Diário da Região

16/11/2017 - 19h09min

Painel de Ideias

Meninos do tráfico

Quase todos os infratores, mais de 95% do sexo masculino, são pobres ou muito pobres. É a mãe que sustenta a casa, trabalhando muito, o dia inteiro

Divulgação Evandro Pelarin | epelarin@gmail.com
Evandro Pelarin | epelarin@gmail.com

Mais um dia de trabalho. Sala de audiências. Um rapaz, 16 anos, escoltado, uniforme da Fundação Casa, cabeça raspada, senta-se ao lado da mãe. Acusação: tráfico de drogas. Em sua ficha de antecedentes, outra passagem por tráfico, algumas por furto. Com algumas variações, essa é uma cena corriqueira. Daí a inquietação: Por que tantos adolescentes envolvem-se com o tráfico de drogas? Quem são, afinal, os meninos do tráfico?

Em 80% dos processos, ou mais, estima-se, não se vê o pai na audiência. Ao se verificar a história do adolescente, o pai é figura ausente. Não reconheceu o filho ou sumiu. Abandonou o lar. Podemos dizer que os meninos do tráfico, em sua maioria, mesmo não sendo órfãos, cresceram sem pai.

Outro dado a ser destacado: quase todos os infratores, mais de 95% do sexo masculino, são pobres ou muito pobres. É a mãe que sustenta a casa, trabalhando muito, o dia inteiro. O filho, meio que 'criado por conta' no bairro carente, acaba se aproximando de alguém da rua, onde é abundante a oferta de entorpecentes, e por aí inicia o caminho que o levará, mais à frente, à detenção.

Muitos dos menores processados têm perfis no Facebook. Para qualquer adolescente, natural se observar atitudes de transgressão, próprias e esperadas para a idade, onde se contesta a ordem estabelecida em razão da busca de afirmação no mundo. No entanto, nos casos dos meninos do tráfico, além do uso de gírias típicas da delinquência e de referências às armas de fogo e às drogas, valoriza-se, na rede social, um estilo de vida denominado 'ostentação'.

Sobre esse ponto, convergem (se este diagnóstico se sustentar) a pobreza e um sentimento estilizado de felicidade, de tal modo que o desejo pelos bens materiais não se esgota no mero consumo, na posse do objeto, mas representa, para além, um elemento de rompimento de um eixo social, de modo que a existência de um ser ideal, completo e feliz, está limitada e pode ser caracterizada, por exemplo, geograficamente na cidade, pelo bairro onde a pessoa mora, ou se ela ainda não tem o último modelo de smartphone.

Para quem já viveu mais, é possível compreender que, na adolescência passada, vivenciava-se um ambiente um tanto mais 'espiritualizado' de felicidade Por exemplo, cultivavam-se alguns sonhos com certo romantismo e até com a insurgência revolucionária, que mudaria o mundo diante de uma opção ideológica. Ocorre que, atualmente, o ser feliz parece estar referenciado, quase que exclusivamente, numa expectativa sofisticada e cara de consumo, dependente de dinheiro, impossível de ser alcançada por toda a gente.

O tráfico então se apresenta como atalho rápido para se alcançar o meio de troca, o dinheiro. Some-se a atual cultura dominante de que o consumo deve ser descriminalizado, o que retira o sentido de erro sobre quem usa entorpecente, geralmente consumidores recreativos da classe mais abastada, a provocar aumento da demanda e alto rendimento ao tráfico, embora permaneça a criminalização sobre quem vende. Por isso que a grande maioria dos adolescentes envolvidos com o tráfico não é dependente química. Isto é, valem-se do tráfico para ganhar dinheiro e tentar entrar na vida 'ostentação', que seria o ideal de felicidade.

Evidentemente, esse pequeno espaço não permite maiores considerações, como, por exemplo, o sentido da traficância para os barões endinheirados, que não é o tema central deste texto.

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