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Matéria

Domingo, 15.06.14 às 00:50

Um poema é alguma coisa que nos tira o chão

Raul Marques
Lézio Júnior/Editoria de Arte Um poema é alguma coisa que nos tira o chão
Marcos Siscar pelo traço de Lézio Júnior

Os primeiros textos surgiram na adolescência. Morava na pequena Borborema, na região de Novo Horizonte. Após superar as hesitações contumazes da juventude, escolheu uma área que o mantivesse próximo daquilo que gostava. Tornou-se professor e pesquisador de literatura. Hoje, aos 49 anos, Marcos Siscar é uma das vozes mais representativas da poesia, do ensino superior e das culturas brasileira e francesa. A despeito da paixão pela escrita, inicialmente Siscar construiu sólida carreira no meio acadêmico. Só aos 35 anos é que lançou o primeiro livro, ‘Não se diz’.


Seguiu adiante. Contabiliza sete obras de poesia, quatro de tradução e cinco de ensaio. Praticamente todas foram ou estão em fase de tradução no exterior. Também colaborou em antologias lançadas em países como Hungria, Bélgica, Portugal, Estados Unidos, Espanha e Argentina. A maior parte de seus livros foi bem recebida e indicada para prêmios, entre os quais Portugal Telecom e Jabuti. Atualmente, Siscar leciona na Unicamp, instituição na qual realizou boa parte de sua formação. No período de 1996 a 2009, foi professor do Ibilce, onde deixou amigos e um importante trabalho.


Finaliza mais um livro de poesia, marcado pela mudança de endereço. “Saí por razões profissionais. Mas Rio Preto é uma cidade onde me sinto bem e da qual sinto falta. Costumo brincar com meus amigos dizendo que é um privilégio ter um paraíso sobre a terra e podermos visitá-lo de vez em quando.” Nessa entrevista, Siscar discorre sobre paixões, ideias e sua visão de mundo. E, é claro, fala bastante sobre poesia, um dos gêneros mais apaixonantes da literatura.


Diário da Região - Nasceu em Borborema, na região de Novo Horizonte, formou-se em letras em Campinas e fez doutorado e pós-doutorado na França. De que forma esse encontro de culturas, histórias e discursos tão díspares influencia e dialoga com sua poesia e a forma de enxergar o mundo?Marcos Siscar - Considerando que essas etapas cobrem várias décadas, essa trajetória corresponde a uma vida inteira, a coisas que ainda estão acontecendo. O que posso dizer é que esses encontros (e desencontros) com outras formas de pensar sempre me pareceram importantes. Blaise Cendrars dizia que ‘Quando se ama é preciso partir’. Inclusive porque partir permite entender bem melhor o lugar de onde saímos. Não deixo de ter um grande apego pelos lugares onde vivi. E, aliás, continuo me sentindo tão caipira quanto meus conterrâneos. Mas questionar as coisas que estão demasiadamente definidas, com tendência a se empobrecerem existencialmente, é sempre um modo de valorizar a vida. Partir e retornar são temas da minha poesia.


Diário - O que carrega do menino que deu os primeiros passos no Interior, mas superou limites, divisas e fronteiras para produzir, trabalhar e se realizar?Siscar - O menino que fui é o começo do que sou. É o mesmo que optou (de forma ainda intuitiva) por romper com determinadas expectativas e construir outra história, indo na direção do que desejava e valorizava. Faço questão de não perder a memória daquilo que eu sentia com dez, 16 e 21 anos... Para além das ingenuidades, das limitações e dos erros que superamos, há também uma relação autêntica com as coisas que eu gostaria de carregar pela vida afora. Sou muito grato às coisas que vivi e que me permitiram ser a pessoa que sou.


Diário - Que surgiu primeiro: a vontade de escrever poesia, a necessidade de se tornar professor ou a paixão pela cultura francesa?Siscar - As coisas foram acontecendo por paixão ou por necessidade. Comecei a escrever na adolescência e, depois de algumas hesitações, acabei escolhendo como profissão algo que me mantivesse próximo daquilo de que gostava. Por isso, fui ser professor e pesquisador na área de literatura. No meio desse caminho, descobri que existia poesia em outras línguas e que havia um mundo de coisas que uma língua estrangeira poderia me abrir. Aproximei-me então do francês, o que me permitiu não apenas ter experiências pessoais importantes, mas também assumir a condição de mediador (tradutor, professor, ‘especialista’) entre as duas literaturas.


