SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUINTA-FEIRA, 07 DE JULHO DE 2022
Rio Preto em Foco

Um dia de finados inesquecível

Data em que se homenageiam parentes e amigos que partiram é marcada em Rio Preto pela morte inesperada do prefeito Alberto Andaló e do piloto Milton Terra Verdi

Fernando Marques
Publicado em 04/11/2018 às 01:30Atualizado em 07/07/2021 às 23:09
Velório de Alberto Andaló  (Acervo Público)

Velório de Alberto Andaló (Acervo Público)

Finados já é uma data especial, quando lembramos de nossos entes queridos que se foram. Mas a partir do final da década de 1950, para a nossa cidade, passou a ser uma data inesquecível por dois momentos muito tristes de nossa história.

Primeiro pela morte do prefeito Alberto Andaló, que faleceu no exercício do mandato, exatamente no dia de finados, em 2 de novembro de 1959.

Depois, pela morte do agropecuarista e piloto de avião Milton Terra Verdi, filho de família tradicional da cidade e seu cunhado, Antônio Augusto Gonçalves, que sofreram um acidente com o avião Cesna 140, numa floresta boliviana.

Sem água e sem comida, à espera de socorro, Gonçalves morreu dia 7 de setembro, oito dias após a queda. Milton resistiu por 70 dias, mas faleceu no dia 7 de novembro. O avião somente foi encontrado na véspera do Natal, e os corpos chegaram a Rio Preto no dia quatro de janeiro de 1961.

O advogado Walter Dias aproveitou o diário escrito por Milton e escreveu o livro "Diário da Morte - Tragédia do Cesna 140". A partir desta data, inúmeros munícipes, principalmente em dia de finados, deixavam copos de água sobre os túmulos. Uma tradição que só terminou há pouco tempo, devido ao risco de dengue.

Mas, o mais comovente foi, sem dúvida, o dia de finados de 1959, com a morte inesperada de Andaló. Mesmo debaixo de muita chuva, a cidade toda parou para velar e sepultar o prefeito mais popular de toda nossa história. Logo que soube da notícia, nas primeiras horas do dia, o fotógrafo e cinegrafista da Cometa Filmes, Nelson Alves de Mattos, o "Betty", correu até a casa do amigo Leléu Grisi e pediu emprestada a sua câmera Paillard Bolex, 16mm, que ele acabara de adquirir e nem sabia como manuseá-la.

Junto à câmera, Leléu também emprestou uma lata de filme virgem de 400 pés. Betty não sabia que com este gesto ganharia a eternidade. Foi o único a registrar em filme o sofrimento de toda uma cidade. Mas o filme não foi revelado e a lata ficou numa gaveta na casa de Leléu por exatos 50 anos.

Em 2009, fui procurado pela irmã de Leléu (ele já havia falecido), Walda Grisi, para digitalizar filmes em Super 8 de sua família. No meio veio uma lata de 16mm. Perguntei a Walda do que se tratava e ela respondeu que "achava" que era do seu irmão. Quando coloquei o filme na moviola, tive um choque. Não podia acreditar no que estava vendo. Era o filme de Betty. Imediatamente mandei telecinar o filme na Cinemateca Brasileira. Para nossa sorte, Betty ainda estava vivo e pudemos, em vida, prestar-lhe a homenagem merecida. Fizemos uma sessão de lançamento no espaço cultural do Automóvel Clube, com a presença de historiadores, munícipes ilustres e familiares de Betty.

Foi uma emoção indescritível para todos. Agora, o guerreiro e testemunha ocular de nossa história poderia descansar em paz. Meses depois Betty partiu, deixando uma legião de amigos e admiradores. Obrigado, Betty.

Alberto Andaló, vida e morte (Acervo Público)

Alberto Andaló, vida e morte (Acervo Público)

Alberto Andaló, vida e morte (Acervo Público)

Sepultamento de Alberto Andaló (Acervo Público)

Camera Paillard Bolex 16mm de Leleu Grisi (Acervo Público)

Capa do livro que relata o drama de Milton Terra Verdi (Fotos: Acervo Público)

O cinegrafista Betty, que gravou o enterro de Andaló e a tristeza dos moradores (Acervo Público)

Milton Terra Verdi morreu após passar 70 dias em uma floresta (Acervo Público)

Chegada do corpo de Alberto Andaló (Acervo Público)

Enterro de Andaló comoveu Rio Preto: ele morreu em pleno exercício do mandato (Acervo Público)

 
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