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Domingo, 08.01.17 às 00:00 / Atualizado em 06.01.17 às 21:30

O amor ‘líquido’ na pós-modernidade

Harlen Félix
Orlandeli Arte - Amuleto - 07012017

Um dos críticos ferrenhos do capitalismo na pós-modernidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, 91 anos, é responsável pelas reflexões mais realistas sobre as relações humanas na atualidade. 

Em sua obra, ele cunhou o termo ‘líquido’ para expressar a fragilidade e insegurança que prevalecem sobre as relações em diferentes níveis, dos vínculos amorosos aos familiares. Em livros como Amor Líquido (2004), Vidas Desperdiçadas (2005) e Medo Líquido (2008), Bauman mostra como o consumismo e as redes sociais têm contribuído para tornar os relacionamentos descartáveis e gerar níveis de insegurança que aumentam a cada dia.

Para o sociólogo polonês, os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em ‘rede’, que podem ser desmanchados a qualquer momento. E, desta forma, estabelecendo cada vez mais um contato apenas virtual, as pessoas desaprenderam a manter relacionamentos a longo prazo.

Segundo o sociólogo Araré Carvalho, a liquidez da pós-modernidade defendida por Bauman reflete a falta de paradigmas dos dias de hoje. “O paradigma é como se fosse um farol. Na modernidade, os papéis sociais eram muito claros e difundidos. Hoje, não temos mais esse farol, perdemos as nossas referências. A pós-modernidade é fluida porque, neste estado, ela toma a forma daquilo em que ela é jogada”, reflete.

Se antigamente, para conhecer e flertar com alguém, era necessário criar uma série de situações, como investir numa roupa bacana e estar presente em algum evento, atualmente existe uma infinidade de possibilidades 24 horas por dia nas redes sociais.

Para exemplificar essa nova dinâmica, Carvalho compara o estabelecimento de um relacionamento amoroso à compra de um aparelho de celular.

“Os passos são muito semelhantes. Ao comprar o celular, primeiramente vou ver na vitrine aquele aparelho que me chama mais a atenção, que me atraia por questões estéticas. Depois, vou avaliar quais recursos esse aparelho tem para me oferecer. Eu vou usá-lo até surgir um modelo melhor, que passará a ser alvo do meu desejo. Em um relacionamento amoroso, também selecionamos inicialmente por questões estéticas, avaliamos o que a outra pessoa tem para nos oferecer e, depois de estabelecido o namoro, surge uma outra pessoa que aparentemente é uma novidade.”

De acordo com o sociólogo rio-pretense, essa felicidade baseada nas coisas materiais nunca será satisfeita. “As pessoas se tornaram coisas e as coisas se tornaram pessoas. Posso não dar muito valor a um término de relação, mas fico muito bravo quando alguém quebra um disco que gosto muito, por exemplo. As relações estão cada vez mais coisificadas”, reforça Carvalho.

A insatisfação, segundo ele, é a tônica da sociedade pós-moderna. “É nela que se estruturam as relações de consumo. Insatisfeitos, ficamos à espera do próximo: o próximo carro, a próxima festa e o próximo namoro. É claro que, se não houver insatisfação, o sistema quebra. No entanto, estamos tão impregnados disso que tratamos as relações como mercadorias”, diz.

Liquidação humana

Para o psicoterapeuta, escritor e professor universitário Renato Dias Martino, a sociedade vive um ciclo vicioso tão severo que é difícil ter esperança em reverter essa situação no âmbito social. Os recursos disponíveis hoje podem, no máximo, estabelecer uma mudança no campo individual.

Segundo o psicoterapeuta, grande parte das crianças que nascem hoje não foram desejadas. Assim, nascem sem ter espaço na vida dos pais. “Nos primeiros anos de vida, a criança precisa viver junto da mãe. A falta dessa relação gera prejuízos severos. Sem uma mãe dedicada e um pai presente, qualquer relação dessa pessoa será prejudicada”, comenta.

Para Martino, as pessoas não nascem sabendo amar. “O amor é algo construído. Só se aprende a dar atenção ao outro quando se recebe atenção. E a maioria das pessoas só recebeu atenção como forma de recompensa. Um sociedade pautada pelo amor líquido é uma sociedade formada por pessoas em liquidação. Está todo mundo barato e exposto”, diz.

Por outro lado, ele ressalta que a internet não pode ser demonizada por conta dos problemas que pautam as relações humanas. “Há uma piada que diz que um sujeito que foi esfaqueado processou a Tramontina. Vivemos em um ciclo vicioso que é difícil ser identificado pelas pessoas”, comenta.

Transformação e resgate

Para o mestre de reiki e master practitioner em PNL Ademir Rondin, as transformações sociais e os avanços tecnológicos das últimas cinco décadas são expressivamente maiores que dos últimos 500 anos. “O ser humano ainda está se adaptando a essas transformações, e elas não param.”

Conforme ele, amor, amizade e calor humano são coisas insubstituíveis, mas ainda vai levar muito tempo para a valorização da presença humana ser resgatada. “Outro dia, estava com um grupo de amigos jantando em um restaurante e a maioria não largava do celular. Estamos deixando de valorizar o contato humano porque dentro do ambiente virtual conseguimos nos blindar das questões que nos causam medo e insegurança”, sinaliza.

Por outro lado, ele aposta na civilidade, na amorosidade e na religiosidade para o resgate do contato humano. “Quando falo de religiosidade, não falo de uma religião em específico, mas de um equilíbrio espiritual. Isso porque até hoje as pessoas se matam por questões religiosas.”

 

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