Diário - Mesmo com toda bagagem, o que é mais difícil: vencer a página em branco, encontrar a melhor forma de escrever uma inquietação ou enfrentar a sala cheia de alunos sedentos por informação?Siscar - Eu concordo com isso: há sempre uma dificuldade. Acho até que é uma dificuldade saudável, que mantém a inquietação de fazer melhor, de dar o melhor de nós no que fazemos. Nossa relação com as coisas empobrece quando são regradas pelo hábito, pela acomodação ou pela presunção de superioridade, ou seja, pela repetição contente de si mesma. Mas minhas dificuldades com a poesia e com o ensino são diferentes. Dar uma aula é uma experiência intensa e que se esgota mais rapidamente; ela traz a dimensão imediata da outra pessoa que, na poesia, é fundamental, mas fica sempre adiada. Pela mesma razão, escrever poesia também pode ser muito mais gratificante. A alegria de um poema bem feito às vezes é suficiente por si mesma. Por outro lado, esse isolamento também pode levar alguém a uma insatisfação duradoura consigo mesmo, independentemente da qualidade do que escreve.


Diário - Você sempre teve abundância de informação por perto, recebeu orientação cultural ou foi obrigado a descobrir sozinho autores, livros e histórias que poderiam, senão curar, ao menos amenizar seus vazios, dúvidas e medos?Siscar - Acho que os ‘vazios’ são constitutivos do desejo de aprender. Ou seja, aprender não é uma simples compensação para a dificuldade de viver. É um modo de irmos descobrindo quem queremos e quem podemos ser, nos deslocando. Na casa dos meus pais, praticamente não havia livros, cultura letrada. Minha mãe sabia fábulas e histórias fantásticas, meu pai gostava de causos pessoais meio pícaros, meu tio e minha tia formavam uma dupla caipira que cantava no rádio... Essas coisas fazem parte do meu aprendizado. Meu contato com a informação livresca veio a conta-gotas pela escola, pela televisão, por jornais que meu pai trazia do trabalho e, mais tarde, pelos livros da biblioteca municipal. Esse processo sempre foi solitário, até o momento em que fui para a universidade.


Diário - Escolheu de forma racional a poesia para se expressar artisticamente ou foi arrebatado por ela?Siscar - Não é difícil a poesia aparecer na vida de uma pessoa quando se é adolescente. Estamos sempre apaixonados ou revoltados. E a poesia é uma forma artística que está literalmente à mão, ao acesso imediato da caneta e do papel, ou do teclado de uma máquina. Ela traz uma ilusão de facilidade maior do que na música, na pintura ou no cinema, por exemplo, nos quais a função da técnica artística é mais evidente. Por outro lado, é claro que aceitar se embrenhar por aí, fazer disso uma perspectiva geral da vida, também envolve uma decisão, um processo de reconhecimento de si mesmo como poeta. E é algo que não necessariamente tem um momento específico de escolha. Há convicções, é claro. Mas as decisões reais vão sendo tomadas ao longo do tempo.


Diário - O termo poesia anda meio banalizado. É usado para explicar jogada bonita no futebol, verso interessante na música, cantada que obteve certo sucesso e até mesmo jeito peculiar de enfrentar o cotidiano. Mas, afinal, o que realmente ela é e representa?Siscar - Há esse uso genérico da palavra, sim. O que me interessa de fato é a tradição poética, as obras de poesia, as experiências ligadas à escrita e à performance de poemas, a posição dos criadores de poesia diante dos assuntos de interesse público. Essa escrita que convencionalmente chamamos poesia está longe de ser apenas o universo da subjetividade, dos sentimentos e tampouco é um meio de expressão para fazer valer ideias sobre a vida. Poesia, para mim, é um ponto de vista. Assim como podemos entender o mundo de modo filosófico, de modo científico, de modo religioso, podemos também ver as coisas de um ponto de vista poético. Esse ponto de vista sempre me interessou pela capacidade que tem de explicitar os conflitos que vivemos, sem pretender dar uma explicação final sobre eles. Ao contrário, na poesia, as coisas nos espantam geralmente. Um poema é alguma coisa que nos tira o chão.


