|
|
Edvaldo Santos
|
|
|
O casal Juliano e Lucimara Negrelli: brincadeira virtual, que antes era exclusiva do marido, agora é compartilhada por ambos
|
As fazendas virtuais são a nova mania da internet. Crianças, jovens e adultos gastam várias horas do dia conectados à rede para plantar, cultivar e colher frutas, legumes e verduras, cuidar de animais, administrar a propriedade, comprar e negociar a produção. Também faz parte do jogo roubar, ajudar ou sabotar a produção dos vizinhos. Conhecida como Colheita Feliz e Mini Fazenda, no Brasil, e Farm Ville, em outros países, a brincadeira possui 30 milhões de jogadores no mundo.
Rio Preto, uma cidade que sempre teve tradição na área rural, tem hoje centenas de fazendeiros virtuais. Eles comandam as suas propriedades a partir do computador ou celular, de casa, trabalho, rua ou shopping. O objetivo dos jogos é vender a produção para crescer e, portanto, atingir outros níveis. O internauta pode se destacar em experiência, popularidade e riqueza.
No Colheita Feliz, é possível interagir com as pessoas que você convida para ser vizinho, ou seja, amigo. Se for mais esperto, consegue se apropriar de parte da produção rural alheia e depois pode vendê-la. O “crime” pode ser cometido quando o fruto está maduro e deve ser colhido, ou quando há leite, ovos ou lã à disposição.
Caso seja do interesse, o fazendeiro pode ajudar o colega a regar as plantações ou colocar praga na área rural vizinha - não gera prejuízo, apenas perda de tempo para retirar as impurezas. Ao mesmo tempo, é possível ser vilão e mocinho. Ou os dois. Para ter uma fazenda de destaque é necessário desenvolver estratégias e ter tempo para jogar e estudar as ações da vizinhança. O acesso é gratuito, mas para ingressar no Colheita Feliz ou na Mini Fazenda é necessário ter conta no Orkut.
Nos jogos, existem moedas virtuais. São usadas para comprar o que é necessário para o dia a dia da fazenda. Quem não tem paciência para crescer a partir da participação normal ou deseja objetos restritos compra a moeda virtual com dinheiro real. Na Mini Fazenda, 240 minigranas ou 144 mil miniouros custam R$ 40. Já na Colheita Feliz, 400 moedas verdes custam R$ 30.
Com a grana do jogo, dá para comprar vaca, ovelha, galinha, porco e burro, e começar plantações de abacaxi, berinjela, batata, nabo, cenoura e milho. Quem quiser cachorro, pavão, abelha e pato tem que gastar dinheiro de verdade. Um pavão, por exemplo, custa R$ 10 e vive 26 dias. Serve para embelezar a propriedade.
O ajudante-geral João Otávio Neves, 18 anos, gastou R$ 30 para comprar pavão, pato e abelha. Desde novembro de 2009, joga o Colheita Feliz por influência da namorada, Taís Moreno. “Ela me mostrou o jogo com objetivo de tirar parte da minha produção. Mas gostei e estou até hoje”, diz. Ele não tem dúvidas ao afirmar o que considera mais legal: “Roubar os meus vizinhos”.
Neves fica conectado até cinco horas por dia. Ele trabalha com o pai e aproveita os horários livres para ir em casa e jogar. Já chegou a colocar o despertador para avisar em horários de colheita no meio do dia. A medida foi adotada para não perder o horário em que, no jogo, os frutos estão maduros e prontos para serem colhidos.
Parceiros virtuais e reais
O mecânico Juliano Negrelli, 35 anos, começou a usar o Colheita Feliz no ano passado e apresentou o jogo para a mulher, Lucimara Negrelli, 32 anos. Com o tempo, Lucimara se apaixonou pela brincadeira. Em períodos de participação intensa, ela se levantava às 6h e se antecipava aos amigos com metas virtuais nada elogiosas. Hoje participa menos, mas muito mais que o marido.
“Não queria entrar porque sabia que iria me viciar”, afirma ela. Como os dois são sócios, não há dificuldade para acessar a internet várias vezes ao dia no próprio trabalho. Lucimara é apaixonada por animais. Por isso, gastou R$ 4 para comprar um cachorro para a fazenda. Eles não escondem: marido e mulher ficam atentos aos descuidos e retiram parte da produção do outro.
