Diário da Região

04/10/2017 - 17h53min

ESTUDO

Gestantes devem testar zika mais de uma vez

Pesquisa da Famerp aponta que vírus vai e volta no organismo

Guilherme Baffi/Arquivo Maurício Nogueira, virologista da Famerp e coordenador da pesquisa
Maurício Nogueira, virologista da Famerp e coordenador da pesquisa

Um resultado negativo de teste de zika em gestante pode não ser o suficiente para descartar a doença. É o que aponta um estudo realizado pela Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) com 15 grávidas em diferentes períodos gestacionais, desde o primeiro trimestre até o último. De acordo com o virologista Maurício Lacerda Nogueira, professor do Laboratório de Virologia da instituição e coordenador da pesquisa, ao longo de vários meses a urina das mulheres foi testada para zika. Em alguns casos, a carga viral sumia e depois voltava a aparecer.

O trabalho será publicado em novembro deste ano na revista Emerging Infectious Diseases e a pesquisa foi feita no ano passado com gestantes atendidas pelo Hospital da Criança e Maternidade (HCM). Contou com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Conforme o professor, em uma das voluntárias o vírus ficou detectável por sete meses. Em cinco delas, o resultado deu positivo mesmo após a carga viral ter zerado em testes anteriores. Após o nascimento do bebê, o causador da doença sumiu em todas as mulheres.

Como o vírus foi e voltou, Maurício acredita que é necessário realizar mais exames para zika durante a gestação se os testes foram feitos com a urina – para determinar quantos são o ideal, é necessário novo estudo. “Um só pode não significar alguma coisa. Acho que tem que fazer mais.” Para ele, a oscilação pode significar que o vírus zika está se multiplicando no feto e na placenta, o que já é esperado. “Servindo como reservatório. Mas a quantidade de vírus que tem é muito baixa, fica no limiar da detecção do teste, por isso tem que fazer mais de uma vez.”

A amostragem utilizada é a urina por ser um fluido mais fácil de obter e porque a carga viral no sangue é ainda mais baixa e desaparece mais rápido. Três das mulheres tiveram filhos com complicações provavelmente causadas pelo zika. Dois tiveram alterações nos testes de audição e um nasceu com um cisto no cérebro. Segundo Maurício, para estabelecer uma correlação entre o número de vezes que o vírus foi detectado na mãe e as má-formação é necessário fazer mais estudos, com mais voluntárias.

Subgrupo

As mães que participaram do estudo fazem parte de um grupo maior que participou de um estudo feito também pela Famerp em 2016. Os especialistas monitoraram 1,2 mil grávidas e 54 delas tiveram o vírus durante a gestação. Nenhum dos bebês nasceu com microcefalia, mas 20 deles tiveram outras más-formações como surdez em um dos ouvidos, danos na retina e pequenas lesões no cérebro ou nasceram com o vírus zika.

Em 2015, quando a epidemia de zika e microcefalia teve início no Brasil, o Ministério da Saúde ligou as duas doenças. Neste ano, a Secretaria Municipal de Saúde apontou que duas crianças podem ter nascido com a má-formação relacionada ao vírus – um menino natural da cidade e uma menina que nasceu em Paranaíba (Mato Grosso do Sul) e mudou-se para cá.

Teste rápido

Conforme mostrou o Diário na última semana, os pesquisadores da Famerp ajudaram a desenvolver um novo teste polivalente capaz de identificar com rapidez o vírus da zika e os quatro sorotipos do vírus da dengue. O novo teste usa o chamado método imucromatográfico: uma fita com anticorpos que muda de cor apenas em contato com uma amostra de sangue com proteínas dos vírus. O desenvolvimento foi de cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT, na sigla em inglês).

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