Não tem jeito. Quando o motorista encosta seu carro na bomba do posto e constata que não compensa abastecer seu veículo com o etanol o que fica é uma sensação de que ele ficou com o mico no jogo do setor sucroalcooleiro. Levantamento divulgado na última quarta-feira pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) oficializou o que já se sabia: o preço médio do álcool o deixou sem condições de competir com o derivado do dispendioso petróleo. A desvantagem entre os dois combustíveis ocorre nos carros com motorização flex porque, em média, o rendimento do etanol é 30% inferior ao da gasolina em relação ao rendimento por quilômetro rodado. Assim, para compensar, o valor pago pelo consumidor pelo litro do álcool deve equivaler a até 70% do preço cobrado na bomba pela sua rival. Quando isso não acontece, manter o veículo rodando com o etanol sai mais caro.
É fácil compreender essa sensação de frustração que se abate sobre o motorista. Cantado e decantado durante anos como talvez a maior conquista tecnológica do Brasil, o etanol deixou de representar economia no orçamento doméstico do brasileiro. O discurso de que o consumidor pode usar a gasolina como alternativa quando julgar que o etanol é desvantajoso é um consolo pobre quando se tem de desembolsar, no caixa do posto, mais dinheiro por menos combustível. O País detém toda a tecnologia da cadeia, da motorização dos veículos à construção das usinas produtoras de etanol e até mesmo a obtenção de cultivares cada vez mais produtivos por hectare plantado. O modelo agrega ainda outros benefícios importantes, como redução drástica de emissão de gases poluentes e aumento de renda no campo. Mas a excessiva desregulamen-tação e abandono do setor sucroalcooleiro fez com que a situação degenerasse.
Essa ausência de regras e parâmetros deixou o setor vulnerável diante da crise financeira de 2008, acompanhada de problemas climáticos. Os custos cresceram e a indústria enfrentou um forte movimento de concentração e de aquisição de unidades por capital estrangeiro. Com a valorização do açúcar no mercado internacional, as empresas passaram a desviar quantidades cada vez maiores da cana moída para esta commodity. Tudo isso redundou na perda de competitividade do etanol ante a gasolina. E o pior é que nada indica que a médio prazo isso possa mudar. Pior para o motorista, que vai continuar pagando o pato, ou melhor, a conta.
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