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30/12/2016 - 00h00min

‘Adoro essa cidade’

O lado B do goleiro Jefferson, de Rio Preto para a Seleção

‘Adoro essa cidade’

Um goleiro exerce o mais ingrato dos papéis no teatro do futebol. Solitário debaixo das traves, é o anticlímax do espetáculo. Jamais vai sentir o orgasmo de um gol. E uma defesa sua, por mais elástica que seja, quase extraterrena, carrega sempre uma frustração - será o coito reprimido do torcedor rival e o frio na espinha dos que torcem para o sucesso do seu time. Talvez seja por isso que o futebol guarde em suas memórias tão poucos goleiros heróis. 

Mais fácil desfilar aqueles que, como Barbosa, arqueiro na Copa de 50, carregam para sempre a maldição de um dia infeliz. Jefferson de Oliveira Galvão, 33 anos, é negro como Barbosa. E também teve seu Maracanaço, ou Mineiraço: a derrota de 7 a 1 para a Alemanha há pouco mais de dois anos (ele estava no banco). Mas as semelhanças param por aí. A carreira de Jefferson é muito mais do que um gol do adversário.

Verdade que goleiro quase nunca protagoniza uma partida. A não ser quando o árbitro aponta para a marca circular a apenas 11 metros do imenso gol. Aí será necessário ao arqueiro elasticidade para buscar a bola veloz em qualquer dos cantos. Um momento aleatório que só o batedor controla. Ao goleiro, mais uma missão ingrata: ler a mente de quem chuta, acertar o lado e pular. Se o goleiro falha, é gol quase certo. Se acerta, é o seu orgasmo. O dia de herói. 

Jefferson teve dois desses momentos, marcantes. O primeiro foi a decisão na Taça Rio em 2010. O Botafogo, seu time, vinha de três derrotas consecutivas em finais do Carioca para o rival Flamengo. O alvinegro vencia por 2 a 1 quando o árbitro marcou pênalti para o rubro-negro. Adriano se ajeitou para bater. Chutou rasteiro, no canto esquerdo do gol. Jefferson pulou no mesmo canto.

Com a mão esquerda, defendeu a cobrança. Bota campeão, Jefferson herói. Com o craque Messi, a defesa foi no canto oposto. Era outubro de 2014, três meses após o fatídico 7 a 1. No superclássico das Américas, Brasil 1, Argentina 0. Messi correu, bateu colocado. Jefferson arregalou o olho, frisou os músculos da perna, saltou. Mais um dia no panteão.

 

Arte - Goleiro Jefferson - 30122016

Centroavante

E pensar que, quando criança, Jefferson queria mesmo era ser centroavante matador. Tinha altura, porte de camisa 9. E sonhava com a fama de artilheiro. Mas era melhor mesmo com as luvas, debaixo do travessão. Foi assim que se destacou na Associação Atlética Ferroviária, de Assis, time em que o garoto então com 11 anos nascido em São Vicente (SP) começou a atuar. A mãe, copeira no Fórum de Assis e separada do marido, penava para sustentar o caçula Jefferson e os três irmãos.

Por isso, entre os estudos e o futebol, ele arrumava tempo para alguns bicos, incluindo o de ajudante de palhaço de um circo que passou por Assis. A sorte começou a mudar quando a Ferroviária de Assis disputou um campeonato sub-17 em Foz do Iguaçu (PR). Emerson Ávila, que treinava as categorias de base do Cruzeiro, estava lá e decidiu apostar no jovem goleiro de 14 anos. As primeiras semanas na concentração da Toca da Raposa foram difíceis.

“Tinha muita saudade da minha mãe e dos meus irmãos, por isso chorava muito. Mas nunca pensei em desistir. Era aquilo ou aquilo.” Valeu a persistência. Em 2000, aos 17 anos, o técnico Luiz Felipe Scolari, então no Cruzeiro, decidiu subir Jefferson para a categoria dos profissionais. A estreia veio em uma partida contra o Guarani, em Campinas: vitória dos mineiros por 1 a 0. “Era a semana da minha vida,” lembra. Em 2003, Rio Preto entrou na vida do goleiro para não mais sair. Naquele ano ele foi emprestado para o América. Ficou pouco mais de um mês, mas foi em terras de São José que conheceu a sua atual mulher, Michele. 

Emprestado novamente, desta vez para o Botafogo do Rio, ficou dois anos. Até que, em 2005, teve o passe comprado pelo Trabzonspor, da Turquia. Foram quatro anos difíceis, em que amargou o banco de reservas a maior parte do tempo e teve dificuldade de adaptação. Em 2009, voltou para o Botafogo para não mais sair e virar herói alvinegro. “Hoje me orgulho de dizer que sou botafoguense”, afirma. Só deixou a equipe em maio deste ano, quando sofreu uma séria lesão no tríceps do braço esquerdo. Foram duas cirurgias, a última em novembro. Só volta aos gramados em abril, na melhor das hipóteses.

Empresário

Com o braço todo imobilizado, sobrou tempo para curtir a mulher, as filhas Nicole, 8 anos, Débora, 6, e Jéssica, 3, e a bela casa no condomínio Damha 2, em Rio Preto. “Adoro essa cidade e é aqui que eu vou morar. Acho as pessoas aqui muito acolhedoras. Além do mais, minha mulher está perto da família e não estou tão longe da minha.”

O afastamento do futebol no Rio também tem servido para que Jefferson treine seu lado empresário. Ele é dono de vários imóveis em Rio Preto e há três meses abriu a Beato Cafeteria, próxima à avenida Brasilusa, zona sul da cidade. “Tento implantar nos negócios a seriedade e o profissionalismo que tenho no futebol”, prega. “Quem sabe não monto uma franquia daqui algum tempo.”

O futuro já está traçado na mente de Jefferson. Em dois anos ele pretende se aposentar dos gramados, morar em Rio Preto e investir na carreira de empresário. Será outra tarefa difícil, com seus Messis em forma de tributos irracionais e toda sorte de contratempos. Mas Jefferson, o herói solitário, aprendeu a encarar qualquer bola na marca do pênalti.

Com açúcar

Jefferson disputou mais de 90 partidas pela seleção brasileira, entre 2010 e 2015. Por muitos anos seu nome foi unanimidade para a posição de goleiro. Tanto que ele se orgulha de ser admirado até por torcedores de times rivais, como o Flamengo e o Vasco. "Esse reconhecimento me emociona muito. Não tem preço."

Com pimenta

O goleiro foi um dos 11 jogadores que estavam em campo naquele trágico dia 8 de julho de 2014, no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, quando o Brasil foi massacrado pela Alemanha por 7 a 1. "Foi o episódio mais dolorido da minha carreira. No vestiário, o clima era de velório. Os jogadores não conseguiam olhar para a cara do outro." Para Jefferson, naquele dia o Brasil pecou pela autoconfiança. "Veio o primeiro, o segundo gol, e achávamos que poderíamos virar a partida. Mas aí veio o terceiro e mesmo assim não nos preocupamos em fechar o time para evitar tomar mais gols. Deu no que deu."

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