Diário da Região

29/11/2017 - 18h47min

Painel de Ideias

Rio de lágrimas

Artistas de todos os tempos tiveram rios e mares como a "estrada da vida", essa travessia sofrida à outra margem. Fernando Pessoa, em ode aos navegadores, escreveu: 'Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!

Divulgação Romildo Sant'Anna
Romildo Sant'Anna

O fluir incessante dos rios lembra a sinuosa trajetória humana em rumo ao desconhecido. Somos aquáticos na nascente física (o útero) a caminho do outro mundo, nos cultos ao sobrenatural e ritos de imortalidade. Filósofos como J. Chevalier e A. Gheerbrant lembram que a descida dos rios aos mares promove a junção indiferenciada das águas (Dictionnaire des Symboles). Assim, alegoricamente e semelhantes ao curso dos rios, conduzimo-nos numa corrente em que, no oculto do além, nos igualamos. O aqui, fatalista e passageiro, é um "vale de lágrimas".

Artistas de todos os tempos tiveram rios e mares como a "estrada da vida", essa travessia sofrida à outra margem. Fernando Pessoa, em ode aos navegadores, escreveu: 'Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / para que fosse nosso, ó mar!' (Mar Portuguez, 1922). Importa menos a "coisidade das coisas" e mais a simbólica e reveladora explicação para o salgado oceânico e conquista da imensidão, no heroísmo e sofrimento lusitano. Essa saga por mares nunca navegados fora cantada por Camões n'Os Lusíadas (1572).

A considerar que a arte é continuação das coisas vividas e imaginadas, uma expansão de nós em estado de enlevo, Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza conceberam esta alusão ao significado das águas no sentimento das pessoas: 'Ó, Madalena, o meu peito percebeu / que o mar é uma gota / comparado ao pranto meu' (1971). E, assim, a referir-se ao que há de mais fundo e catalisador de nossa índole, Lins realizou o primeiro de seus grandes êxitos no universo sensível da poesia-canção nacional. A água do mar em simetria com o sal das lágrimas talvez explique a empatia dessa música no interior da cultura. E tantas mais, tão meigas e intensas, de Dorival Caymmi.

Percebe-se então que, nos cantos heroicos e de louvações sentimentais, o exagero é uma figura de efeito retórico (hipérbole). Ocorre na expressão de artistas dos estratos eruditos e, naturalmente, nas manifestações ingênuas, quer dizer naïfs, de poetas "do povo". Exemplo: 'Rio de Lágrimas'. Tal é a canção de Tião Carreiro, Piraci e Lourival dos Santos, gravada por Tião Carreiro e Pardinho em 1970. Eis o refrão: 'O rio de Piracicaba / vai jogar água pra fora / quando chegar a água / dos olhos de alguém que chora'. Seu visgo afetivo, a realçar símbolos elementares do que somos, o fez amada em todo Brasil. E, pela menção atemporal aos rios como espelhos da existência, tornou-se um hino espontâneo e gregário daquela cidade.

Os rios que correm, o sal dos mares e o pranto dos sozinhos bordam-nos por dentro. Sentimo-los com afinidade e reconhecimento íntimo. Inundam-nos de nós e nos faz tripulantes duma caravela sublime, perigosa e tragicômica: a vida que passa.

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