Diário da Região

04/10/2017 - 17h46min

EDUCAÇÃO QUE TRANSFORMA

Propostas fortalecem a consciência emocional e humana dos estudantes

Na reportagem especial publicada hoje, conheça inovações adotadas por escolas de Rio Preto como atividades extracurriculares capazes de preparar o aluno e levá-lo a refletir não só sobre o que quer ser, mas como quer ser quando crescer

O que você vai ser quando crescer? Desde muito pequenininhas as crianças são cobradas em relação ao futuro. Em uma sociedade que preza mais o ter do que o ser, um desafio a mais para as escolas é seguir o conceito do filósofo Platão: "Educar é formar um homem virtuoso."

Conteúdos estão sendo criados ou acrescidos aos projetos pedagógicos de escolas na formação integral do aluno. Mais do que saber responder o que será quando crescer, tem-se buscado despertar em crianças o sentido de humanidade, integridade para que, no futuro, elas sigam sua vocação e sejam bem-sucedidas.

Segundo o filósofo, doutor em educação da Unesp de Marília Cláudio Roberto Brocanelli, à escola cabe mais do que cumprir o currículo proposto. "Em todos os momentos, professores, diretores, supervisores e pedagogos influenciam positiva ou negativamente na formação do ser. O caráter se constitui até os 7, 8 anos e dificilmente poderá ser modificado depois, mas é possível, a qualquer momento, orientar para que o aluno tenha um caráter mais bem equilibrado, sem graves carências", afirma.

Brocanelli diz que a criança é como uma esponja, assimila tudo o que lhe é apresentado. "O adulto é uma referência para ela, ainda mais quando se trata de um professor. Mesmo que em casa receba informações destoantes das que são dadas na escola, ela vai acabar pensando sobre aquilo."

Como exemplo citou que uma família pode ensinar o filho de forma mais individualista. Dizer que o que é dela é só dela, para não emprestar brinquedos e a escola mostrar o oposto. "Muito possivelmente ela vai aprender a dividir se isso for proposto na escola."

Por fim, o filósofo e educador afirma que a escola tem a capacidade de formação de um cidadão mais íntegro e precisa pensar no processo educacional sempre vinculado à vida do aluno. "O ser humano vive um processo contínuo de aprendizado como um todo e não só de conteúdos e isso tem de ser trabalhado nas unidades escolares", diz. "O currículo não pode ser algo fechado na decoração de conteúdos, ele precisar pular o muro e se relacionar com o que há lá fora", completa.

Por volta de 387 a.C., Platão fundou a Academia com o objetivo de educar a própria alma humana. Para um dos maiores filósofos da história, a educação deve se dar de forma construtiva no âmbito intelectual, moral e físico e, quem se beneficia dela, tem o dever de voltar-se para a esfera pública contribuindo para a formação integral do cidadão ativo e responsável pelo bem comum.

O Diário mostra neste domingo diferentes tipos de complementos à educação que são oferecidos em escolas de Rio Preto como aulas de ioga, meditação, cultivo de horta, convivência e respeito pela natureza, projetos sociais, ecológicos e artísticos que fortalecem a consciência emocional e humana dos alunos.

 

Desenvolvimento com interação

As teorias sócioconstrutivistas apresentam como ponto central a premissa de que aprendizagem e desenvolvimento são produtos da interação social. Segundo a orientadora pedagógica Rita de Cássia da Freiria Souza, o Colégio Cerp é uma escola "humanizada" em que a criança é levada a construir e desenvolver seu próprio conhecimento.

Os alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental desenvolvem um projeto social, em que em um ano, será teórico e no outro, prático. Assim, atividades são feitas em espaços fora da escola, como lar de idosos e projetos sociais.

"No 6º ano eles criam um projeto e apresentam para uma banca, no 7º ano o melhor projeto, do ponto de vista de viabilidade, é colocado em prática. Isso é obrigatório e vale nota para todas as matérias", diz Rita de Cássia.

Pais de novos alunos são chamados para conhecer a dinâmica da escola e ver se estão de acordo com o que querem para seus filhos. "A família é fundamental. Acreditamos no nosso trabalho, deixamos nosso aluno respirar, ser criativo e tratamos cada um como um indivíduo único", prossegue.

Diferentes dinâmicas pedagógicas são oferecidas para que despertem a motivação e interesse do aluno, já que a aprendizagem depende do estímulo. Há um foco direcionado que insiste na atenção à diversidade de capacidades e interesses dos alunos, com ênfase de inteligências múltiplas.

