Diário da Região

18/09/2017 - 18h49min

Painel de Ideias

Imagem e semelhança

Até quando falsos profetas e falsos moralistas irão perpetuar um discurso de ódio contra a diferença? Por que não podemos deixar as pessoas livres em sua adoração a Deus, às imagens, ao santinho...

Relendo passagens bíblicas, uma me tocou particularmente: Arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração (Gênesis, 6:6). Em seguida, encontrei mandamentos: não matar, não furtar, não usar o nome de Deus em vão. Isso me fez pensar no contexto brasileiro atual marcado pela grotesca intolerância religiosa. Verborragia na internet, ataques armados na vida real, falso moralismo onipresente. Outrora a Inquisição, a perseguição contra judeus, a guerra movida pela revolução contra a crença. O ser humano ignora a história e está fadado a repeti-la. Uma dúvida atroz: que tipo de gente usa religião para propagar ódio, vingança, destruição?

Cresci em Nhandeara. Ali, lideranças religiosas marcaram minha personalidade, meus valores, minhas crenças. Destaco quatro figuras singulares. Desde sempre, frequento o terço São João na casa da D. Cleuza, onde participo da reza, como doces e bolos e me emociono com a afinação dos participantes. Também costumava ir a uma igreja evangélica para ouvir a palavra do pastor José Neto, homem capaz de acalmar pelo discurso edificante. Vi fiéis de várias denominações religiosas em busca dos conselhos e da cura espiritual proporcionada pelo Sr. João da Farmácia. Para encerrar, morei ao lado do terreiro de umbanda do Sr. José do Chinelo: gay, pobre e sempre generoso e gentil com a vizinhança. Eu dormia embalado pela sonoridade dos atabaques e das cantigas. Achava bonito.

Em resumo: aprendi a tolerância religiosa. As pessoas detêm o direito humano à manifestação religiosa. Com a adolescência e a busca de outras verdades, descobri Friedrich Nietzsche. Uma frase do filósofo assombra minha mente desde então: seria o homem um erro de deus ou deus um erro do homem? No Brasil atual, cresce o movimento ateísta: a religião é direito, não dever. Por outro lado, também cresce o fundamentalismo, com ataques contra qualquer um que professe uma fé diferente, embora as tradições negras sejam mais atacadas. Cadê os outros mandamentos? O amor? O respeito à vida?

Outra passagem bíblica diz que não devemos atirar a pedra quando não nos encontramos isentos de pecado. Até quando falsos profetas e falsos moralistas irão perpetuar um discurso de ódio contra a diferença? Por que não podemos deixar as pessoas livres em sua adoração a Deus, às imagens, ao santinho, ao ícone do terreiro, à fadinha, à Anitta se assim quiserem? Salvação, cada um encontra a sua. E Nietzsche estava certo: o homem, em seu orgulho, criou um deus a sua imagem e semelhança. Se assim é, pessoas más e intolerantes precisam acreditar que seu deus também seja malvado e intolerante. Encerremos com a palavra de Cristo, na derradeira crucificação: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lc 23, 34). Fazer o quê: pobreza, cada um tem a sua. Pode ser financeira, fruto da injustiça social. Pode ser intelectual, fruto da má educação e da ignorância (desejada, inclusive). Pode ser de espírito, tão tatuada à pele que se apodera da persona do mentecapto. E você, cultua o quê?

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