Aproveitando que na última sexta feira, dia 19, comemoramos os 158 anos de existência de nossa querida cidade, convido os meus amigos leitores deste espaço aqui do Diário da Região para fazermos uma viagem no tempo, indo parar no exato dia da sua fundação, ou seja, 19 de março de 1852. Fecho os olhos e volto ao passado distante. Vamos encontrar o fundador do arraial, João Bernardino de Seixas Ribeiro, construindo a primeira casa de sapé. Fui, inclusive, buscar no “Aurélio” que sapé, em Tupi, quer dizer “o que alumia”. É um capim da família das gramíneas muito usado para cobrir choças, de folhas duras, e cujo rizoma tem ponta perfurante. Construir uma casa de sapé significa morar em uma casa de capim, sem o mínimo conforto como o que temos hoje, mas para aqueles dias servia para o abrigo das chuvas, dos ventos e dos animais ferozes. Construir uma casa de sapé, em plena mata densa, foi para João Bernardino e sua esposa, dona Maria Inácia Ribeiro, um grande feito. A nossa região já era explorada havia há muito, mas ninguém teve a coragem de levantar uma choça que fosse. O nosso fundador escolheu levantar a sua casa de sapé no espigão entre os córregos Canela e Borá tendo ao fundo o Rio Preto. Os dois córregos desciam caudalosos serpenteando por entre a vegetação indo descansar nas águas escuras do rio Preto, que mantinha o seu curso primitivo adentrando a mata virgem. A paisagem era exuberante, árvores centenárias e de todas as espécies pontuavam a vastidão. O único sinal de civilização por estas bandas era um picadão no meio da mata por onde passavam os tropeiros exploradores vindos dos lugares mais distantes. João Bernardino, ao terminar a construção da singela casa de sapé, vislumbrou que depois daquela construção outras viriam e que teria que colocar um nome no arraiá que acabara de surgir.
Diz a história que o nosso desbravador encontrou acidentalmente numa choça onde havia um agrupamento de índios uma imagem de São José de Botas. Logo pensou em dar o nome no lugarejo ligando o nome do santo à cor do rio que era escura, quase preta. Surge então o poético nome de São José do Rio Preto. São José do Rio Preto nasceu, cresceu e tornou-se comarca. Em 1904, com a elevação, perdeu o nome do santo ficando simplesmente como Rio Preto e assim permaneceu por quarenta anos. Já nessa época, 1944, Rio Preto havia crescido o bastante e se desenvolvido o suficiente, transformando-se numa importante cidade do Estado de São Paulo. Até que em 9 de maio, durante os festejos das comemorações do cinquentenário de emancipação, uma notícia caiu como uma bomba: Rio Preto, por decreto presidencial, passaria a se chamar Iboruna, que em Tupi Guarani significa rio preto. As autoridades se uniram e mandaram telegramas de repúdio ao presidente da República, ao intendente do Estado de São Paulo, doutor Fernando Costa, solicitando providências no sentido de manter o nome de Rio Preto. Apelaram, inclusive, ao próprio Centro Geográfico do Rio de Janeiro, na pessoa do seu diretor, Artur Castro. Quando as respostas dos telegramas começaram a chegar, as dúvidas e as angústias foram se acalmando: ninguém conhecia o tal instituto e muito menos o seu diretor. Era tudo mentira ou no mínimo brincadeira de mau gosto, para alívio geral! A partir de 1° de janeiro de 1945, passou a vigorar por decreto o antigo e belo nome: São José do Rio Preto. Fica a minha homenagem à memória do nosso fundador, João Bernardino de Seixas Ribeiro, e sua esposa, dona Maria Inácia Ribeiro, pela grande conquista!
JOCELINO SOARES
Artista plástico; membro da Academia Rio- Pretense de Letras e Cultura