ela faz. A discussão dela está muito ligada ao princípio de que não devemos fazer sofrer uma criança que nasce diferente. A busca dela, na verdade, é de tentar fazer com que as pessoas entendam que a repressão excessiva causa mais dor, mais transtorno e mais trauma do que se você aceitar a condição daquela criança, independentemente de seus valores religiosos.

Você acredita que essa onda conservadora é uma ameaça à metáfora que é inerente ao universo das artes?

Vázquez - A pessoas estão muito literais. E essa literalidade está tirando a poesia da vida e a poesia da arte. Uma vida sem poesia, uma arte sem poesia... você acaba tendo algo muito estéril. Mas isso, eu acho, é um fenômeno que está muito relacionado ao medo diante do novo. A sociedade está mudando muito. Os negros, as mulheres, os homossexuais, os transexuais, todas essas minorias que foram caladas durante toda a história da humanidade, estão começando a se colocar de uma forma diferente. E as pessoas não sabem o que fazer com isso.

Mas, a própria Judith Butler fala isso, a mudança é inevitável. As mulheres não vão continuar caladas, os negros, os homossexuais e os trans não ficarão calados, e as pessoas precisam entender esse outro mundo, esse novo mundo. Ainda bem que estamos nesse momento porque, nas outras gerações, negros, mulheres, homossexuais estavam calados. Era uma porcentagem gigantesca da população que era ridicularizada, humilhada, tratada como inferior. E, pela primeira vez na história da humanidade, essas populações estão adquirindo voz.

 

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