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Risco de surto
São José do Rio Preto, 31 de Dezembro, 2009 - 0:08
Dengue resiste a verba ‘gorda’

Allan de Abreu

Guilherme Baffi
Agente nebuliza casa: até ontem, 1.027 casos de dengue
Nem os R$ 6,03 milhões investidos pela Secretaria de Saúde de Rio Preto no combate à dengue em 2009 foram suficientes para a cidade se livrar do risco de surto da doença em 2010. Foram 1.027 casos de dengue neste ano, 261% a mais do que em 2008. Desse total, 133 ocorrências foram registradas em novembro e dezembro, indicativo de epidemia para o próximo ano, de acordo com a Superintendência de Controle de Endemias (Sucen).

Ontem a pasta confirmou 19 novos casos da doença no município. Na semana anterior foram outros 33 casos. Um rio-pretense morreu há duas semanas vítima de dengue hemorrágica. Tanto o superintendente estadual da Sucen, Afonso Viviani Junior, quanto o secretário municipal de Saúde, José Victor Maniglia, admitiram o risco de haver “surtos epidêmicos e até epidemias” de dengue na cidade no próximo ano.

Na última semana, o secretário de Saúde do Estado, Roberto Barradas Barata, convocou Viviani Júnior para reassumir suas funções “com atribuição de conduzir e adotar, de imediato, as medidas necessárias à contenção do surto de dengue nas regiões de Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Araçatuba”, um indicativo da gravidade da situação.

Os R$ 6,03 milhões gastos em 2009 equivalem a R$ 14,3 para cada rio-pretense. A verba foi gasta em campanhas educativas, pagamento do salário dos 393 agentes - 30 contratados no primeiro semestre - , compra de insumos e equipamentos. Em 2010, o investimento no combate ao Aedes aegypti será o mesmo deste ano. Na comparação com outras cinco cidades de mesmo porte no Estado, Rio Preto teve, disparado, o maior investimento em ações contra a dengue.

Segunda colocada, Santos, cidade de mesmo porte (417 mil habitantes), gastou bem menos, R$ 2,47 milhões, e registrou 150 casos da doença neste ano. Em seguida vem Piracicaba, R$ 2 milhões investidos e 17 casos, Bauru, R$ 1,97 milhão e 21 casos, e Ribeirão Preto, R$ 1,4 milhão e 1.524 ocorrências.

Para o coordenador da Vigilância Ambiental de Rio Preto, Augusto Azevedo da Silva, não há relação direta entre o investimento financeiro no combate à doença e o número de casos registrados. “Sem engajamento da população, podemos investir R$ 20 milhões que não vamos eliminar o problema”, diz. Para ele, R$ 6 milhões foram suficientes.

Neste mês, todos os médicos da rede pública municipal fizeram cursos de capacitação. O objetivo, segundo Silva, é agilizar o diagnóstico da doença nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e evitar complicações ao paciente. No próximo mês corretores e zeladores serão treinados para verificar as condições de imóveis desabitados e escolas, respectivamente. “Também queremos mobilizar a Acirp (Associação Comercial e Industrial de Rio Preto) e Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) para que lojistas e operários detectem focos do mosquito nas lojas e indústrias.”

Jogo de computador

Em Franca, a prefeitura desenvolveu um jogo de computador em que os alunos das escolas públicas combatem o Aedes. Além disso, o poder público premia com um aparelho de DVD os donos de imóveis onde os agentes não encontram nenhum possível foco do mosquito. “Com isso, conseguimos praticamente eliminar a doença no município”, diz o secretário-ajunto de Saúde, Fernando Baldochi.



Guilherme Baffi
O secretário José Victor Maniglia: ‘guerra’ contra a dengue
Secretário espera surto de dengue em 2010

O ano de 2009 termina com pequenos avanços e velhos problemas na saúde pública municipal de Rio Preto. Se caiu o tempo de espera por uma consulta, de três meses para 40 dias, e cresceu o número de atendimentos da rede (30 mil para 50 mil mensais), persiste a falta de informatização das UBSs, os móveis quebrados nas recepções das unidades e o déficit de médicos. Além disso, não houve ampliação no atendimento 24 horas, promessa de campanha do prefeito Valdomiro Lopes.

Para o secretário da pasta, José Victor Maniglia, 2009 foi um tempo de diagnóstico da rede. Sabe-se hoje que o custo de uma UBS varia de R$ 100 mil a R$ 500 mil e que a rede faz 50 mil atendimentos mensais (aumento de 47% em relação ao início do ano, conforme o secretário). Maniglia implantou um plano de gratificação para os médicos, com gasto anual de R$ 3,5 milhões, e prevê estender o mesmo benefício a todos os 2,4 mil funcionários da pasta no início de 2010 - ele não soube informar o impacto financeiro da nova medida. “Vocês vão ver um show de saúde pública ao longo dessa gestão”, promete. A euforia só cessa quando o assunto é dengue: Maniglia espera um surto da doença para o próximo ano. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Diário da Região – Quando assumiu a secretaria, qual a maior dificuldade que o senhor encontrou?
José Victor Maniglia - No início, constatamos uma assistência que não estava de acordo, com demora no atendimento dos pacientes, dificuldade na marcação de consultas, serviço 0800 sem funcionar. Estamos eliminando o 0800, e em até seis meses ele para de funcionar.

Diário - Como o senhor disse, no início do ano havia uma espera muito grande por consulta nas UBSs. Isso gerava uma série de reclamações. Hoje dá para dizer que esse problema está resolvido?
Maniglia - Não está resolvido ainda. Mas melhorou muito. Tínhamos fila de espera de três, quatro meses na atenção básica. Hoje, o máximo é de 30, 40 dias.

