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TURISMO COLABORATIVO

O voluntário bate à sua porta

Troca de habilidades por hospedagem permite baratear custo da viagem e proporciona experiência com sabor de aventura


    • São José do Rio Preto
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Da janela do trem que partiu da Gare do Oriente, em Lisboa, rumo a Évora, em uma manhã de maio, capturei um cartão-postal da Ponte 25 de Abril com os primeiros reflexos do sol sobre o Rio Tejo e postei no Instagram : "Bom dia! Rumo ao desconhecido".

Desde o Porto, onde passava férias com a família vinda de Barcelona, foram dois trens, um ônibus e 13km de carro até a freguesia de Terena, pequena vila nas montanhas do Alentejo com campos de oliveira a perder de vista.

Ali, numa casa de campo alojada em uma construção do século XIX que servira no passado de residência do bispo, começava minha aventura: pelo programa de voluntariado do Worldpackers, por oito dias, em troca de diárias que me economizaram 600 euros naquele pequeno paraíso, trabalhei cinco horas por dia ajudando na restauração da pintura de paredes e redecoração do salão do pequeno almoço (café da manhã, em Portugal).

No lugar das entrevistas na cobertura da política em Brasília nesses tempos insanos, por oito dias, fui pintora de paredes, recepcionista, cozinheira e arrumadeira. Nas horas de folga, passeava por aldeias e cidades vizinhas, bebia vinho e cerveja como uma turista qualquer.

Partindo de Évora até a província de Redondo, venci o trecho de ônibus. Desembarquei numa pracinha e fiquei sentada no meio-fio à espera de meu "patrão" e hospedeiro, o senhor Altino, gerente da Casa de Terena. Da esquina, o condutor sorridente de um carro bem usado, com uma flor artificial enfeitando o painel gritou: "Maria!!".

O senhor Altino merece um parágrafo a parte. Açoriano bonachão de meia-idade, poeta, tem diploma de psicoterapeuta na London College Clinical Hypnosis. Com dois filhos, abandonou a vida de hábitos sofisticados na capital Lisboa e abraçou a rotina simples na Aldeia de Terena, onde se come em mesas colocadas no meio da rua e se toma chá com os poucos vizinhos no cair da tarde. É o gerente e o faz tudo na hospedaria.

Preparando a casa

Instalei-me no meu quarto de hóspede de paredes brancas caiadas, lindamente decorado com motivos campestres e um jarro com um botão de rosa e ramos de alecrim na cabeceira da cama. A janela abria para outro cartão-postal: um castelo medieval do século XIII e um lago rodeado por campos de oliveiras com o pôr do sol das montanhas do Alentejo. O bom gosto se repete na decoração das outras seis suítes - uma delas nupcial - da Casa de Terena.

Seu Altino me informou que às 19h eu deveria descer para comer. A primeira de muitas deliciosas refeições preparadas por ele foi um banquete: guisado de javali, pão fresco alentejano, conserva de azeitonas colhidas no pé, salada de favas, queijo de cabra, vinho e azeite produzidos na região que eu praticamente bebia nos oito dias que lá estive. Depois da comida farta, ele avisou:

"Amanhã começamos a trabalhar às 9h. Temos que restaurar o salão do pequeno almoço para a chegada dos hóspedes da alta temporada, que vai de julho a outubro."

Trabalho duro e boas lembranças

Desci para meu primeiro dia de trabalho atrasada. Tomei meu farto café na cozinha, acompanhada por Elias, o gato que pulava no meu colo sempre que eu me sentava à beira da janela para aproveitar o visual dos campos. Do outro lado da parede, ao som de músicos portugueses no celular, seu Altino já estava a mil, com tudo desmontado, mesas cobertas, latas de massa espalhadas. Ele me entregou espátulas, luvas, e começamos a transformação. A tarefa era, junto com Altino, raspar as partes com mofo, limpar, emassar e pintar trechos descascados nas paredes.

"Pegue ali umas moedas e vá ao mercado da Ana Maria buscar mais um pacote de massa corrida", pediu seu Altino.

Peguei a bolsinha de moedas e, de boca em boca, achei o mercado da Ana Maria. Comprei a massa corrida e três garrafinhas da deliciosa cerveja Sagres. De volta em cerca de meia hora, retornei ao batente e entreguei a encomenda.

"Você bateu o recorde de tempo. Faço esse teste com todos os voluntários no primeiro dia para ver se são espertos e como se viram para chegar na Ana Maria e voltar com a encomenda", disse seu Altino, rindo, se divertindo com a pegadinha.