Diário - Não se trata de crítica, mas parece que todo mundo é poeta, atleta e técnico de futebol. Há um senso comum de que para fazer poesia basta rimar céu com mel, pão com colchão ou ali com aqui. Falta rigor estético na hora de transformar o pensamento em poema?Siscar - Tenho colegas que consideram isso um problema grave. Eu, pelo contrário, não penso que devemos lamentar. É um modo normal de travar contato com a poesia. Fazer arte é parte do processo de aprendizagem da arte. Assim como alguém experimenta pintar um quadro, fazer um desenho, inventar uma melodia, pode também passar pela experiência de escrever poemas. Claro que a visão que temos da poesia precisa evoluir para além dos lugares comuns mais populares (já anacrônicos!), como métrica e rima. Precisamos saber que poesia também é técnica, não apenas sentimento, que tem muitas formas diferentes, e que essas técnicas e formas têm uma história. Então, não basta começar a escrever. É preciso evoluir no conhecimento dos autores, das questões, do repertório da poesia. Para ser reconhecido como poeta para além do seu próprio círculo, é preciso dedicação, persistência e uma vontade pessoal de fazer essa prática convergir com a visão que temos das coisas.


Diário - Há autores, sobretudo novatos, movidos pela urgência de produzir, publicar e ser reconhecido. O tempo parece que é um amigo para quem escreve... É necessário cultivar sem alarde e esperar o momento certo para colher?Siscar - Há casos e casos. Há autores que ficaram conhecidos apenas pelas obras que produziram na juventude, como o poeta francês Rimbaud, do final do século 19, que escreveu tudo o que escreveu até os 19 anos e depois parou. Mas são situações muito especiais. Na maior parte do tempo, a juventude conta a favor daqueles que são estudiosos e rebeldes (era o caso de Rimbaud) e é uma desvantagem para aqueles que têm muita ambição e pouca disciplina. O poeta inglês T. S. Eliot chegou a dizer que, para continuar poeta depois dos 25 anos, o sujeito tem que perceber que há algo mais na poesia do que ele próprio. Quanto a mim, publiquei meu primeiro livro aos 35 anos, embora escrevesse há bastante tempo. Já tinha experiência de publicar meus poemas em jornais, folhetos, revistas. Já sabia do que se tratava. Não tinha tanta pressa, porque também não tinha dúvidas de que a poesia fazia parte da minha vida.


Diário - A sua poesia vem de dentro ou nasce da observação do dia a dia?Siscar - Na vida real, essas duas coisas não se separam. Não há nada dentro que não seja transformação de um ‘fora’ e nada fora que não seja observado por um ‘dentro’. Então, não há razão para estarem separados na poesia. O que acho interessante é que a poesia é um tipo de discurso que leva em conta as passagens entre esses lugares, atenta ao modo como uma dimensão afeta a outra. O que muda de poeta para poeta e de época para época, a meu ver, são as ênfases. Há 50, 60 anos, a poesia brasileira vivia o momento das vanguardas visuais, construtivas, em que a poesia pretendia ser objetiva artisticamente, recusando a expressão subjetiva, ‘de dentro’. Ou seja, o que valia era o processo técnico de produção da obra. A poesia aspirava ser exposta em outdoors. Logo em seguida, veio uma geração (chamada ‘Marginal’, nos anos 1970) para a qual, ao contrário, tudo era uma questão de experiência pessoal. A circulação dos textos era feita pelo próprio poeta, em pequenos espaços. Ao invés de escolher essa ou aquela ênfase, penso que vale mais a pena explorar as passagens que fazemos entre a esfera pessoal, íntima, e a esfera pública, as questões da vida comum.


Diário - Seus livros são pensados a partir de conceitos, investigação de determinado tema, ou se formam com a união de uma coletânea de textos variados que, de alguma forma, estão conectados?Siscar - Eu escrevo de modo relativamente fragmentário, recolhendo material bem diversificado. Vou anotando ideias, experiências, notícias, frases. Faço um arquivo no computador e vou colocando tudo lá, escrevendo os textos do modo o mais livre possível. Acho que essa liberdade é fundamental para quem escreve poesia. Mas há um momento em que começo a perceber o que aquelas anotações têm em comum e vou esquadrinhando os temas e as preocupações principais. Nesse momento, tento fazer um esforço de construção do livro, desde a organização dos poemas em seções até a preparação de outros textos que ajudem o leitor a compreender o projeto. Isso me ajuda a ir adiante na minha escrita, a tirar consequências do que tinha feito, a focalizar outras coisas. Em suma, tenho um projeto de escrita, sim, mas que surge em geral no meio do processo, já com o acúmulo da prática.


