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Diário da Região

23/11/2017 - 18h05min / Atualizado 23/11/2017 - 22h11min

Painel de Ideias

Parquet

Dias depois, na minha prova oral, o examinador repetiu a pergunta. Respondi sem maior dificuldade. Relatei as explicações conforme Tourinho havia colocado ao pé do livro. Nada mencionei sobre as latas de parquetina

Divulgação Sérgio Clementino | sergio.clementino@uol.com.br
Sérgio Clementino | sergio.clementino@uol.com.br

Nos idos da década de 80, ainda adolescente eu trabalhava no pequeno mercado do pai. Havia uma cera, bem conhecida na época, de nome parquetina. Era muito utilizada para dar brilho em assoalhos de madeira, tão comuns antes da popularização dos pisos de cerâmica.

Anos mais tarde, já nos bancos da faculdade de direito, vim a saber que o Ministério Público era também chamado de "Parquet". A palavra tem origem francesa (pronuncia-se parquê). Me interessei pelo tema. Fosse hoje seria fácil saber a origem do nome parquet, basta "dar um Google". Naquele tempo demorou um pouco mais.

Certo dia estava estudando pelo livro do Professor Fernando da Costa Tourinho Filho, quando me deparei com uma nota de rodapé com a explicação. Segundo Tourinho, o Ministério Público, com a feição que tem hoje, teve origem no Direito Francês. Cresceu com o declínio do absolutismo. Os procuradores do Rei representavam o Estado perante os tribunais, exercendo, dentre outras, a função acusatória nos processos criminais. Nas salas de julgamento havia um tablado onde se colocavam as cadeiras dos juízes, de forma que ficavam em posição superior às demais pessoas presentes, denotando ao mesmo tempo a força e a imparcialidade da justiça. De outro lado, os procuradores, que formavam a chamada magistratura de pé, "ficavam sentados aquém do cancelo, com suas cadeiras postadas sobre o assoalho (parquet), e não sobre o estrado". Ou seja, tinham seu assento em posição abaixo dos juízes togados, no assoalho do tribunal. Assim, em contraposição aos juízes togados, passaram a ser conhecidos como "procurereurs au parquet", ou simplesmente parquet.

De imediato lembrei-me das latas de cera que vendia no antigo mercadinho. Claro, parquetina vinha de parquet - assoalho de madeira.

Tempos depois, em 1992 eu me preparava para quarta e última fase do concurso do Ministério Público. A tão temida prova oral. No final de novembro viajei para São Paulo para assistir as inquirições dos candidatos que me antecediam. No auditório lotado da Procuradoria-Geral de Justiça, o examinador indagou ao candidato: Por que o Ministério Público tem o nome de Parquet? Enquanto o candidato engasgava com a surpresa de uma pergunta tão singela e ao mesmo tempo difícil, minha mente foi juntando as imagens do texto de Tourinho Filho com as ceras na prateleira do mercado.

Dito e feito. Dias depois, na minha prova oral, o examinador repetiu a pergunta. Respondi sem maior dificuldade. Relatei as explicações conforme Tourinho havia colocado ao pé do livro. Nada mencionei sobre as latas de parquetina. Não cabiam naquela ocasião.

Hoje posso dizer que, de alguma forma, aquelas latas que as donas de casa levavam para brilhar seus assoalhos contribuíram para que eu tivesse a resposta certa no momento exato. Tudo isso já tem mais de 25 anos. Mas parece mesmo que foi ontem.

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