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Sobre as dificuldades na Realização

Um sujeito que não realiza estará sempre inseguro quanto à sua própria realidade


    • São José do Rio Preto
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A questão que determina se um sujeito está sendo bem sucedido ou não, está ligada à obstrução do fluxo de realizações. O termo realização aqui referido diz respeito ao ato de realizar, ou seja, tornar real. E é justamente através das realizações que é possível a alguém fazer parte da realidade. Um sujeito que não realiza estará sempre inseguro quanto à sua própria realidade. Logo de início é importante lembrar que para que seja efetivada a realização é imperativa a inclusão do outro, isso pois é ele quem confirmará se isso é mesmo real. No entanto, aquele que não é capaz de tolerar perder pode escolher não realizar nada. Pode não querer arriscar, mas quem não arrisca não pode ser bem sucedido. Se uma criança não arrisca seus primeiros passos, nunca aprenderá andar. Nesse caso, o olhar crítico do outro é um elemento fundamental para o fracasso da experiência.

Uma criança que se desenvolve sob os cuidados de um adulto que a critica frequentemente, terá grande dificuldade em desenvolver sua autoconfiança. O reconhecimento de cada passo, por mais imperfeito que possa parecer, é o que servirá de esteio para o próximo passo. Na impossibilidade de receber reconhecimento, a predominância da tendência desitegrativa pode proporcionar a severa fragmentação do eu. Na desintegração da personalidade, uma parte se volta contra a outra, impedindo a possibilidade de realização. Isso acontece quando uma parte consegue algum sucesso; a partir daí logo a outra passa a depreciar, desvalorizando a realização e impedindo que se possa alegrar-se como sucesso. É possível proteger-se de um oponente externo, mas nada pode se fazer quanto ao inimigo interno.

O complexo de sintomas que formam o transtorno alimentar classificado pela psiquiatria como bulimia, funciona dessa maneira. Essa desordem do funcionamento mental é caracterizada por períodos de compulsão alimentar seguidos por indução de vômito. Uma parte do eu busca satisfação de intenso prazer, obtido pela grande ingestão de comida e outra parte se opõe a essa satisfação, forçando o vômito numa tentativa de desfazer o estado de satisfação no prazer alcançado. Uma condição interna de autodestruição, como se uma parte invejasse o sucesso da outra. Sigmund Freud (1856 - 1939), descreve uma ordem de pessoas neuróticas que parecem se sentirem fracassadas justamente quando são bem sucedidas. Esse funcionamento parece ter sido gerado a partir de um tipo de vínculo onde a culpa permeava a relação. O sujeito não consegue ser bem sucedido, pois se culpa pelo o outro que fracassou.

Por um dia ter se sentido oprimido pelo outro e então dirigido sentimentos de ódio a ele, agora não se sente merecedor de alegrias num mecanismo de autopunição, por se sentir culpado. Essa autopunição pode chegar ao seu nível máximo no ato do suicídio. Através das reflexões conseguidas até aqui, fica claro que a busca pelo estabelecimento de vínculos que sejam ricos em sinceridade e amor é o que pode trazer a possibilidade de reparação do funcionamento que tenha sido perturbado por relações tóxicas. Sem a possibilidade de se estabelecer um bom vínculo de confiança as ilusões podem passar a ser percebidas como fatos da realidade.