Famílias de Deva e Lilácio, mortos na queda do voo da Chapecoense, recorreram à mediunidadeÍcone de fechar Fechar

TRAGÉDIA DA CHAPECOENSE

Famílias de Deva e Lilácio, mortos na queda do voo da Chapecoense, recorreram à mediunidade

Ambos eram funcionários da emissora Fox e foram escalados para cobrir a final da Copa Sul-Americana entre Chapecoense e Atlético Nacional, da Colômbia


    • São José do Rio Preto
    • máx min

Machucadas pela queda do avião da Chapecoense, Rosana Bernardes, a viúva do narrador Deva Pascovicci, e Maria Inês Soares Spinosa, mãe do coordenador de externas Lilácio Pereira Júnior, recorreram à mediunidade para tentar entender perdas tão trágicas e que, nesta quarta-feira, 29, completam um ano sob clima desolador. Deva morava em Rio Preto e foi enterrado em Monte Aprazível, enquanto que Lilácio residia em São Paulo e fora velado em Mirassol. Ambos funcionários da emissora Fox e escalados para cobrir a final da Copa Sul-Americana entre Chapecoense e Atlético Nacional, da Colômbia.

A viagem do time catarinense e da imprensa, no entanto, entrou para história como uma das mais tristes do futebol mundial. A 35 quilômetros do aeroporto de Medellin, na Colômbia, o voo 2933 da empresa boliviana LaMia caiu no Morro El Gordo e, dos 77 presentes - entre passageiros e tripulantes -, 71 faleceram. Entre eles, Deva e Lilácio. Rosana e Maria Inês até então não se conheciam. Hoje estão ligadas pela dor e a fé, em busca de respostas. As duas vão ao centro espírita juntas e participaram de sessão mediúnica. "É um conforto saber que não houve dores, que o Deva e todos não sofreram.", conta Rosana, após ler a primeira carta psicografada pelo médium Nilton César Stuqui, da Casa Gabriel Martins, em Neves Paulista. "Neste mês eu fui para Chapecó receber uma homenagem, o Rafael Henzel (único jornalista sobrevivente) confirmou que não foi possível sentir qualquer impacto com a queda. Os meninos conversaram, fizeram festas e jogaram até baralho. Depois dormiram. Então o Deva não sentiu dores", conta Rosana.

Entre as principais aflições, as duas temiam que seus entes queridos tivessem sofrido com a queda. Afinal, o cenário de horror com destroços de aviões espalhados pelo morro e sobreviventes como o goleiro Jackson Follman e o Neto feridos ao extremo: o primeiro com a perna amputada, e o segundo resgatado embaixo de ferragens e galhos, levado ao hospital com corte profundo na cabeça e em estado grave. Rosana e Maria Inês visualizaram o pior. "O que mais doía era imaginar que eles sofreram muito com pânico e ferimentos antes da morte", disse Maria Inês.

Na casa espírita em Neves Paulista, receberam cartas que, a cada frase, traziam uma esperança, um sinal de que, separados materialmente, mas ainda ligados. "Não se desespere, o Deva está bem e não sofreu. Foi como dormir e acordar e creio que, para os demais, tenha sido semelhante. Perdoem a tripulação, eles apenas obedeceram os caprichos amorosos de Deus, está tudo certo. Prometo-lhe escrever mais, não chorem por nós, cumprimos uma missão com Deus", psicografou Stuqui, 20 dias depois do acidente, e entregou mas nãos de Rosana.

Ela foi aos prantos diante da carta. Ficou ainda mais confiante e amparada, quando leu que Deva fora recebido, no plano espiritual, por Mariane, uma amiga da família, de 19 anos, e que havia falecido em acidente há três anos - em 2013.

Em uma segunda carta de Deva Pascovicci, psicografada por Nilton César Stuqui,  Rosana Bernades reviveu a preocupação do marido. Angustiada pelo luto, ela havia perdido peso e, visivelmente, abatida pôde ler: "Rosana, meu amor que bom te ver aqui querida, te encontrar aqui me lembra quando eu chegava em casa e você me recebia com aquele abraço feliz, eu te amo tanto", diz trecho (leia mais ao lado). "Não sofra, se cuida você está se alimentando? Te vejo mais magra, melhore teu olhar, você é tão linda."

Rosana e Deva viveram juntos por 25 anos. Eles se conheceram no dia do aniversário de Deva, 28 de setembro de 1991, logo foram morar juntos e já em novembro de 1992 chegou a Mariana. Rosana e a filha caçula do casal Carolina, de 19 anos, trabalhavam diariamente com o pai na rádio CBN, no centro de Rio Preto. A mais velha, Mariana, seguiu o curso de medicina veterinária. Após a morte de Deva, os primeiros dias na emissora foram cruciais para Rosana e Carolina enfrentarem as recordações no estúdio. "Não podia deixar de vir. A CBN era o sonho de Deva", disse Rosana.