Diário - Sete livros de poesia, quatro de tradução e cinco de ensaio. Qual sua obra prima ou o que te deixou mais satisfeito? Por quê?Siscar - A maior parte dos meus livros foi bem recebida e indicada para prêmios. Praticamente todos foram ou estão sendo integralmente traduzidos no exterior. Tenho muito apego a cada um deles, por razões específicas. ‘Metade da Arte’ é um livro importante para mim, porque é a reunião de todos os meus primeiros trabalhos. Talvez seja meu livro mais vendido. ‘O roubo do silêncio’ tem uma tonalidade mais forte, mais incisiva, na qual ainda me inspiro para escrever. Mas, em poesia, como em arte de maneira geral, acho que temos tendência a considerar a última coisa como a mais representativa, simplesmente porque estamos mais próximos dela do que das outras. Então, menciono meus últimos livros. Embora publicado antes de ‘Cadê uma coisa’ (de poesia infantil), o livro ‘Interior via Satélite’ é o último livro que escrevi e que tem muito a ver com os 13 anos que passei em Rio Preto. É um livro mais irregular, menos homogêneo, que os anteriores, mas que contém muitas intuições poéticas que ainda estou explorando. Na parte ensaística, ‘Poesia e Crise’ (que é, em grande parte, resultado de trabalhos desenvolvidos no Ibilce) tem tido uma excelente recepção nacional e está sendo traduzido no exterior, também.


Diário - Como é sua rotina para escrever: prefere o silêncio da madrugada, o caos da tarde ou a incerteza da noite?Siscar - Eu anoto coisas (relacionadas ao silêncio, ao caos e à incerteza) em qualquer momento do dia. Mas, para dar a forma final aos textos, prefiro a limpidez e a calma da manhã.


Diário - O que alimenta sua necessidade de colocar no papel observações, pensamentos, desabafos...Siscar - Se essa pergunta tivesse uma resposta específica, talvez eu não escrevesse poesia. Poesia para mim não é uma atividade qualquer, que poderia ser saciada. É a forma de pensar sobre as coisas que me afetam, de fazer escolhas e de me posicionar diante da vida. Acho que é por isso que muitos poetas e artistas dizem que o que fazem é essencial para eles.


Diário - Existe uma balança imaginária para equilibrar o homem que transita na academia, tem acesso à informação vasta e dialoga com intelectuais com o sujeito comum que vai comprar pão na padaria e toma cerveja com os amigos no bar da esquina?Siscar - O essencial é saber quem somos, o que queremos e o que devemos fazer. Acho que transito bem entre a universidade e o bar da esquina, entre questões intelectuais e experiências as mais toscas. Há muitos poemas meus que colocam em contato essas duas dimensões. Há uma pegada intelectual em alguns poemas meus, assim como há, no meu trabalho de crítico literário, questões que têm a ver com o fato de eu escrever poesia. Por outro lado, não gostaria de confundir esses dois espaços, como se tudo fosse a mesma coisa. A universidade não pode se identificar inteiramente com aquilo que ela pensa e analisa. Precisa estar impregnada daquilo, claro, mas precisa também de distanciamento crítico. Do mesmo modo, se faço da minha poesia um campo de demonstração do que penso como teórico, isso deixa de ter interesse tanto para os leitores quanto para mim.


Diário - O que é produzido no Brasil, atualmente, que chama sua atenção pela qualidade, estética ou originalidade?Siscar - Há muita coisa de boa qualidade sendo escrita no Brasil. Se você pegar o grupo de poetas que publicava a revista ‘Inimigo Rumor’, por exemplo, encontrará várias obras já estabelecidas e de grande interesse. Se você pegar o catálogo da 7 Letras, da Cosac Naify, da Editora 34, e atualmente até da Companhia das Letras, vai encontrar jovens e bons poetas começando a escrever. O que me incomoda é, antes, a tendência, por parte da universidade, da mídia e dos educadores, de minimizar o interesse disso (aliás, o interesse da literatura como um todo). Não adianta ter coisas boas sendo escritas se não temos uma política de divulgação e de ensino que valorize o que essas obras têm a nos dizer sobre a vida e sobre as questões contemporâneas.