Neste sábado, 30, foi o dia de os alunos apresentarem o que desenvolveram para o simpósio, outra atividade obrigatória e que vale nota para todas as matérias.

Salas de aulas foram montadas para que os alunos desenvolvessem um tema único que é o Pequeno Príncipe e a astronomia. A atividade vai do 6º ao 9º ano, mas conta com a ajuda voluntária dos alunos do ensino médio. "Trabalhamos o coletivo dentro da escola. Os alunos mais velhos apoiam os mais novos", conta.

Para Rita de Cássia a metodologia adotada não é algo que possa ser "negociado". "Não queremos um aluno a qualquer preço. Além de prepará-lo para os desafios futuros, como vestibular, queremos um ser humano feliz. Esse é o ideal de educação que acreditamos", conclui.

 

Atividades para formação integral

No período da manhã, cerca de 400 alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio ocupam as salas de aula do Colégio London onde aprendem todo o conteúdo previsto no currículo. Das 14h às 19h, a unidade está aberta para receber os estudantes que optam por fazer cursos extras em diferentes campos, como artes, sociologia, política, cidadania, moral e ética, entre outros.

"Nossos alunos são estimulados para serem boas pessoas, terem moral, ética, postura diante da vida", diz o diretor Pedro Acquaroni Neto.

Os alunos conhecem todos os funcionários da escola pelo nome e é pelo nome que devem chamar a todos. "Eles aprendem que não há pessoas invisíveis. A posição de uma pessoa é circunstancial e a postura tem que ser humanista", diz.

A escola mantém uma parceria com a creche Casa da Criança e os alunos vão lá para fazer visitas e passar parte do dia com as crianças. "Assim, eles desenvolvem o olhar para o social e conhecem um outro lado do mundo, que não faz parte do seu cotidiano", diz.

Para os alunos mais velhos, que estão se preparando para o vestibular, há palestras sobre temas específicos e aulas multidisciplinares. Na quarta-feira, dia 27, oito professores de diferentes matérias fizeram uma abordagem sobre o conflito entre o presidente americano Donald Trump e o norte-coreano, Kim Jong-un. "Foram abordados aspectos do conflito, explicado como se lança um míssil, do que é feito, a geopolítica daquela região e outros aspectos."

Os alunos do colegial têm também aulas de meditação. Essa é a forma para que consigam lidar com o estresse dessa fase da vida. "Eles aprendem esvaziar a mente, acalmar o coração e recobrar todo o conteúdo."

Jandira Caetano Ribeiro

A diversidade também é trabalhada na escola municipal Jandira Caetano Ribeiro, que é do maternal até o ensino infantil. No projeto Compartilhando Experiências, as crianças vão ao Lar São Vicente de Paula e passam um período brincando com os idosos. Segundo a direção, os resultados são surpreendentes no relacionamento e motivação de todos os envolvidos. Desde pequenas elas aprendem o respeito aos mais velhos e criam um olhar mais atento para a terceira idade.

 

Diferentes vivências e inteligências

Atividades diversificadas são usadas como instrumentos para trabalhar as inteligências múltiplas dos alunos do Liceu. Esta semana, por exemplo, as crianças do colégio terão o projeto do trânsito, com a Cidade do Trânsito sendo levada para dentro da escola. O objetivo é ensinar, desde bem cedo, para que se tornem motoristas responsáveis e educados.

"Privilegiamos os projetos como forma de desenvolver pessoas melhores. Trabalhamos questões como consumo de água, plantas, animais, cultura entre outros aspectos de uma forma que o aprendizado se dê com prazer", diz o diretor Antonio Carlos Tozzo.

A escola tem cerca de 500 alunos do maternal até o ensino médio. Na educação infantil, por exemplo, todas as sextas-feiras, uma criança tem de levar o lanche para os coleguinhas, é o projeto da partilha. "Muitos são filhos únicos e mesmo a atenção dos pais é só para eles e aí se cria uma cultura do individualismo. O projeto vem para ensinar a dividir", diz.

Na quinta-feira, a criança leva o caderninho para a casa e, junto com a mãe, decide o que quer levar de lanche para ela e os coleguinhas. A mãe escreve sobre como foi a decisão e o que a criança argumentou sobre a sua escolha de lanche.

