Diário da Região

09/11/2017 - 23h00min

PELA INDIVIDUALIDADE

Peça usa síndrome de Asperger para falar das diferenças

A individualidade criada pelas diferenças nunca deve ser apagada em busca da aceitação. Essa é a principal mensagem de Da Desordem Que Não Anda Só

Renato Peixoto/Divulgação As apresentações fazem parte do Proac Circulação e são gratuitas
As apresentações fazem parte do Proac Circulação e são gratuitas

Sentir-se diferente do restante do mundo pode causar uma sensação de isolamento e de combate constante, um combate contra o mundo em busca de um lugar que permita que a pessoa sinta-se parte de algo. Mas a individualidade criada pelas diferenças de cada um nunca deve ser apagada em busca da aceitação, ela deve ser respeitada. Essa é a principal mensagem do espetáculo Da Desordem Que Não Anda Só, que será apresentado nesta sexta-feira, 10, e no sábado, 11, em Rio Preto, no Teatro GTR.

Resultado da união de duas companhias de São Paulo, a Cia Provisório - Definitivo e a Companhia Artera de Teatro, o espetáculo parte do ponto de vista de seu protagonista, Stevie, um garoto portador da síndrome de Asperger, que sofre com a ausência do pai e com a dificuldade de se relacionar com o mundo, para fazer um retrato sobre a vida daqueles que são considerados diferentes da maioria, um tema oportuno para o momento atual no Brasil, afirma o diretor do espetáculo, Carlos Baldim.

"Não há questões religiosas e de gênero no texto, que estão mais latentes atualmente, sendo discutidas de maneira mais corriqueira, mas ele traz justamente essa questão do respeito às diferenças, porque, no caso, temos uma pessoa que tem dificuldade de se relacionar com o mundo. Então, nesse sentido, o espetáculo está completamente atual", explica.

Assim, mesmo que o público não possua qualquer identificação com a doença em si, ele poderá identificar questões corriqueiras em suas vidas e se colocar naquele lugar, aponta Carlos. "As pessoas vão perceber que se sentem peixes fora d'água em determinas situações. O espetáculo dialoga com a nossa realidade. Falando de um mundo particular, daqueles que possuem a síndrome de Asperger, ele consegue refletir em um todo."

E foi essa oportunidade de tratar do respeito às diferenças e sobre as formas de conviver em harmonia na sociedade que atraiu a atenção das duas companhias para o texto original escrito pelo escocês Davey Anderson ainda inédito no Brasil. "Quando lemos, ficamos bastante encantados com as questões colocadas pelo texto, mas também com a forma que ele apresenta essas questões e questionamentos ao público. São questões que movem as duas companhias", conta Carlos.

Para a montagem, as companhias resolveram manter o texto fiel ao original, fazendo apenas a tradução, mas mantendo os nomes dos personagens e das cidades em inglês. A principal preocupação no processo foi manter a velocidade, o fluxo, a dinâmica e a informalidade presentes no texto original de Davey.

"É um texto que dialoga com qualquer universo. Pouco importa qual a cidade e quais os nomes dos personagens uma vez que o que acontece dentro daquela família acontece com famílias de qualquer lugar no mundo", diz o diretor.

Intercâmbio

Além das duas apresentações, as companhias, contempladas pelo Proac Circulação, estão aproveitando essa passagem por algumas cidades do Estado para realizar um intercâmbio com grupos de cada um dos locais em que vão. Em Rio Preto, eles se encontrarão com a Cia. Livre, no sábado, 11, pela manhã, também no Teatro GTR, para essa troca de experiências e informações.

"A ideia foi não só mostrar a peça, mas também estabelecer um contato com grupos das cidades pelas quais passamos. Escolhemos grupos pelos mais variados motivos, desde semelhantes entre nossos trabalhos até oposições."

Mas a ideia é investigar além das questões artísticas, de linguagem e estéticas. "Também queremos investigar como esses grupos produzem, como eles se mantêm, como dividem suas funções, como é o trabalho no dia a dia e até a visão sobre a arte atual e o posicionamento efetivo politicamente", afirma Carlos. Assim como as apresentações do espetáculo, o encontro é aberto ao público.

Serviço

  • Espetáculo Da Desordem Que Não Anda Só, sexta-feira, 10, e sábado, 11, às 21h, no Teatro GTR, na rua Argemiro Rodrigues Goulart, 1887, Jardim Ouro Verde. Entrada gratuita. Intercâmbio, sábado, 11, às 9h30, também no Teatro GTR

Um encontro entre o narrativo e o dramático

Da Desordem Que Não Anda Só conta a história de uma família de classe média. Por causa da ausência do marido, Maureen trabalha em diversos lugares e não tem tempo para cuidar dos filhos. Stevie, portador da síndrome de Asperger, é deixado sozinho no seu quarto ao seu próprio cuidado, enquanto sua irmã, a adolescente Julie, faz tentativas desastradas de entrar no mundo adulto.

Um dia, Julie resolve sair escondida descumprindo o combinado com sua mãe. Preocupado com a irmã, Stevie resolve procurá-la e, no processo causa um acidente. A partir daí, inicia-se uma história permeada de encontros e desencontros que misturam ficção, realidade e poesia, resultado da técnica de Davey, que escreveu o espetáculo como uma intersecção entre o tradicional teatro épico escocês e o teatro dramático.

"Davey vem de uma geração que buscou romper com a tradição do teatro narrativo, mas não indo totalmente contra. Ele propõe uma intersecção fulminante, intensa entre teatro dramático e teatro narrativo. Nesse texto em questão, ele leva isso ao extremo. No sentido que existe um narrador que, em determinado momento, está narrando o que acontece naquela cena e, na fala seguinte, ele é personagem", explica Carlos Baldim, diretor.

Essa ruptura entre narrativo e dramático é abrupta e intensa, segundo o diretor, o que se mostrou um desafio também para a encenação, com uma simples fala dividindo um espaço físico do outro.

"Como levar para o espectador que você está dentro de um parque de diversões e na fala seguinte está dentro da casa do protagonista? Para isso, não posso ter uma encenação presa em elementos cênicos realistas, preciso ter um cenário que tenha mobilidade, que seja mais sugestivo que realista. E o teatro narrativo, por si só, propõe essas imagens. A partir do momento em que você narra algo, você dá ao espectador a possibilidade de construir essas imagens junto com a peça."

Essa forma de trabalhar o texto faz com o que o espectador, em muitos momentos, decida por si só o caminho da peça, tornando-o um coautor das imagens construídas ao longo da narrativa. "Nunca um espectador passivo, sempre ativo, construindo junto com os artistas", diz Carlos. 

 

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