Crise causada pela Covid-19 derruba preço do etanol em Rio PretoÍcone de fechar Fechar

MENOR MOVIMENTO

Crise causada pela Covid-19 derruba preço do etanol em Rio Preto

Menor movimento causado pelas medidas de isolamento social faz preço do litro do combustível cair 7,7% em média nos postos de Rio Preto, de R$ 2,79 pra R$ 2,59


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Quem tem abastecido seus veículos nos últimos dias já percebeu uma queda no preço do litro do etanol comercializado nos postos de Rio Preto. O valor do biocombustível caiu em média 7,7%, passou de R$ 2,79 para R$ 2,59, em intervalo menor que 30 dias: de 10 de março a 7 de abril deste ano, uma redução de 20 centavos, conforme pesquisa do Diário feita em 18 postos da cidade.

O médico Maicon Costa, 32 anos, até ficou feliz com a redução do preço do etanol, mas torce para queda ser ainda mais acentuada nos próximos dias

"Acho que o preço do litro de etanol poderia cair mais, porque temos usinas produtoras aqui em nossa região. Como não gastam muito com frete para entregar o produto aqui em Rio Preto, elas têm condições de comercializar o combustível mais barato e ainda manterem suas margens de lucro", afirma o médico.

O pedreiro José Marcelino Sampaio, 49 anos, também percebeu um alívio no bolso na hora de abastecer, em relação ao preço que era praticado há 30 dias.

"Eu estava pagando R$ 2,79 por litro de etanol, agora caiu para R$ 2,59. É uma economia de 20 centavos. No fim do mês faz diferença no orçamento de casa", diz o trabalhador autônomo.

Efeito Covid-19

O presidente do Sincopetro de Rio Preto, Roberto Uehara, afirma que a diminuição do preço do litro do etanol, ocorrida na maioria dos 150 postos da cidade, é provocada pela forte desaceleração no consumo durante esse período de isolamento social.

"Lojas, restaurantes, bares e shopping todos fechados. Muita gente está trabalhando em home oficce ou de está em férias forçada, além da suspensão das aulas. Isso tudo causou uma queda da demanda de consumo em 70%. Quando tem mais oferta do que demanda, o preço automaticamente cai", reclama.

Se, por um lado, a queda de preço tem alegrado os motoristas, para Uehara, o valor baixo vai causar dor de cabeça no setor, com risco de demissão de funcionários e fechamento de postos de combustível. "Hoje temos aproximadamente três mil frentistas no setor. Se este cenário continuar assim por mais 30 dias, parte deles poderá ser demitida. Tem dono de posto que não vai aguentar essa queda de consumo por muito tempo", prevê.

Gasolina

A queda do etanol foi seguida pela diminuição do preço da gasolina. O valor do litro caiu de R$ 4 para R$ 3,79, em média.

A cabeleireira Nesia dos Santos Leite, 42 anos, que já chegou a ter medo de pagar até R$ 5 reais por litro da gasolina, ficou surpresa em ver o preço caiu para menos de R$ 4.

"A tendência que vinha era para pagar muito caro pela gasolina, mas pelo menos, uma coisa boa deste coronavírus, foi fazer o preço ficar abaixo dos R$4 . Achei até por R$ 3,79, o litro. Meu bolso agradece", diz.

A redução no preço deste combustível foi causada por quatro reduções de preços nas refinarias, acumuladas em 35%, determinadas pela Petrobrás, que automaticamente repassa a desvalorização do petróleo no mercado internacional.

A queda do preço da gasolina também foi pressionada pelo isolamento social impostas por estados e municípios que resultou no enxugamento de 58% na quantidade de veículos que trafegam pelas ruas, de acordo com levantamento feito em março pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Divida o valor do etanol pelo valor da gasolina

  • Se o resultado for menor do que 0,7, abasteça com etanol
  • Se o resultado for maior do que 0,7, abasteça com gasolina

De acordo com o presidente da Federação Nacional dos Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis), Paulo Miranda Soares, em mensagem para a indústria no final do mês passado, as vendas devem cair 50% "no cenário mais otimista", por causa da crise causada pela pandemia da Covid-19.

A Fecombustíveis avalia que expectativa é que a redução da demanda ajude a puxar os preços para baixo, afetando ainda mais a receita dos postos de abastecimento de todo País.

A entidade solicitou ao governo várias medidas para enfrentar a crise e já foi atendido na maior parte delas, entre elas a permissão para que as empresas cortem pela metade os salários e a jornada de trabalho. As medidas vão valer até durar o estado de calamidade pública, ou seja, até 31 de dezembro de 2020.

Gasolina

O cenário não impacta apenas o etanol. Na reta final de março, o governo promoveu três cortes quase em sequência do preço do litro da gasolina nas refinarias - elevando para dez medidas como essa adotadas ao longo de 2019 - , acumulando redução de 40,5%.

Se em um cenário normal esses cortes percentuais costumam demorar para chegar ao bolso do consumidor, a crise provocada pela Covid-19 "aditivou" esse processo e causou reflexos no preço do litro dos combustíveis na bomba.

Segundo o analista Thadeu Aguiar da consultoria INTL FCStone, a gasolina no mercado internacional fechou março no menor valor da história e a Petrobrás ainda não repassou para o mercado interno toda a oscilação do preço do combustível. "Talvez a Petrobrás esteja esperando um pouco para ver o que acontece com o preço lá fora e também queira evitar uma quebra nas distribuidoras, que ainda possuem estoques aos preços mais altos", explicou.

O economista André Yano diz que a queda do valor do litro do etanol sofre influência externa da queda internacional da cotação do barril do petróleo na Bolsa de Valores de Nova York.

"Abrimos o ano com o barril cotado de 68 dólares e nesta terça-feira, a cotação caiu para 32 dólares, uma redução de 53%", diz o especialista.

Yano prevê mais queda do etanol nas próximas semanas, porque começou em abril a safra da cana de açúcar 2020/2021. Neste mês iniciou a colheita e processamento, o que naturalmente vai inundar o mercado com mais toneladas de etanol. A previsão é moagem de 569 milhões de toneladas de cana, apenas na região centrosul do país. A projeção é para um crescimento de 1,71% na produção de etanol, na comparação com a safra 2019/2020.

"Com certeza, para evitar uma redução ainda maior no preço do etanol, os usineiros vão redirecionar a produção para fabricação de álcool e de açúcar, produto muito procurado atualmente e que está com boa cotação no mercado internacional. Isso tudo vai brecar a queda provavelmente em maio", prevê o analista.

Parte da mudança do foco de produção das usinas, de etanol para açúcar de exportação, prevista pelo economista Yano tem condição de ser confirmada nos próximos meses, pelo fato de fatores climáticos terem reduzido a produção de açúcar no México, Tailândia e na Índia, o país asiático que mais importa o produto do Brasil, para atender sua forte demanda do mercado interno.

"A concretização deste cenário otimista vai depender dos efeitos do coronavírus, que também atingiu o povo indiano", pondera o especialista. (MAS)