Outra atividade feita recentemente foi uma apresentação musical, mas em libras, a linguagem dos deficientes auditivos. Com isso, aprendem sobre a diversidade, as diferenças.

Todos os anos, é feito o Festival de Poesia, com alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do ensino médico. O projeto que envolve todos os alunos é a feira de ciências, que este ano é sobre a magia e a realidade, a natureza e o homem.

Os alunos do ensino médio têm a sala interativa, um espaço para que o foi colocado em lousa seja assimilado com mais facilidade, preparando os estudantes para o vestibular.

Darcy Federice Pacheco

Mais do que giz e lousa, os alunos da escola estadual Darcy Federice Pacheco, do 6º ao 9ª ano, aprendem matemática com jogos, como múltiplos e divisores, matrix, mancala e pentamino, todos sobre operações básicas de matemática, assim como fórmulas e formas geométricas. Este mês, eles farão um campeonato com esses jogos.

 

Meditar e cuidar do meio ambiente

A Coopen mantém no currículo regular atividades que contribuem diretamente para a educação emocional e cidadã dos alunos, segundo a diretora Patrícia Barreto. Desde o ano passado, a escola para tudo por 20 minutos para os alunos meditarem. A atividade, que faz parte da grade curricular, é feita por alunos de 6 a 11 anos.

A psicopedagoga e mindfull Etiene Janiake explica que os principais efeitos da prática para as crianças são a calma e a concentração. "Elas se tranquilizam, aprendem a identificar e afastar os pensamentos ruins, acalmam-se e, uma vez calmos, estão preparadas para prestar atenção plenamente naquilo que desejam. Trazendo isso para o ambiente escolar, temos crianças com mais autocontrole, paciência", explica.

A educação ambiental também sempre esteve presente na grade curricular da Coopen. É trabalhada na sala de aula nas disciplinas de ciências e biologia, baseada nos conceitos de reduzir, reutilizar e reciclar.

No ensino infantil, crianças de 2 a 5 anos são responsáveis pela horta. As turmas se revezam no plantio, cuidado e colheita das verdura e frutas.

Já os alunos do fundamental 1, de 6 a 10 anos, praticam a reciclagem, reaproveitamento de embalagens para a realização de projetos pedagógicos e fazem a separação do material reciclado, que é recolhido por uma cooperativa.

No ensino fundamental 2 e ensino médio, os alunos participam do projeto de vermicompostagem, para reaproveitamento e transformação dos resíduos de alimentos gerados na própria escola em adubo, usado na horta. Com ajuda de professores de biologia, os estudantes constroem composteiras e cuidam das minhocas.

A prática também ultrapassa os muros. É que todos os anos é realizada a Caminhada Ecológica com alunos e pais para recolher lixo.

Gabriel Atique

O muro escolar também foi deixado para trás na escola estadual Gabriel Atique, de 6º a 9º ano. As aulas de português são dadas em uma praça que fica em frente à unidade. Nelas são promovidos debates e rodas de discussão sobre os temas da atualidade. No projeto de geografia e ciências, os estudantes preparam a terra e cultivam uma horta, depois acompanham o processo de desenvolvimento das plantas e documentam tudo.

 

Consciência espiritual e leitura

Aprender brincado, essa é a metodologia adotada pela escola Alfa e Ômega, que educa crianças de 1 ano e meio até cinco anos de idade. "O lúdico faz parte do nosso pedagógico", afirma a diretora Sandra Tano Kobata.

Além do aprendizado, questões ecológicas, consciência em relação ao outro e com os seres vivos, princípios, ética, valores familiares e o espiritual também compõem o currículo.

"Estamos em tempos difíceis em que sobram tecnologias e os avanços são surpreendentes, mas faltam exemplos e o caráter humano clama por uma ressurreição", diz.

Segundo ela, a proposta da escola teve certa resistência para ser aceita no começo, há 14 anos, mas atualmente, os pais que colocam seus filhos para estudar lá, sabem e concordam com a metodologia adotada.

Como todo o aprendizado se dá pelo prazer e curiosidade, a Alfa mantém caixas de brinquedos que são usados para contar histórias e representar o conteúdo que quer ser desenvolvido.

"Não temos placas de igrejas aqui, mas desenvolvemos uma educação com princípios, valores, que são mostrados com representações."

