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Viciados em internet
São José do Rio Preto, 25 de Julho, 2010 - 1:27
Eles não conseguem se desconectar

Helen Ventura

 

Thomaz Vita Neto
Paula Chiodo deixa o computador ligado quando sai para comer ou para a balada
O Brasil é o país em que mais se gasta tempo em conexão doméstica no mundo. A informação é do psicólogo e coordenador do programa de Dependentes em Internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) da USP, Cristiano Nabuco de Abreu. Segundo o especialista, o Brasil tem 4,5 milhões de internautas do total de 170 milhões no mundo.

A preocupação é com o número de pessoas que se tornam dependentes da conectividade on-line. O programa atendido por Abreu recebe, semanalmente, pelo menos dez pedidos de ajuda por e-mail, de todas as regiões e, inclusive, de outros países.

Um caso que lhe chamou a atenção é de um adolescente de 16 anos que ficou 45 horas ininterruptas na frente do computador. “Existe uma perspectiva de que a dependência da internet seja considerada um novo transtorno psiquiátrico. Independentemente de ser reconhecido ou não, nós oferecemos o atendimento.”

Vários fatores influenciam a predisposição à dependência, como a família, a personalidade e as questões ambientais e sociais. Se o indivíduo tem características de introspecção e dificuldade de relacionamento, a tendência aumenta.

Para o psicólogo e professor de Psicologia da USP Antônio Carlos Amador Pereira, a necessidade passa a existir quando o ser humano sente-se incapaz de viver sem a internet. “Ele se torna prisioneiro de algo que lhe dá prazer. Só sente-se bem se está na net. É a mesma coisa de um viciado em cigarro, que acorda de madrugada e fuma até a bituca.”

Guilherme Baffi
Marjorie Martins cuida de blogs, site e páginas sociais: dez horas por dia conectada


Pereira cita o exemplo de um adulto que, apesar de ter um parceiro em casa, busca o prazer virtual. “Se ele faz isso, e só isso, algo está acontecendo.” Neste caso, é preciso utilizar a técnica do convencimento. “Não pode haver proibição. É preciso convencer que existem outras coisas boas, como o relacionamento com mais pessoas e a prática de atividades físicas, por exemplo.”

Para o coordenador Abreu, não existe critério para um tempo saudável de ficar conectado, mas sim com que propósito a internet é utilizada. Atualmente, existe uma dificuldade de discernimento do que seria razoável e abusivo.

Sintomas

É preciso ficar atento a alguns sintomas para identificar o vício (veja quadro nesta página). Depressão, prejuízo nas funções do trabalho ou escola e a omissão do tempo de horas conectado servem de alerta. A psicóloga Melissa Dias Pereira, terapeuta familiar e psiquiátrica, afirma que a terapia é uma saída para combater a dependência. “Procurar profissionais é importante nessa hora. Em Rio Preto, não há grupos de ajuda especializada, mas existem psicólogos e psiquiatras que podem ajudar nos casos que resultam em depressão. A família também precisa estar envolvida.”

A gerente de marketing Marjorie Martins, 36 anos, afirma ser neurótica e precisa estar sempre conectada à rede. Ela administra seis blogs, alguns deles da empresa em que trabalha, além de um site e páginas de relacionamento no Twitter, Facebook e Orkut. “Fico, pelo menos, dez horas diárias conectada.

Há pouco tempo, tive de ficar dez dias sem internet. Entrei em crise de abstinência, me senti um ET. Mas, muito disso, é por causa do meu trabalho. Tenho consciência de que tenho um grau de dependência alta.” Apesar disso, ela afirma que, quando trabalha demais, tenta ficar desconectada no fim de semana. “Isso é raro, mas acontece.”

Eles são loucos por tecnologia

A estudante de Publicidade Paula Chiodo, 21 anos, fica praticamente o dia todo na internet. Ao acordar, Paula vai direto para o computador. Acessa a rede pelo celular para ver as atualizações de páginas de relacionamento do Facebook e Twitter. “Quando mudei de apartamento, demorou 15 dias para transferirem a linha da net. Quase morri. Procurava casa de amigos para me conectar.”

Quando sai para comer ou tomar banho, ou até mesmo em balada com as amigas, o computador fica ligado e conectado. Às vezes, ela leva o notebook para onde vai. “Não sei se chega a ser um vício, porque não deixo de sair e conversar com meus amigos. Nunca fiquei em casa por isso. Mas existe aquela coisa de acordar e já querer me conectar.”

O fotógrafo Evandro Rocha, 27 anos, não é viciado em internet, mas gosta das novidades tecnológicas. Foi um dos primeiros em Rio Preto a comprar o iPad, além de ter iMac, MacBook e iPhone. “Sempre que lançam uma novidade, eu quero comprar, principalmente se vejo que vai valer a pena.” O fotógrafo costuma ficar o dia todo na internet. “Mesmo no bar, com os amigos, levo meu iPad ou celular, para acessar páginas de relacionamentos pessoais ou até tirar dúvidas que surgem na conversa.”

O radialista Ricardo Donini, 28 anos, já chegou a comprar celular uma vez por mês e, numa ocasião, duas vezes num período de 30 dias. “Procuro sempre um com a tecnologia melhor. O que tenho agora é 3G, tem wi-fi e possibilidade de fazer vídeo-conferência. É um computador de bolso, onde acesso orkut, msn. Uma vez troquei dois celulares num mesmo mês.”

A última troca foi em dezembro do ano passado. “Depois disso brequei um pouco. Tenho outras prioridades.” Quando comprava um novo modelo, Donini vendia o aparelho ou dava de presente. “Eles eram praticamente novos. Acho que era quase um vício.”





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