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Saúde Emocional

Homem não chora. Mas deveria!

De tanto segurar o choro - seja ao cair da bicicleta ou pelo brinquedo que não ganhou - os meninos crescem e se transformam em machões que não sabem demonstrar os seus sentimentos


    • São José do Rio Preto
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“Eu pediria desculpas se eu achasse que isso faria você mudar de ideia. Mas eu sei que desta vez eu falei demais, fui indelicado demais. Eu tento rir disso tudo, cobrindo com mentiras. Eu tento rir disso tudo, escondendo as lágrimas em meus olhos, pois garotos não choram. Garotos não choram”, diz a letra do clássico Boys Don't Cry (Garotos não choram), da britânica banda de rock The Cure – uma das mais influentes do rock alternativo moderno. A referência à canção é só para desmistificar a ideia de que só o Brasil é um País machista, cuja sociedade ensina às crianças que meninos não choram. Esse equivocado conceito faz do verbo chorar um sinônimo de fraqueza, delicadeza e insegurança. E de tanto segurar o choro – seja ao cair da bicicleta ou pelo brinquedo que não ganhou – os meninos crescem e se transformam em machões que não sabem demonstrar os seus sentimentos.

O psicólogo Josinel Braga Carmona, de Rio Preto, concorda que esse pensamento machista existe em diversos países. “A cultura teve início entre os primatas. Em qualquer espécie de animal que vive em grupo, o macho sempre briga pelo território e pelo direito das fêmeas. Nós temos esses resquícios em nossa mente”, explica. “Nesse sentido, o choro é visto como uma fraqueza. E quando eu transmito essa fraqueza, estou dando ao meu oponente a possibilidade dele me atacar”, observa.

Já a psicóloga Mônica Valêncio, especialista em terapia sexual, de Rio Preto, diz que os homens não gostam de falar ou demonstrar suas emoções porque sentem-se envergonhados ou vulneráveis demais. “Ao demonstrar emoções como o choro, por exemplo, o homem não se torna desprezível ou admirável. A emoção simplesmente demonstra exatamente o que aquela pessoa está sentindo naquele momento. Não há fundamento para essa cultura, de que homem não chora, pois o ser humano é um ser emocional, dotado de cinco emoções básicas, que são nojo, tristeza, felicidade, medo e raiva. Ou seja, nascemos com este pacote incluso”, diz.

País machista

Mônica afirma que o problema é cultural e, por isso, alerta que os pais precisam mudar a forma de educar os filhos. “O Brasil ainda é um País machista. Ainda existe a crença de que o homem, para ser macho, deve ser pouco afetivo. O problema começa na educação de meninos que ouvem as mães dizendo: ‘menino não chora’ ou ‘engole essa lágrima’. Infelizmente, os garotos são ensinados de que não se devem expor os seus sentimentos e, muito menos, chorar”, explica.

O problema, diz Mônica, começa a aparecer na adolescência, quando os meninos ficam extremamente confusos devido as inúmeras vivências e também pelas mudanças hormonais. “Os pais ensinam os filhos adolescentes a estudar, mas não os ensinam a se relacionar, se comunicar ou agir. Quem não tem o hábito de falar sobre o que sente, provavelmente terá uma dificuldade na expressão dos sentimentos”, alerta.

Prontos para a mudança

O psicólogo Josinel Braga Carmona diz que o Brasil já apresenta sinais de mudança, embora timidamente. “Antigamente, essa filosofia era muito pior. Mas, à medida que demos abertura para que os homens possam chorar, estamos ‘censurando’ o choro das mulheres”, afirma. Segundo ele, esse é um conflito que vai demorar alguns séculos, ou mais, para melhorar.

“Se o homem chorar como as mulheres, elas vão desaprovar esse comportamento. A mulher quer um homem mais participativo, carinhoso, atencioso e cuidadoso, mas ela não abriu mão da força masculina”, destaca. “Já o homem quer uma mulher delicada, mas que tenha desenvolvido uma força de trabalho, inclusive para ganhar dinheiro e ajudar em casa. Só que não conseguimos o equilíbrio. Somos protagonistas dessa transição e, por isso, estamos tão perdidos dentro dos papéis do masculino e do feminino. Todo mundo se quer diferente, mas ninguém se aceita na transição. A gente se quer pronto”, observa.