Diário da Região

30/09/2017 - 13h22min

TRADUÇÃO

Evento acadêmico tem intérprete de Libras pela primeira vez

Ibilce inova ao incluir intérpretes de Libras na Semana do Tradutor e no Simpósio Internacional de Tradução. Para sociólogo e pedagogo, inclusão deve ser feita em todas as instâncias

Divulgação/Ibilce/Unesp Intérprete faz tradução em Libras durante evento do Ibilce/Unesp: iniciativa é marco na academia
Intérprete faz tradução em Libras durante evento do Ibilce/Unesp: iniciativa é marco na academia

A 37ª Semana do Tradutor e o 2º Simpósio Internacional de Tradução (SIT), que seguem até esta sexta, 29, no Ibilce/Unesp, têm como novidade a presença de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para o público.

A iniciativa, segundo a coordenadora dos dois eventos, a professora doutora Cláudia Zavaglia, partiu de motivações pessoais. “Em julho, uma aluna da pós-graduação me procurou para trabalhar com dicionário de Libras e, a partir dessa conversa, me dei conta da necessidade desse profissional”, conta.

“Num momento de adversidade no qual estamos vivendo em nossa sociedade, achei que trazer essa comunidade para academia e proporcionar inclusão poderia ser um ponto positivo tanto para os surdos quanto para nós”, destaca.

O trabalho de tradução em Libras está a cargo de Daniele Soares e Ariane Silva Rabelo, do Ibilce/Unesp. “Já fiz interpretações em vários contextos: escolar, religioso e ensino técnico. É a segunda vez que interpreto no meio acadêmico”, diz Ariane, que considera um marco a acessibilidade da comunidade surda nestes eventos.

A professora de Libras Jacqueline Fontes, que é surda, revelou ter ficado emocionada com a inserção de intérpretes aos eventos do Ibilce/Unesp, mesmo com a escassez de profissionais especializados no mercado atual.

Entrevista

Para Júlio César Torres, doutor e sociologia e pedagogo com especialização em educação inclusiva, é fundamental a presença do intérprete de Libras nos diversos espaços institucionais, como forma de garantir a inclusão dos surdos.

No Ibilce/Unesp, Torres é responsável pelas disciplinas Política Educacional Brasileira e Libras e Educação de Surdos nos cursos de licenciatura e de pedagogia. Já no programa de pós-graduação da Unesp de Marília, ele ministra a disciplina Políticas Públicas, Democracia e Cidadania. Confira a seguir a entrevista concedida por ele ao Diário sobre o assunto.

Quando começaram a incluir Libras no curso de letras? Qual foi a principal razão para essa mudança?

Júlio César Torres - A Lei nº 10.436/2012, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras), representa um importante marco político-legal na garantia dos direitos dos surdos no Brasil, ao reconhecer a Libras como meio legal de comunicação e expressão. Como descrito no parágrafo único do art. 1º da referida Lei, “Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil”.

Muito embora haja registros mais antigos sobre uma língua de sinal brasileira, é a partir da experiência do uso dessa língua (embora proibida) no antigo Instituto Imperial de Surdos-Mudos, criado por D. Pedro II em 1857, hoje INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos (instituição de maior referência no Brasil sobre o tema), e sua difusão pelo país por parte de alunos e ex-alunos do Instituto, é que podemos falar propriamente de nossa língua de sinais nacional. Portanto, a Lei nº 10.436/2012 representa não somente a “legalização” do uso dessa língua pelas pessoas surdas, mas, principalmente, o entendimento de que o surdo tem o direito de se expressar e se inserir socialmente por meio de sua língua materna, a língua de sinais, inclusive no espaço escolar. Por essa razão, inspirada no paradigma do bilinguismo e como forma de superação das propostas e iniciativas de oralização das pessoas com surdez, o reconhecimento oficial da Libras impõe às instituições de ensino, em todos os seus níveis, o direito à instrução escolar por meio da língua de sinais, e não pela imposição da língua portuguesa. Nesse contexto, a Libras coloca-se como L1, e a língua portuguesa como L2, a ser ensinada na modalidade escrita.

Diante desse quadro, o país passa a ter que enfrentar o desafio da formação de professores da Educação Básica para essa nova realidade, qual seja, de inclusão das pessoas surdas na escola regular, bem como todas as demais crianças e jovens com deficiência, no contexto da recente Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC/2008).

Ademais, o Decreto nº 5.626 de 2005, que regulamenta a Lei da Libras, determina questões importantes para a efetivação dos direitos das pessoas surdas: a) inserção da Libras como disciplina curricular nos cursos de formação de professores (Licenciaturas) e de Fonoaudiologia. Outros cursos, por meio de regulamentações específicas, ou não, vêm inserindo a Libras como disciplina obrigatória ou optativa nos seus projetos pedagógicos, como é o caso dos cursos de Medicina e outras formações profissionais na área da Saúde; b) prevê a formação do professor de Libras e do instrutor de Libras; c) o uso e a difusão da Libras para o acesso das pessoas surdas à educação; d) a formação do Tradutor e Intérprete de Libras-Língua Portuguesa, que se deve efetivar por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em Libras - Língua Portuguesa.

Portanto, é a partir da edição desse Decreto que os cursos de Letras, na modalidade licenciatura, passam a inserir em suas estruturas curriculares a Libras como disciplina obrigatória. As Instituições de Ensino Superior teriam 10 anos para se adequarem. No caso da Unesp, esse fato ocorreu apenas em 2015, quando do processo de reestruturação curricular de todos os cursos de licenciatura, por meio de deliberação publicada pelo Conselho Estadual de Educação.

