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São José do Rio Preto, 7 de Julho, 2011 - 1:50
Jovem agonizou por 1 hora até ser atendida

Rita Magalhães

Edvaldo Santos
Os médicos Jorge Dib (da esq. para a dir.), Jorge Fares e Octávio Ricci afirmam que HB vai apurar morte
A universitária Luana Neves Ribeiro, que morreu na noite de segunda-feira ao tentar doar medula óssea para salvar uma criança com leucemia, ficou mais de uma hora agonizando de dor até a chegada de um médico. Quatro horas após a colocação de um cateter no coração pela jugular, ela retornou à Unidade de Transplante de Medula Óssea (UTMO) do Hospital de Base de Rio Preto em busca de socorro, pois apresentava fortes dores abdominais, fraqueza, diarreia e pressão baixa. O prontuário médico da paciente, a que o Diário da Região teve acesso com exclusidade, revela que das 20h até 21h15, a jovem foi atendida apenas por enfermeiros.

Segundo dados do prontuário, Luana chegou à Unidade de Transplante, que fica no quarto andar do prédio, às 20h. Um dos plantonistas ligou para a médica Érika Rodrigues Pontes, que prescreveu a aplicação de Zofran 24 mg. A paciente teria exigido a presença de um médico para examiná-la antes de aceitar a medicação. Nessa hora, segundo a mãe, Cícera Aparecida Neves de Oliveira, a moça gritava dizendo que ia morrer.

A enfermeira Ana Carolina acionou, por telefone, um dos médicos da Unidade de Emergência (UE). Ele solicitou que a paciente fosse levada até o setor, no térro, para a consulta. Mas, antes da transferência da jovem, a médica Érika ligou para a enfermeira pedindo que encaminhasse Luana ao quarto 631, que iria avaliá-la.

A médica só chegou ao quarto às 21h15. Administrou omeprazol, hidróxido de alumínio e soro glicoado à áciente. Após receber a medicação, Luana vomitou. O prontuário não registra, mas dá indícios de que após a prescrição da medicação Érika foi embora.
Isso porque o prontuário só volta a fazer novo registro às 22h, quando a paciente já apresentava sudorese, pele fria e estava com as extremidades do corpo roxas. Alguém que estava no quarto chama a enfermeira Ana Carolina. Ela constata a ausência de pulso e de movimentos respiratório da paciente. A equipe inicia então as manobras de ressuscitação da doadora e chama o médico plantonista da Unidade de Emergência.

Quando os médicos Daniel Assunção e José Alberto Rios chegam ao quarto, tentam reanimá-la por 30 minutos com desfibrilador e cinco injeções de adrenalina na veia, mas não têm sucesso. Às 22h40, eles declaram o óbito de Luana. Especialistas ouvidos pelo Diário, que não quiseram identificar-se para evitar constrangimento ético, afirmaram que se a paciente fosse prontamente atendida não teria morrido. “Ao que tudo indica, ela chegou ao hospital já em choque (estava com a pressão 9 por 6). Se tivessem agido rapidamente, ela estaria viva”, afirmou um hematologista.

Investigação

Questionado, o médico Octávio Ricci, chefe da UTMO, afirmou desconhecer que ela tenha ficado por uma hora sem atendimento médico, pois acreditava que ela havia sido examinada pelos profissionais da Emergência. “Plantonista do Transplante é alcançável e não presente na unidade. Vamos levantar tudo isso agora. Desde o momento em que ela saiu até seu retorno ao hospital”, disse Ricci.

O diretor do HB, Jorge Fares, afirmou que todo o atendimento prestado à doadora será investigado por meio de uma sindicância instaurada ontem. O ponto de partida das investigações será o laudo da causa da morte emitido pelo Serviço de Verificação de Óbito, que apontará as causas da hemorragia no pulmão. O laudo conclusivo deverá ficar pronto no próximo dia 12.

Polícia Civil vai investigar a morte

O delegado João Lafayete Sanches Fernandes instaurou inquérito ontem para apurar as circunstâncias da morte da universitária Luana Neves Ribeiro, 21 anos. Ele encaminhou um ofício para o HB solicitando informações, em caráter de urgência, do histórico clínico da paciente e os nomes de todos os profissionais de saúde envolvidos no atendimento e os diretores do HB e da Unidade de Transplante de Medula Óssea. “Quero dar início aos depoimentos o quanto antes.”

Lafayete disse que vai questionar o motivo de a polícia não ter sido comunicada sobre a morte da jovem. A instauração do inquérito teve iniciativa do próprio delegado quando soube, somente pela imprensa, do trágico episódio. “Não foi uma morte comum. A doadora estava bem, em plena saúde, mas morreu logo após o procedimento. Quando ocorre um fato assim, normalmente o hospital comunica a polícia, mas não foi o que aconteceu dessa vez”, diz.

Álbum de família
Luana Ribeiro (de boné azul) com a cunhada Flávia Fernandes
Coleta de medula é suspensa

A morte da universitária Luana Neves Ribeiro levou a Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital de Base a suspender, por tempo indeterminado, a coleta de medula de doadores voluntários para atender outros centros de transplantes do País. O chefe da unidade, Octávio Ricci, afirmou também que hoje deverá decidir se as médicas Érika Rodrigues Pontes e Flávia Leite Souza Santos, responsáveis pelo atendimento à doadora, serão afastadas da unidade. Elas, segundo o diretor Jorge Fares, estão traumatizadas e muito sensibiliadas com o óbito da doadora - o primeiro caso em 15 mil transplantes já realizados no Brasil.

Ricci afirmou que a coleta de medula pela jugular acontece em 20% das doações e somente nos casos em que os doadores, como Luana, não tenham veias no braço que permitam fluxo sanguíneo necessário para a coleta pela máquina de aférese. Segundo ele, quem determina o método da coleta, se por sangue periférico ou diretamente da bacia, é o Centro Transplantador.

“Nesse caso, o transplantador pediu que fosse feita coleta de célula por sangue periférico. A gente sabe que a coleta da medula por meio do sangue periférico tem mais efeito sobre o câncer que se quer combater. O material age com mais intensidade”, afirmou Ricci. Segundo o médico, as pessoas cadastradas no Registro Nacional de Doadores de Medula não precisam temer a doação, pois o risco é insignificante. “Quero dizer à população que continue doando medula porque o risco é muito, muito baixo. Foi uma fatalidade, um episódio catastrófico.”

Confira videorreportagem sobre a coletiva de imprensa realizada no Hospital de Base em Rio Preto






Colaborou Elen Valereto

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