Diário da Região

27/11/2017 - 22h30min

Painel de Ideias

Padrão e preconceito

Qual é uma das lições do mito? Uma verdade inconveniente: há um pouco de Procusto em cada ser humano, e a cama de ferro representa padrões e estereótipos nos quais a humanidade insiste em enquadrar o outro

Arquivo Washington Paracatu | washingtonparacatu@gmail.com
Washington Paracatu | washingtonparacatu@gmail.com

Na mitologia grega, Procusto era um bandido cruel e sádico. Em linhas gerais, convidava viajantes ingênuos para que se alojassem em sua casa. Ali, ele tinha uma cama de ferro na qual se deitavam os hóspedes: se os forasteiros fossem pequenos para o leito, ele os esticava; se eram altos, ele os cortava. Ainda mais grave: eram duas camas de tamanhos diferentes para evitar a libertação do prisioneiro. Qual é uma das lições do mito? Uma verdade inconveniente: há um pouco de Procusto em cada ser humano, e a cama de ferro representa padrões e estereótipos nos quais a humanidade insiste em enquadrar o outro.

A história da imposição de padrões não se mostra recente e apresenta duas características marcantes: a xenofobia e a hipocrisia. Xenofobia significa, na origem da palavra, aversão ao estrangeiro. Hoje, significa muito mais: aversão e preconceito contra o diferente. Está na fonte de grande parte dos preconceitos humanos: racial, religioso, espacial. Traços marcantes e visíveis que facilitam a exclusão. Um exemplo: o ódio contra o nordestino, o boliviano, ou qualquer um do outro lado do suposto "nós". Já a hipocrisia explica, em síntese, o falso moralismo dos fanáticos religiosos e dos recalcados: condenam o pecado e o comportamento dos outros quando, na verdade, deliciam-se com as práticas condenadas, sejam elas a gula ou a luxúria.

E a cama de ferro, no contexto atual, conta com o auxílio de alguns fatores para a perpetuação de um sistema excludente e estereotipador que só faz mutilar as pessoas. De início, a educação falha recebida nas famílias e nas escolas, berços difusores de racismo, de estigmas sociais, de barbaridades contra a diferença. Em seguida, a influência da mídia e a abertura que as redes sociais trazem para o discurso padronizado de ódio: se a pessoa cabe na cama, recebe curtidas - se não cabe, recebe xingamentos e ataques. Por fim, destacam-se o medo, a ignorância, a castração. Esses tópicos perpetuam a discriminação contra o negro, o pobre, o judeu, o gay, o gordo, o feio, o deficiente, o tatuado. Qualquer disforme segundo a cama padronizada dos procustozinhos espalhados por aí.

Na mitologia grega, Teseu encontra Procusto e ordena a ele que se deite na própria cama. Na postura horizontal. Teseu corta pernas e cabeça do malfeitor, pondo fim a sua tirania. Que lição tirar do final do mito? Simples: seremos sempre julgados, e nunca estaremos dentro de todos os padrões. Precisamos ou queremos? Regra geral, devemos respeitar a lei quando justa - se não, lutar pela revogação. Vamos cortar o preconceito e esticar a tolerância. Não basta não segregar, é vital lutar contra a banalidade do mal. E você? Cabe na cama da beleza midiática? Na da moralidade dos fanáticos? Na do capitalista? Do intelectual? Na balança fitness? Ninguém se enquadra a tantos padrões, mas são sempre as mesmas minorias que sofrem as piores mutilações.

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