Diário - Se fosse viver um tempo em uma ilha sem computador, internet e informação, quais títulos levaria na bagagem? Devem ser livros que você cultiva grande relação afetiva...Siscar - Fico me perguntando se teríamos interesse por livros caso não houvesse outras pessoas no mundo. Mas se essa ilha for apenas um lugar para onde eu vá passar umas férias longas, provavelmente, faria uma bagagem variada, com diversos tipos de obras: ensaios, livros de história, memórias, romances. Se tivesse problemas com excesso de bagagem, eu separaria apenas duas ou três antologias bem amplas de poesia mundial como estas que, por acaso, estão na minha frente agora: ‘Mil e cem anos de poesia francesa’, ‘Século de ouro da poesia portuguesa’, ‘A tradição americana em literatura’.


Diário - Como lida com as pequenas mortes cotidianas?Siscar - As mortes que são também um modo de renascer, de continuar a viver, sempre me despertam um misto de melancolia e de alegria. Minha tendência é ter simpatia por elas, de valorizá-las, sobretudo quando são fruto de escolhas refletidas. Outras vezes, elas me espantam ou me angustiam. Claro que também há mortes reais no que escrevo. Mas o poema nunca é exatamente a pá de cal que se joga em cima das coisas. Pelo contrário, é uma espécie de túmulo, ou seja, aquilo que construímos para que a morte não seja esquecida, para dar concretude à dimensão que a morte tem em nossas vidas. Nunca somos tão solidários quanto em torno de um túmulo. É algo que nos devolve uma ideia de comunidade, de nossa condição de ‘mortais’, e redimensiona nossa relação com a vida.


Diário - Se um verso o pudesse definir, qual seria?Siscar - Não gostaria que nada já escrito me definisse. Mas cito agora um verso de que gosto: ‘Qui meurt a ses lois de tout dire’, que significa mais ou menos ‘Quem morre tem o direito de dizer tudo’. É um verso de François Villon, poeta francês do século 15. A propósito de falar de uma situação muito específica, já que Villon estava preso e condenado à forca, ele acaba falando também de nossa condição de mortais e da liberdade que essa condição permite a um poeta e exige dele, igualmente.


livros do autor


:: Cadê uma Coisa - 2012:: Antologia - 2011:: Interior via Satélite - 2010:: O Roubo do Silêncio - 2006:: Metade da Arte - 2003:: Tome seu café e saia - 2001:: Não se Diz - 1999



HAGIOGRAFIAS: Amy Winehouse


tem gente que já nasce como se nasce santo e vai construindo seu próprio túmulo em nome de todos se imolando como se diante de todos solitário entre as gentes tem gente que emudece como se diante de todos para que a todos a canção interrompida como é uníssona à boca daqueles a canção ininterrupta canto de amor ou elegia hálito fúnebre veja o link que apanha a canção e a lança a outro como é duvidosa a santidade esquecida de si mesma de sua incumbência sobre este palco seu gesto mortal seu derradeiro apego à vida


O DIA BRILHA


a poesia é uma cadeira que se coloca do ladode fora num dia de solo poeta está do lado de fora e encarquilhasem protetor solaro poeta está de pé ao lado da cadeira ao péda cadeira e o dia brilhaatrás do poeta a mata escura absorve com forçaos respingos do solo poeta encarquilha como folha vinda da mataque caiu no chão do lado de foraa cadeira tem o formato da espinha de alguémque está sentado ao solmas o poeta cai como a vagem encarquilhadade uma árvore escuranenhuma ave ou sopro de vento apenas um poetasem protetor solarao lado de uma cadeira em forma de espinhae pele ressecada


MANUAL DE FLUTAÇÃO PARA AMADORES


não se esqueça de onde veionem para onde os ventos o carregamapenas sinta que seus pés se despregaram do chãose quiser ainda poderá pisardeitar raízes pela planta dos péstransformar-se em pedra tronco lenhadormas embotará para sempre a clareza do vooo burburinho oceânico dos ventosas intercambiáveis direções das correntesas filigranas orgânicas do ardepois de algum temposentirá que somos bússolas birutasobjetos fantasmagóricosuns para os outrose que a técnica de pisarresponde ao medo de morrermosjuntos de morrermos todos sós




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