A negativa ao convite para ser o treinador da Seleção Brasileira de futebol fez o técnico do Fluminense, Muricy Ramalho, ser motivo de debates sobre sua atitude. Seria Muricy um “burro”, xingamento em coro que os técnicos são obrigados a ouvir dos torcedores quando fazem uma opção errada de substituição em meio ao jogo que se desenrola? Estaria maluco? Pois afinal, ser técnico do time canarinho é o ponto mais alto da carreira de um treinador. Ainda mais sendo o País a sede da Copa de 2014. Sua exposição mundial seria extrema. Dinheiro em premiações, publicidades, status... Não, Muricy não foi burro, muito menos maluco. Ele foi fiel aos próprios princípios. Quem conhece a história deste profissional sabe que ele nunca rompeu um contrato, apalavrado ou assinado. Quando saiu de um time antes de o contrato acabar, como aconteceu recentemente em sua passagem pelo Palmeiras, foi o time que o dispensou. Quando assumiu o Fluminense, assinou contrato até 2012. Por isso, deixou claro ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, que aceitaria ser o técnico da Seleção desde que o time carioca o liberasse de seu contrato. A CBF prontificou-se até em pagar a multa rescisória, constante no contrato. Mas Muricy recusou a oferta, porque o problema não era a multa. Era sua palavra. É público que há uma desavença política entre a CBF e o Fluminense. E por este motivo, principalmente para peitar o órgão máximo do futebol brasileiro, a diretoria do clube não liberou Muricy. E então, Muricy não bateu o pé, não vociferou, não pediu para o liberarem. Aceitou cumprir seu contrato até o fim, mesmo sabendo que a qualquer momento, caso os resultados não aconteçam, o Fluminense possa vir a dispensá-lo. Como é usual, quando o time não ganha, sobra para o técnico. Mas para Muricy este não é o problema. Porque o que vale para ele é seu compromisso, independente da recíproca não ser verdadeira. “Preciso mostrar ao meu filho que não se volta atrás no que está prometido”, disse Muricy em uma de suas entrevistas. Homem de princípios, sem dúvida.
A atitude de Muricy pode criar um neologismo: Muricyar - ato de cumprir a palavra, mesmo que com isso haja perda financeira ou social. Ele não se vendeu, não fez diferente do que prega, não se encantou com o poder, muito menos deixou se levar pelo desejo de terceiros. Como homem público, Muricy presta um serviço à sociedade. Sua história também cria um fato raro. Serve de exemplo aos candidatos em época de eleição. Observamos políticos que trocam de partidos com ideologias completamente diferentes, simplesmente porque querem mais benefícios; que mudam suas convicções de acordo com o lobby vinculado a interesses particulares; que pedem para esquecermos o que eles escreveram ou falaram. Falta-lhes coerência e pouca importância dão à própria palavra. Também poderá mostrar aos jogadores e técnicos que o futebol pode ter o romantismo de outrora. Aonde se jogava ou dedicava-se ao clube por amor, por vontade, e com devoção à camisa. A profissionalização, os empresários envolvidos, as milionárias cifras de transferências fizeram do esporte bretão um comércio. Melhorou o espetáculo por um lado, com mais exposição, meios de transmissão, tecnologia; mas, por outro, achincalhou o sentido primeiro do esporte: alegrar os envolvidos. Aproveitar-se da paixão do povo para fazer do futebol escada para a política, arquitetar maracutaias obtendo benesses e descumprir o prometido é ludibriar a boa fé do torcedor. Diferente de Muricy, que respeitou a torcida do Fluminense e todo o povo brasileiro!
CARLOS FETT
Empresário e conferencista
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