Carolina, estudante do segundo ano de jornalismo, encarou estágio na produção da CBN. Assim como o pai, quer trabalhar na televisão. "Foi muito difícil voltar ao estúdio sem ver meu pai, entrar na sala onde ficava. Eu sinto saudades de cada detalhe", conta Carolina.

 

Deva Pascovicci, santista, e o cinegrafista Lilácio Pereira Júnior, corintiano, são nomes de salas de imprensa na Vila Belmiro e na Arena Itaquera, respectivamente. Na casa do Santos, Deva dá nome as cabines de televisão. E, na casa do Timão, Lilácio batiza cabines de transmissão. Os familiares também acabaram de ser homenageados no estado catarinense. No dia 11 deste mês, o ministro dos esportes, Leonardo Picciani, foi a Chapecó para entregar uma medalha e uma cruz de honra ao mérito a cada família. Essa honraria só tinha sido entregue a medalhistas olímpicos.

Lá os familiares também receberam um quadro com foto das vítimas. O reencontro, no Centro de Eventos de Chapecó, foi emocionante com 63 familiares dos 64 brasileiros mortos. Nesse dia, houve palestra sobre como lidar com o luto. "Foi tão confortante receber o carinho de todos. Em Chapecó, foi uma emoção maior porque o Deva fez o seu último jogo ali (na Arena Condá), um negócio contagiante", conta Rosana Bernardes. "A homenagem no Santos também foi linda. Por onde passamos, as pessoas não precisam falar nada, mas sentimos que querem te pegar no colo. Foi um ano complicado e esse carinho tem nos ajudado."

Na CBN outra prova calorosa. A equipe de jornalistas se mobilizou e preparou um painel com fotos da carreira de Deva. Além de narrador da FOX, Deva era um dos donos da CBN Rio Preto.

A família de Lilácio criou página no Facebook, como o nome de Jumelo (seu apelido) Pereira, e atualiza diariamente. São vídeos, fotos de Lilácio e recordações dos amigos. Em meio ao luto, a família de Lilácio ganhou um alento: o neto Davi, hoje com um ano e três meses. A criança segue o clube coração do avô, o Corinthians. "Temos a família para nos apegar, buscar forças e tentar confortar um ao outro", disse Diego Chagas Pereira, 31 anos, filho de Lilácio e pai de Davi.

 

Na íntegra

Querida Rosana, minhas filhas Mariana e Cacá. Queridas irmãs Neide e Neusa que Jesus abençoe a todos.

Estou aqui amparado por meus pais queridos, a dona Angelina e meu pai Arlindo. A querida Mariane me ajudou desde os primeiros instantes, onde despertei aqui desse lado cheio da mesma vida. Tudo seguia naquela madrugada com normalidade, ansioso pelo evento que marcava ascensão da Chapecoense. Aqueles jovens felizes e verdes galhos estavam florindo para o sucesso. Eles representavam o Estado, uma Nação e também a programação de Deus que marcava o nosso retorno para cá.

O sono naquela última viagem era anormal e, mesmo com a algazarra dos jovens futuros campeões da vida, eu me entregava ao sono. Eles insistiram em me acordar, até que me deixaram em paz. Não despertei na terra, mas aqui desse lado. Tudo novo, diferente e de imediato não dava para entender. Vi um rosto amigo e lindo que me arremeteu no tempo, busquei na memória aquele olhar de pura luz. Um olhar feito céu de meio dia, era a Mari que eu sabia estar desencarnada. Pensei ser um sonho, mas a presença dos meus pais me provou que eu também estava fora da matéria física. Pensei ser uma pane do coração que desligava após um infarto comum. Mas eles me colocavam ao par da situação que deve ter aterrorizados os vossos corações na terra. Ainda não me inteirei de toda a causa, afirmo que estou bem e sigo normalmente.

Rosana, minhas filhas, minhas irmãs, familiares. Nada é por acaso, está tudo certo, cumpri a missão na terra e, se Deus permitir, quero ser repórter por aqui e relatar tudo o que puder para vocês. Não se desespere, o Deva está bem e não sofreu. Foi como dormir e acordar e creio que, para os demais, tenha sido semelhante. Perdoem a tripulação, eles apenas obedeceram os caprichos amorosos de Deus, está tudo certo. Prometo-lhe escrever mais, não chorem por nós, cumprimos uma missão com Deus.

Obrigado por tudo com o meu amor de sempre do vosso querido esposo, pai e irmão. Com amor e paz do vosso querido, Deva. Um feliz natal. Somos campeões em Jesus. Amor eterno!

17 de dezembro de 2016

Trecho

Rosana, meu amor que bom te ver aqui querida, te encontrar aqui me lembra quando eu chegava em casa e você me recebia com aquele abraço feliz, eu te amo tanto.

Filhas querida Mariana, Carolina, querida Neide, Neuza, José Carlos.

Querida Rosana não sofra, se cuida, você está se alimentando? Te vejo mais magra, melhore teu olhar, você é tão linda, confia em Deus, nada acabou, eu te amo e sempre vou proteger com minhas preces nossa linda família, eu estou bem (...)

11 de fevereiro de 2017