No primeiro dia, trabalhei das 10h às 15h, com intervalo de almoço em mesinhas de azulejos colocadas do outro lado da rua. O almoço foi pão produzido no local, pesto, presunto ibérico, salada de tomate e atum com folhas, empadinhas da Ana Maria, queijo de cabra, azeite (muito azeite) e uma (só uma) cervejinha Sagres. De sobremesa, castanhas, nêsperas e amêndoas amargas, que em Portugal usam para fazer o licor Amarguinha.

No terceiro dia, com outras tarefas no meio da restauração do salão, novo desafio: cozinhar meia dúzia de codorninhas já depenadas. Suei frio mas fui em frente. Peguei o celular e me socorri com uma receita do Caderno Ela: "Aprenda a fazer uma deliciosa codorna ao molho de especiarias do chef Marcos Alvim, do Carmelo Restaurante".

Mandei bala na adaptação da receita: temperar e marinar as codorninhas com as coxinhas amarradas com alho, sal marinho, suco e raspa de laranja, pimenta branca, pimenta rosa e recheio de azeite, um dente de alho e um talho de presunto. No forno, regar com molho de alho, cebola, manteiga de leite cru, vinho tinto, açúcar mascavo e vinagre balsâmico. Servi com arroz de açafrão e purê de maçãs. E não é que passei no teste e recebi elogios?

Gorjetas

No quinto dia de trabalho, ganhei a primeira gorjeta da minha vida. Ajudei a servir a mesa do café e arrumar as camas de dois casais de ciclistas alemães que corriam o Alentejo de bike. Na chegada, os recepcionei com água fresca perfumada com rodelas de laranja e flor de anis. Na partida, eles deixaram 160 euros pelo pernoite em cada quarto duplo com café da manhã e 2 euros de gorjeta. Seu Altino disse que é regra sagrada, na Europa, dar gorjeta para as camareiras.

Feliz com meus 2 euros, convidei seu Altino para chutar o balde e jantar na Tasca do Botas, onde o chef, Inácio, levanta às 6h para preparar o bacalhau, as verduras e as carnes para o almoço e o jantar. Na pequena mas concorrida tasca, sua mulher, Ana Maria, sai de trás do balcão do mercadinho e o ajuda a servir as mesas. Além do bacalhau, outras especialidades da casa são caracóis de entrada e bochechas de porco assadas como prato principal. Os 2 euros não deram nem para a primeira garrafa de vinho, mas era simbólica a parte do pagamento com minha gorjeta ganha com trabalho duro.

No sexto dia, a sala do pequeno almoço já estava repintada, as cortinas com motivos campestres, limpas e recolocadas. Os enfeites da janela e nas paredes com escritos e flores artificiais de antes foram substituídos por peças de azulejaria típicas do Alentejo. As mesinhas com vasinhos de flores frescas e ramos de alecrim davam o toque final.

Missão cumprida, no domingo enchemos o tanque do carro de gasolina e partimos para Évora. Seu Altino foi meu guia turístico no impressionante Museu dos Ossos e nas torres da Catedral da Sé, a maior catedral medieval portuguesa. Depois de oito dias, já era hora de refazer as malas e voltar para o Porto para, aí sim, como turista, terminar as férias, com a cabeça leve e muitas lembranças boas.

Trabalho e turismo

O programa Worldpackers é uma plataforma criada pelos brasileiros Riq Lima e Eric Faria, que promove a conexão de viajantes que querem gastar pouco dinheiro com cerca de 700 hostels ou pequenas pousadas e casas de campo pelo mundo. Quando você se inscreve no programa, escolhe o continente ou lugar que quer conhecer. Analisa as opções de hospedagem, detalha suas habilidades e se candidata. Se for aceito (por até quatro meses), paga taxa de até US$ 50, dependendo do estabelecimento e agenda o período de trabalho e turismo.

O programa também conecta pessoas que querem fazer trabalho social, de ajuda em escolas ou hospitais na África, por exemplo. Já são 16 mil viajantes cadastrados em mais de 90 países para trocar experiências em ONGs, pousadas e, a grande maioria, hostels. Não é só trabalho, nem só turismo. É trabalho e turismo. Quem se candidata tem que entregar o trabalho que se dispôs a fazer, com carga horária variável. Alimentação e outros benefícios podem estar incluídos ou não.

Um dos criadores do Worldpackers, o economista Riq Lima trabalhava em um grande banco de investimentos, mas não encontrava um propósito na vida. Como ele relata no vídeo de apresentação do programa, pediu demissão, comprou passagem só de ida para a África e hoje mora no mundo: "A gente acredita que viagens transformam as pessoas. E são essas pessoas que transformam o mundo".