Sandra diz que passagens bíblicas se tornam historinhas, recontadas com fantoches e adaptadas à faixa etária das crianças. "Mostramos de forma lúdica como a história de Davi na Cova dos Leões, por exemplo, é uma prova de fé. Elas aprendem a não mentir, não enganar, a serem generosas. Ensinamos que tudo tem consequências, positivas ou não".

Outro aspecto trabalhado na escola é desenvolver o prazer pela leitura. Uma vez por semana, as crianças emprestam seus livros para outras crianças para os pais lerem as histórias infantis e mostrar os desenhos. "É um aprender prazeroso e que cria o hábito da leitura."

Quanto a Deus, a diretora afirma que, sem a presença de nenhuma religião, é feito um trabalhado para despertar a fé. "É uma sementinha que plantamos e Deus vai acontecer naturalmente em cada um, que tem o livre arbítrio para escolher o quer", finaliza.

Prioridade é a natureza e a convivência

Apenas uma sala de aula, é assim no Infantário dos Sonhos, onde as crianças de 1 ano e meio até 5 anos são estimuladas a conviver com os outros alunos, em espaços compartilhados. A unidade atende bebês a partir de 4 meses, mas as atividades são para as maiores.

Aulas de ioga e de musicoterapia fazem parte do conteúdo obrigatório. É que, segundo a diretora Anna Carolina Massi Vilela, elas contribuem para o desenvolvimento cerebral, sensorial, auditivo e emocional.

"A preocupação maior é com a criança como um ser inteiro e único", afirma. Os comportamentos que eles levam para dentro da escola são analisados e trabalhados. "Se percebemos que a criança está fazendo birra, sofrendo, vamos até ela para buscar o que está acontecendo e como reverter aquilo, respeitamos a primeira infância porque ela é a base de tudo, é quando se constrói o ser humano".

Nos espaços compartilhados não faltam brinquedos, os alunos são estimulados a desenvolver a curiosidade e a aprender brincando. Também há uma área onde a natureza é o pano de fundo para ver o mundo com outros olhos. Lá tem coelho, galinha e o cachorro de Anna Carolina vai uma vez por semana para ficar com as crianças, há também um pomar com pés de manga, carambola, jabuticaba e outras frutas.

"Elas vêm a florzinha nascer, se transformar em fruto, amadurecer e depois comem, brincam com os animais e isso desenvolve o carinho, o cuidado, o respeito pelo ser vivo, pela natureza e pelo meio ambiente. Os alunos de todas as idades ficam juntos e os mais novos aprendem com os mais velhos."

As aulas de ioga são duas vezes por semana e servem para trabalhar o emocional. Elas aprendem a respirar, a se acalmar, esvaziar a mente e lidar e controlar as emoções.

Na escola estadual de ensino médio Amira Homsi, todos os alunos também têm aulas de ioga semanalmente para combater ansiedade, principalmente a pré-vestibular. Na mesma unidade, os estudantes têm projetos de aulas de campo, com coleta de materiais da natureza para realizar análises químicas e físicas; experimentos de robótica, com construção de robôs nas aulas de física e horta hidropônica.

Análise

A formação integral do aluno é de extrema importância na formação do indivíduo e no desenvolvimento das suas potencialidades. Devemos levar em consideração não apenas o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas, da sua racionalidade e senso crítico, mas também o seu desenvolvimento como pessoa, levando em conta suas dimensões afetivas, emocionais e éticas, para que essa pessoa se desenvolva de maneira plena e saudável. Esse tipo de formação conta com a participação ativa da escola, e também da família, para promover a consciência de valores éticos e morais permitindo que o estudante reconheça seus direitos e deveres dentro da sociedade.

O papel da escola é proporcionar aos alunos atividades que os levem a conhecer seus pontos fortes e aqueles que precisam melhorar. Ao trabalhar com o conceito do homem como um ser bio-psico-social, a escola está formando um cidadão capaz de se conhecer e de fazer suas próprias escolhas no futuro, com segurança, autonomia, autoconhecimento e lucidez. Os nossos jovens alunos precisam ser formados e estimulados de forma a desenvolver todas as suas potencialidades, para que se tornem não apenas excelentes no exercício de seu ofício no futuro, mas que se tornem excelentes pessoas, cidadãos livres, responsáveis, felizes, éticos e capazes de aplicarem seu conhecimento além das paredes das universidades. A educação que visa a formação integral de seus alunos gera seres com compromisso social e não parasitas sociais!

Lilian Helena Vidotto – psicóloga clínica e psicopedagoga

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