Diário - O objetivo é chegar a quanto?
Maniglia - Duas ou três semanas. Para que dentro do mês a pessoa seja atendida.

Diário - Com relação ao atendimento emergencial, os pacientes chegavam a ficar quatro, cinco horas na espera de atendimento. Como está isso hoje?
Maniglia - Melhorou muito. O problema maior era a unidade do Solo Sagrado. Havia um problema muito grande de recursos humanos lá. Hoje mudamos muito, fizemos remanejamentos, trocamos pessoas. Na Vila Toninho, vai ser inaugurada uma unidade de pronto-atendimento, assim como no Jaguaré. No Santo Antonio é outra dificuldade, mas está melhorando.

Diário - Em entrevista no início do ano, o senhor disse que a espera de uma hora era adequada. Essa é a média atual?
Maniglia - Não tenho um levantamento da média do tempo de espera. Mas eu acho que melhorou bastante. Tem dois lugares que são problemáticos, difíceis: Santo Antonio e Solo Sagrado. Mas vamos melhorar isso. Em quatro anos, vamos atingir uma cobertura de 50% da população pelas UBSs. Hoje temos 20%, e eram 12% no início de ano. Saímos de 30 mil atendimentos por mês para 50 mil. Um aumento de quase 47%. É um ganho muito importante.

Diário - Com relação à dengue, quais medida serão adotadas em 2010?
Maniglia - Há um temor, uma preocupação muito grande. Vamos fazer uma guerra contra a dengue. Queremos fazer um projeto no qual todos os setores da comunidade participem. Trabalhar com Ciesp, Fiesp, todos os Rotarys, as igrejas. Para conscientizar a população. E, paralelo a isso, o trabalho dos nossos agentes. Tínhamos uma cobertura das casas de 60%. Hoje passamos de 85%, acima da meta estadual. Mas é uma doença que pode matar, e vai matar. Estamos capacitando continuamente nossos funcionários, tanto agentes quanto médicos.

Diário - O senhor espera um surto de dengue em 2010?
Maniglia - Se nós não combatermos de modo muito eficiente, há previsão de surto para 2010. Porque tem aumentado a chuva e o calor, associado ao desenvolvimento do vetor.

Diário - Quando o senhor assumiu, encontrou uma situação caótica. Não sabia nem quanto custava, em média, uma UBS. Hoje o senhor tem esse controle?
Maniglia - Sim. Em breve sai o resultado de um pregão para desenvolvermos um software de informática, que vai dar todo esse levantamento. Ainda falta compilar parte da urgência e emergência, e internação. Mas já temos uma ideia bem boa dos gastos. Uma unidade menor, de 265 metros quadrados, como as do São Deocleciano e Gabriela, custa em torno de R$ 100 mil/mês. Já uma unidade maior, como Vetorazzo, Parque Industrial, custa R$ 250 mil/mês. Já Solo Sagrado, Santo Antonio, Jaguaré e PS Central, chega a R$ 500 mil mensais.

Diário - Quando assumiu, o senhor prometeu até o fim do ano informatizar toda a rede municipal de saúde. Mas até agora nada. Porque a informatização não ocorreu ainda?
Maniglia - Compramos os computadores e aguardamos o resultado da licitação para o software. Haverá controle de farmácia, e das fichas dos pacientes. O motivo (do atraso) é a burocracia do serviço público. Essa licitação foi impugnada há dois meses. Era para estar tudo funcionando. Esse é o problema na área pública. Estamos inaugurando nove unidades (UBSs) que começaram há cinco, seis anos. No fim das contas, o mais importante é mudarmos o paradigma de que o público é ruim, não atende bem, é feio.

Diário – No início do ano o jornal fez reportagens sobre a má conservação dos móveis, com cadeiras quebradas, falta de papel higiênico nos banheiros. Por que esse problema ainda persiste?
Maniglia - Tudo vai mudar. Vamos reformar todas até 2011, e os móveis serão trocados. Vocês vão ver um show de saúde pública ao longo dessa gestão. Vamos construir o Centro de Referência em Saúde da Mulher. A paciente vai fazer a consulta e o exame no mesmo dia. E estamos planejando um centro de saúde para o idoso.

Diário - Na campanha, o prefeito Valdomiro havia prometido expandir as UBSs 24 horas. Por que isso ainda não foi feito?
Maniglia - Porque esse é um ano de diagnósticos, de definição. Apesar do prefeito ter dito isso, estamos estudando quais os pontos que requerem esse atendimento. Com essas três novas UPAs, vamos cercar a região norte. Talvez, em vez de 24 horas, possamos estender até as 22h. Às vezes não há o custo/benefício em se estender para 24 horas. Deixar uma unidade para atender dois ou três indivíduos na madrugada, talvez não seja a melhor opção. Mas estamos estudando.

Diário – O déficit de médicos ainda persiste?
Maniglia - Ainda existe em ginecologista, três, e clínico geral, cinco. Com o projeto que melhora o salário do médico baseado na sua performance, no seu desempenho, no atendimento em qualidade e quantidade, diminuímos a demanda reprimida. Há um ano, a média era de dez consultas diárias, agora atende 16, e chega a 20. Estamos no terceiro mês nessa nova política, com resultados muito bons. Começamos a desenvolver um projeto de gratificação, também por desempenho, para contemplar todos os funcionários da rede, baseado em equipes por unidades. Serão vários parâmetros de avaliação, que ainda estamos decidindo. Todos vão ganhar uma gratificação, cujo valor ainda não está decidido. O projeto deve ser enviado (à Câmara) logo no início do ano.

 
     
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