Durante a entrevista, Lucimara aproveitou para mostrar o jogo e, é claro, resolver as pendências na sua fazenda. Na hora que foi roubar outro fazendeiro, recebeu aviso de que foi mordida por um cachorro. Como punição, perdeu 176 moedas amarelas. É pouco para quem soma quase quatro milhões de unidades.
|
Edvaldo Santos
|
|
|
O técnico Adriano Nogaroto: estímulo à lógica e à criatividade
|
Técnico dá dicas e impede acessos
Adriano Nogaroto, 30 anos, trabalha como técnico em informática em Rio Preto e tem duas fazendas virtuais, no Colheita Feliz e Mini Fazenda. Ele confessa que gosta de jogos e séries de televisão, mas diz que, por dever de ofício, deve estar bem informado sobre todas as novidades. Os clientes pedem dicas com frequência. “Dá até vontade de ser dono de uma propriedade real.”
Ele afirma que cada jogo tem seu estilo. “Na Colheita, é possível interagir com os vizinhos. Já a Mini Fazenda é mais organizada.” Seu divertimento preferido no jogo é causar prejuízo aos amigos. No primeiro dia do ano, por volta da 1h, entrou na internet com objetivo de desfalcar a produção do cunhado. “Vira competição, mas no bom sentido.”
Como trabalha com informática, ingressa no site sempre que tem tempo livre. Anda direto com computador e celular. “É lei dar uma olhadinha antes de sair de casa ou quando retorno. Gosto porque trabalha com a lógica e a criatividade. Além disso, é democrático. Não tem distinção de classe ou idade.” Além de ensinar clientes a jogar, o técnico é contratado por empresas para tirar o acesso ao site.
|
Carlos Chimba
|
|
|
A advogada Lila Kelly com os filhos, Leonardo e Bruno
|
Filhos inspiram advogada
A advogada Lila Kelly, 40 anos, de Rio Preto, começou a jogar o Mini Fazenda para fiscalizar a vida virtual dos filhos, Leonardo, 9 anos, e Bruno, 11 anos, o mais apaixonado pelo jogo. Só que, com as frequentes entradas na internet, Lila gostou do que viu, aprendeu as regras e agora tem a sua própria fazenda. “A gente acaba jogando também.”
Bruno administra a sua fazenda e a da mãe. “É muito legal.” Ele já pediu dinheiro à mãe para investir na melhoria do seu jogo. A solicitação, porém, não foi atendida. “Ela gosta bastante e chama todos os meus amigos para serem vizinhos no jogo”, diz o menino. “Eu entro sempre e vejo o que está acontecendo. É preciso acompanhar. A internet tem coisas boas e ruins”, afirma a mãe.
Para evitar que os filhos permaneçam tempo demasiado no computador, Lila estipulou que cada um pode usar o equipamento uma hora por dia. O horário compreende também as obrigações escolares. Por isso, os meninos, diz, se programam para fazer todas as atividades do jogo no tempo estipulado. Nos finais de semana, porém, a regra é relaxada.
Quem também joga é o advogado Lucas Damiani de Mendonça, 25 anos, de Bady Bassitt. Há um mês, ele começou no Mini Fazenda por curiosidade. Todos os dias, conecta-se, no escritório que trabalha, para cuidar da fazenda. “Me programo para fazer tudo em meia hora. O interessante do jogo é a possibilidade de evolução.”
|
Rubens Cardia
|
|
|
Psicóloga Renata Montenegro: jogo é prazer, não compromisso
|
‘Exagero não é saudável’
Para a psicóloga Renata Montenegro, de Rio Preto, não há grandes problemas em crianças, jovens ou adultos participarem de jogos virtuais, como as fazendas. No entanto, é importante avaliar se a brincadeira não tira tempo demais da vida real e atrapalha outras atividades. O excesso pode ser prejudicial.
“O malefício ocorre quando deixamos de resolver determinadas questões como sociabilização e mudanças dos hábitos antigos. É preciso lembrar que jogo é prazer, não é compromisso”, afirma a psicóloga, que complementa.
“Dependendo de maneira que se vive esse jogo, se desliga não só do mundo real, mas das emoções, dos vazios que precisam serem nutridos e das soluções mais satisfatórias de seus sentimentos mais íntimos.” A especialista diz também que as pessoas usam artifícios para se desligarem da rotina, mesmice, estresse e falta de relação direta com as pessoas.
“A cada dia, o ser humano diminui o círculo de convivência e pratica hábitos mais solitários. Hoje, a ansiedade gera angústias e insatisfações. Esses sentimentos precisam ser eliminados. Quando jogamos algo por prazer, isso é saudável. Há interação, descarga de adrenalina, troca, exercícios e novas experiências.”
Na opinião de Renata, toda diversão que não traz prejuízos significativos, tanto físicos como mentais, é muito bem-vinda. “Assim, sinta-se à vontade para brincar”, diz. Mas nenhuma dependência ou exagero de comportamento, afirma, são saudáveis para um indivíduo.
|