X
X

Diário da Região

02/10/2017 - 20h54min / Atualizado 18/09/2017 - 11h45min

SE VIRA NOS 30

Meu escritório é na rua

A crise econômica, que devastou o emprego em todo o País, transformou os principais cruzamentos de Rio Preto em "escritórios" para quem está em busca da sobrevivência.

Johnny Torres Gilda vende doces em esquina há três meses, depois que famílias cortaram a faxina; não falta leite, pão e mistura para filhos
Gilda vende doces em esquina há três meses, depois que famílias cortaram a faxina; não falta leite, pão e mistura para filhos

A crise econômica, que devastou o emprego em todo o País, transformou os principais cruzamentos de Rio Preto em “escritórios” para quem está em busca da sobrevivência. Só no ano passado, o mercado de trabalho extinguiu mais de 4,6 mil empregos formais na cidade. Com isso, as esquinas estão tomadas por desempregados tentando vender quase de tudo, de água a pano de chão, na tentativa de obter alguma renda familiar.

E as condições não são nada fáceis para esse tipo de trabalho: 34 graus de temperatura, umidade relativa do ar na casa de 19%, barulho dos carros, horas e horas em pé, sede. Mas, sem outra alternativa ou perspectiva de recolocação no mercado de trabalho, centenas de ex-trabalhadores se sujeitam às dificuldades para tentar conquistar clientes nos semáforos das ruas mais movimentadas da cidade. Gilda, 43 anos, (os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados) começou a vender doces em uma esquina de Rio Preto há três meses.

Ela perdeu o emprego de auxiliar de cozinha há dois anos. Depois disso, passou a fazer faxinas. Tinha três clientes por semana e recebia R$ 100 pelo trabalho. Há cerca de um ano, uma das patroas também foi demitida e Gilda, dispensada. Logo em seguida, a crise afetou o orçamento das outras duas famílias, que também cortaram a faxina. “Comecei a catar latinhas nas ruas e uma amiga me falou sobre vender doces. Tenho quatro filhos e preciso colocar comida dentro de casa”, conta.

Ela também recebe o Bolsa Família, no valor de R$ 209 por mês. “Ajuda nas contas de água, luz, gás e na parcela da casa. O que tiro vendendo balas é para a comida. Não falta leite e pão para meus filhos e nem mistura para o jantar”, conta. Não tem como dimensionar o aumento dos Josés, Joãos, Paulos, Carlos e Marias trabalhando como ambulantes irregulares nas ruas de Rio Preto, mas isso é muito fácil de observar. Só se sabe que eles estão em desacordo com a lei. Se a fiscalização municipal pegar, o material é apreendido e eles perdem tudo.

Sérgio, 28, veio de Rondonópolis (MT) para Rio Preto há pouco mais de três anos, queria ficar perto da família. Conseguiu emprego no setor administrativo de uma empresa, mas há um ano foi demitido. Hoje, dia sim, dia não, faz bico na mesma empresa, sem carteira assinada e ganha um salário-mínimo.

Nos dias de “folga”, das 8h às 17h, Sérgio fica em um cruzamento de Rio Preto e vende panos de chão. “Nos dias bons dá para tirar até R$ 50, mas tem dias que volto com R$ 10”. Sérgio conta que sofreu um acidente de motocicleta há cerca de dois anos e não consegue trabalhar em serviço pesado, como auxiliar de pedreiro, por exemplo. “Eu tenho 14 pinos só no fêmur”. “Já mandei e entreguei pessoalmente mais de 50 currículos neste ano, mas nunca me chamaram para uma entrevista”, diz.

Desespero

Para Firmino, a venda nos semáforos é um ato de desespero mesmo, que ocorre quando o trabalhador, além de perder de o emprego, não consegue ver perspectivas de recontratação. “É uma atividade que exige pouco investimento para conseguir recurso”.

Ao analisar o período de 2014 para 2015, desta vez a partir dos números da Relação Anual das Informações Sociais (Rais), também disponibilizado pelo MTE, é possível observar que o estoque de trabalhadores empregados também diminuiu. De um ano para outro houve uma queda de 5.180 pessoas empregadas, passando de 143.969 em 2014 para 138.789 em 2015.

Os trabalhadores do sexo masculino foram os mais prejudicados com as demissões, já que também são a maior parte da mão de obra local. Dentre as 5.180 vagas perdidas, 4.273 foram por homens, enquanto 907 mulheres se viram sem emprego. “Em relação ao gênero, os setores que empregam a população feminina, como comércio e serviços, ainda respiram e mantêm os empregos”, afirma Silva.

Quando se traz essa análise para o período atual, 2017, os números já são mais alentadores, porém ainda não suficientes para reverter o quadro de desemprego. Até julho, de acordo com os dados do Caged, Rio Preto acumula saldo de 2.098 vagas e, no período de 12 meses, de 461. Entre janeiro e julho, enquanto o setor de serviços é o responsável pela maior geração de postos, o comércio é o que mais demitiu.

 

Qualquer coisa

Moacir, 40, é solteiro, mas ajuda a mãe, que, segundo ele, é doente e não consegue trabalhar, mas não recebe nenhum benefício do governo. Ele também vende doces em outro ponto de Rio Preto. Diz que gostaria de trabalhar como serviços gerais, já que não tem nível de escolaridade. “Aceitaria qualquer emprego, pode ser auxiliar de pedreiro, de limpeza, de marceneiro, jardineiro, o que eu quero é trabalhar. Ter um serviço que me garanta um salário todos os meses”, diz.