Como se caracteriza o ensino de Libras no Brasil? Há diferenças entre os diversos países? 

Júlio César Torres - Não existe uma “língua de sinais universal”. As línguas de sinais possuem todos os parâmetros e aspectos linguísticos das línguas orais-auditivas. Há hoje, no mundo e no Brasil, muitos estudos e pesquisas sociolinguísticas das línguas de sinais praticadas em todos os cantos do planeta, inclusive estudos sobre línguas de sinais indígenas. Além da Libras – Língua Brasileira de Sinais, podemos citar a ASL – American Sign Language (EUA), a LGP – Língua Gestual Portuguesa (Portugal), Langue des Signes Française (LSF), British Sign Language – BSL (Inglaterra). Como se pode observar, até mesmo países com a mesma língua oral-auditiva, como é o caso de EUA e Inglaterra, possuem línguas de sinais diferentes.

A questão do ensino de Libras no Brasil é complexa. Se dá em diversos espaços e em cursos de natureza diversa. Deixemos esse ponto para outra oportunidade, pois precisaria de muito tempo e espaço para fazer essa discussão. Acho importante destacar, nesse momento, que a disciplina de Libras na estrutura curricular dos cursos de licenciaturas, como é o caso do curso de Letras, possui uma dimensão de inserir o futuro professor da Educação Básica no entendimento do contexto escolar de inclusão das pessoas surdas. Não se ensina e se aprende uma língua numa disciplina de 30h ou 60h. O professor de língua materna ou língua estrangeira, no caso o licenciado em Letras, não irá trabalhar os conteúdos de suas disciplinas em Libras (para isso existe o Intérprete na sala de aula e o AEE – Atendimento Educacional Especializado, com professor especialista e fluente em Libras). Mas, nesse contexto da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o profissional de Letras, no contexto escolar, deve conhecer a cultura surda, aspectos da pedagogia visual, e a importância da Libras na mediação didático-pedagógica do processo ensino aprendizagem. É nesse sentido que a Libras se coloca nos cursos de formação de professores. É um mito pensar que estaremos “ensinando Libras” nesses cursos.

Qual é a importância dos intérpretes para a sociedade? 

Júlio César Torres - É de fundamental importância a presença do Intérprete de Libras-Língua Portuguesa nos diversos espaços institucionais. Digo isso porque uma dimensão importante para a garantia da inclusão social e cidadã dos surdos foi a Lei da Libras e o Decreto de 2005. Porém, o grande desafio que se coloca no momento é a formação profissional do intérprete, a ampliação desses espaços formativos (aí as universidade públicas teriam um papel relevante), e a massificação desses profissionais em todas as instituições para uma efetiva inclusão das pessoas surdas: Intérpretes nas escolas, nas universidades, nos hospitais, nas Unidades Básicas de Saúde e toda a rede de atendimento especializado, nos Tribunais e Varas de Justiça, nas atividades e apresentações esportivas e culturais de toda natureza (teatro, cinema, shows musicais), na política, em toda a programação da tv, etc.

É ingenuidade pensar que todos os brasileiros, ou parte considerável, terá interesse ou será fluente em língua de sinais. Desse modo, a efetiva inserção social da pessoa surda passa, necessariamente, pelo trabalho desempenhado pelos Tradutores e Intérpretes de Libras. Observo, também, que para cada espaço institucional temos um léxico e repertório linguístico específico. Portanto, a formação e atuação do Tradutor-Intéprete passa por essas questões. Como por exemplo, interpretar na escola básica (e ainda com todos os conceitos, expressões e palavras das inúmeras disciplinas escolares) é diferente de se interpretar num hospital, na igreja, num atividade teatral com apresentação de uma ópera, num tribunal ou vara de justiça onde por ventura um surdo possa ser uma testemunha, vítima ou réu.

Quais são as principais dificuldades do deficiente auditivo no Brasil? Como suplantá-las?

Júlio César Torres - Várias dificuldades já foram colocadas nas respostas das questões anteriores. Historicamente, tem sido a imposição do paradigma do Oralismo, ou seja, a tentativa de “normalizar” a pessoa surda por meio do treinamento da fala (fonoaudiologia) e as invasões clínicas, como é o implante coclear. São questões complexas, que demandariam um outro momento para discussão. Existem diversos níveis de deficiência auditiva, quando e como se dá a perda da audição, em qual contexto e idade a pessoa apresenta déficits de audição etc.

Mas, infelizmente, o estatuto médico e clínico tem sido o que prevalece nas questões da surdez, sem, contudo, levar-se em consideração outras dimensões da surdez, como a identidade surda, a importância da língua de sinais e da cultura surda na construção da subjetividade do surdo, entre outros aspectos.

O próprio termo “deficiência auditiva” já é estigmatizador, pois denota uma deficiência, uma incapacidade, uma invalidez. Devemos ressignificar historicamente nossas concepções e olhares sobre as pessoas com deficiência. Não há nenhum problema nascer surdo ou surdo. O problema, sim, é a sociedade ouvinte não estar preparada para conviver com as diferenças e impor padrões de comunicação, de comportamento, de valores. Inclusive, e principalmente, a escola.

(Colaborou Arthur Avila)

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