No Brasil, há dezenas de pousadas e hostels em São Paulo, Rio ou cidades de praia inscritos no Worldpackers. A Casa de Terena, em Portugal, me conquistou pela descrição do lugar. No site do Worldpackers a referência à casa diz, com fidelidade, para quem se interessa em trocar algumas horas de trabalho por diárias:

"Procuras tranquilidade no campo, junto da natureza? Este lugar é fantástico, numa pequena aldeia do Alentejo. Próximo das pessoas para conhecer seus costumes e tradições. Longe das grandes cidades e da correria do mundo agitado. Aqui todos se encontram verdadeiramente. Para bons momentos, desfrutar a natureza, o lago, os castelos, e ajudando nosso projeto. Somos uma casa de turismo rural com seis quartos e a nossa equipe é como uma família. É um pequeno negócio, e nossos clientes procuram tranquilidade, campo, natureza e harmonia. Procuramos voluntários que façam da nossa casa o seu lar por uma temporada. A vila de Terena tem uma energia muito boa e queremos que se sintam tocados por ela. Bem-vindos de alma e coração".

Fui de alma e coração. Minha experiência foi muito além da expectativa. Ia tirar férias e ficar um mês na Europa. Por curiosidade me inscrevi. Fui aceita na Casa de Terena e em um hotel em Paraty. Não dava para fazer as duas no período de folga. Antes de Portugal, eu viajaria para a Espanha. Meus amigos no Brasil me perguntavam: "Você vai tirar férias para trabalhar?" E eu explicava como era o programa, de pagar com trabalho pela hospedagem, e como isso poderia ser uma troca cultural interessante.

Volta sempre, Maria

Fui aprovada com 5 estrelinhas. Só não cumpri uma tarefa: depenar um faisão com água quente para o almoço de sábado. Mas a avaliação no meu perfil do programa feita por meu 'patrão' e hospedeiro, seu Altino, relevou a inabilidade com o faisão, e diz que posso repetir a dose:

"Maria foi uma ajuda preciosa na nossa casa. Sempre disponível para colaborar em todas as áreas, da cozinha a manutenção e recepção de hóspedes. Muito pontual e cumpridora de suas tarefas. Decoradora de muito bom gosto. É excelente conversadora, muito atenta e interessada na cultura local. Uma voluntária 5 estrelas e amiga de coração grande. E gosta muito do pão alentejano com azeite! Volta sempre, Maria".

Para fazer o bem

Também não faltam opções de viagens voluntárias cujo objetivo é contribuir para alguma instituição, projeto ou ONG em comunidades carentes pelo mundo. As agências que oferecem este tipo de serviço têm programas variados, que vão desde atividades ambientais, como cuidado de pinguins na África do Sul, reforço escolar em orfanatos no Nepal e ajuda em postos de saúde na Tanzânia.

Outra opção é incluir no roteiro lugares que passaram por desastres naturais e que têm o turismo como meio de recuperação, como algumas ilhas caribenhas atingidas pelos furacões Irma, Maria e José este ano.

As agências cobram preços que variam de acordo com o tempo de viagem e o local escolhido. Em média, segundo as empresas pesquisadas, os pacotes custam US$ 1,5 mil, para programas de duas semanas no exterior, e R$ 1,5 mil para voluntariado no Brasil durante o mesmo período, sem a parte aérea.

Segundo Mariana Serra, uma das cofundadoras da agência especializada Volunteer Vacations, no Rio, o número de pessoas que procuram esse tipo de experiência aumenta a cada ano:

"As pessoas têm mais informações hoje em dia sobre o seu impacto social, a consciência é maior. E são pessoas que já viajaram da forma tradicional e buscam uma vivência diferente."

Campanha em Anguilla

A grande maioria dos programas não exige treinamento prévio. Refeição e hospedagem estão incluídos nos valores cobrados pelas agências. O requisito básico costuma ser o inglês, no mínimo, intermediário. E muitos exigem que os voluntários sejam maiores de idade. Apesar de os programas serem abertos a todos, bom senso é fundamental, diz Manuela:

"A pessoa tem que conhecer seus limites e habilidades, inclusive para que a experiência seja benéfica para ela e o local que escolheu."

Uma das ilhas do Caribe mais atingidas pelo furacão Irma, Anguilla lançou campanha Voluntourism, chamando os visitantes a colaborarem com a recuperação do país, ao mesmo tempo em que aproveitam suas belezas naturais. Uma das ações que fazem parte do projeto é a "Plant a tree, let it grow", em que os turistas participam de replantio em áreas devastadas pelo furacão.

Anguilla aos poucos retoma as atividades, e as autoridades esperam receber os primeiros turistas já para as festas de fim de ano.