Mas além da falta de emprego, Moacir também tem problemas com bebidas. Por volta das 16h não tinha almoçado, mas era nítido que havia consumido bebidas. “Já levei currículo meu para todos esses lugares aí”, disse e apontou hipermercados, restaurantes, lanchonetes. “Nunca me deram uma oportunidade”, completou.

Gustavo, 38, foi desde jovem motorista de carreta. Há sete meses, conta, ele e mais cerca de 70 funcionários foram demitidos de uma empresa que fica em Paulínia. A mulher está empregada, mas o casal tem dois filhos pequenos. “Das 11h às 14h30 eu entrego marmitas para um restaurante. Tiro um salário-mínimo, mas não é registrado e se acontecer qualquer coisa comigo, como um acidente, não terei nenhum direito”. Quando termina as entregas, começa a vender água perto de um semáforo. “A fiscalização passou aqui e disse que é para eu parar, mas ninguém me orientou sobre como arrumar um trabalho”, afirmou.

Venda é proibida por lei

A lei municipal 9.678, de 2006, proíbe a venda de produtos ou oferta de serviços nos semáforos de Rio Preto. Os artigos 36 e 37, entre outras restrições, trazem que é “expressamente proibido aos ambulantes comercializar nos semáforos” e a multa para quem for pego é de cinco UFMs (Unidade Fiscal do Município), o que hoje corresponde a R$ 270,75, já que cada unidade vale R$ 54,15.

O secretário de Desenvolvimento Econômico e Negócios de Turismo, Liszt Abdala Martingo, diz que entende que parte das pessoas que estão desempregadas tenham se tornado ambulantes irregulares para manter o sustento, mas que é preciso seguir o que determina a lei. “Nós sabemos do problema econômico e do desemprego. Vimos que tem pessoas que tentam tirar o ganha pão vendendo em semáforos, mas não podemos liberar isso, além de ser ilegal, pode colocar a população em risco, quando se trata de alimentos ou água”, diz.

O secretário afirma que os fiscais são orientados a fazer uma abordagem em que mostrem que o ambulante está irregular e falar sobre as formas de atuar dentro da legalidade. “Quem deseja se instalar nos bolsões comerciais deve se cadastrar na fila do Cadastro do Trabalhador Ambulante (CTA) e aguardar surgir uma vaga em um dos pontos que temos. Já quem deseja se instalar em outras áreas deve procurar o PoupaTempo e seguir as orientações para obter o alvará”, diz. Em 2017, apenas um alvará foi emitido, no mês de julho.

Ainda conforme Liszt, a venda feita pelos ambulantes irregulares não vai ser permitida. “Sabemos que eles precisam sobreviver, que estão desesperados. É uma situação muito difícil, mas a lei tem de ser cumprida. Também não podemos permitir que vendam alimentos ou água, é uma questão de higiene, de garantia da saúde”, diz.

Dois anos devastadores para o emprego

Os últimos dois anos foram devastadores para os trabalhadores rio-pretenses. Prova disso é a quantidade de pessoas que a gente vê em cada esquina da cidade tentando ganhar um trocado para sobreviver. O arrefecimento da crise econômica, entre 2015 e 2016, empurrou muita gente para fora do mercado de trabalho. Gente que se viu sem qualquer perspectiva de recolocação e que por isso precisou arregaçar as mangas.

A principal razão para o aumento do desemprego é o desaquecimento da economia. Segundo o economista José Mauro da Silva, em 2016, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) registrou queda de 4,34%. “É um resultado que arrebentou com a econômica, derrubou o emprego e a renda, elevando às alturas os índices de desemprego”, afirmou.

Quando a atividade econômica não cresce, cria um círculo vicioso. Isso porque quanto maior o desemprego, menor o consumo, mais desemprego e assim por diante. “As empresas encolhem porque não conseguem gerar recursos para manter a mão de obra. Se não vende no mercado externo e no interno, reduz a produção porque ninguém produz para ter estoque”, explica o economista José Aparecido Firmino.

No ano passado – o pior em pelo menos uma década – o mercado de trabalho de Rio Preto perdeu 4.667 vagas, o que representa a extinção de uma a cada duas horas. O saldo negativo foi resultado de 54.490 contratações e 59.157 demissões. Em 2015, já haviam sido fechados 2.885 postos com carteira assinada. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho (MTE).

Segundo Silva, por ser uma cidade que atrai mão de obra qualificada e ainda conta com a mão de obra média e menos qualificada das cidades satélites, não há como ficar imune à queda atividade econômica. “As pessoas que têm algum tipo de qualificação partem para o empreendedorismo, mas as que não tem perspectiva de negócios buscam a sobrevivência em qualquer atividade que possa garantir alguma renda”, afirma.

O que fazer

Segundo Firmino, o governo brasileiro precisa, urgentemente, pensar formas de colocar essa população de volta no mercado de trabalho. Para isso, é preciso retomar a atividade econômica, o que se faz com investimento público ou privado. Mas, enquanto não surge uma solução, o trabalhador pode procurar renda se formalizando no programa Microempreendedor Individual (MEI). “É uma forma de motivar as pessoas que estão vivendo sem renda para sair da marginalidade”.

O programa traz segurança previdenciária e outras vantagens ao custo mensal de R$ 46,85 (INSS), mais de R$ 5 para prestadores de serviços e/ou R$ 1 para comércio e indústria. Já são centenas de atividades que podem ser enquadradas, entre elas vendedor ambulante de alimentos, manicure, encanador, etc. Em Rio Preto, o número de MEIs já ultrapassa os 20 mil.

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso