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São José do Rio Preto, 20 de Dezembro, 2009 - 4:14
Tratamento de linfedema é adotado em Madri

Cecília Dionizio

Orlandeli/ Editoria de arte
Muito já se falou sobre pessoas com água no pulmão, situação grave, que pode levar à morte. No entanto, pouco se fala dos transtornos que a água retida de outras partes do corpo, como por exemplo pés, braços e pernas pode causar a quem sofre com este problema. Pode não parecer, mas esta é uma situação bem comum, cujo nome que recebe, cientificamente, é de linfedema. inchaço que decorre do acúmulo anormal de líquidos e substâncias nos tecidos.

Segundo o cirurgião vascular José Maria Pereira Godoy, professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto, autor de mais de 50 estudos publicados nas principais revistas do mundo, o problema resulta de uma falha no sistema linfático de drenagem e se associa à insuficiência de proteólise extralinfática do interstício celular e mobilização das macromoléculas. Em outras palavras, o especialista professor Henrique Jorge Guedes Neto, da Disciplina de Cirurgia Vascular, Departamento de Cirurgia, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, esclarece que trata-se de um edema (inchaço) difuso de uma determinada região do corpo que tem como causa uma disfunção do sistema linfático superficial, e apenas em raras ocasiões atinge o sistema linfático profundo. Justamente, por haver uma sobrecarga do sistema linfático superficial, há um acúmulo de líquidos e proteínas no tecido celular subcutâneo, o que leva a um aumento variável das medidas do mesmo. “Além disso, ocorrem aumento de peso, alteração funcional e modificação do fator estético do organismo”, afirma.

A boa notícia é que em Rio Preto, um método desenvolvido pelo cirurgião vascular José Godoy em parceria com sua esposa, a terapeuta ocupacional Maria de Fátima Guerreiro Godoy, também docente da Famerp, deverá ser copiado por especialistas europeus para tratar o problema.

O casal Godoy relata em diversos trabalhos que ao fazer uso de medidas clínicas fundamentais, drenagem linfática manual e mecânica, e ao usar a meia de gorgurão, além das orientações com os cuidados de higiene e da pele, adaptações de vestuários e calçados, exercícios miolinfocinéticos, sempre com o apoio dos familiares, é possível vencer o problema.

Segundo o médico, uma das principais dificuldades encontradas no tratamento do linfedema em crianças está relacionada aos mecanismos de contenção. Por isso, realizou um estudo junto a uma equipe multidisciplinar na Famerp com o objetivo de demonstrar que as meias de gorgurão, até então usadas em adultos, também têm boa evolução em crianças.

No trabalho da equipe foram descritas todas as dificuldades encontradas no tratamento do linfedema em uma criança e dentre elas se observou que é imprescindível a conscientização sobre a evolução da doença e adesão da família e do paciente ao tratamento.

Em um outro trabalho realizado em equipe pelo médico, também se constata a ausência de uma iniciativa familiar em buscar ajuda para pessoas com deficiência mental que sofrem do problema, quando nestes casos, o fato deles participarem de algum tipo de tratamento psicológico, seria um fator positivo a estimular o tratamento. Em entrevista concedida ao Diário, o cirurgião José Maria Godoy explica um pouco mais sobre o assunto e diz de que forma é possível as pessoas buscarem orientação de maneira precoce para tratar o linfedema.

Diário - Como se deu o contato com os especialistas da Europa que deverão adotar a técnica desenvolvida pelo senhor na Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp)?
José Maria Pereira Godoy - Recebi um especialista espanhol que ficou durante duas semanas e deve retornar mais vezes para aperfeiçoar e implantar as técnicas de tratamento do linfedema que desenvolvemos, em Madri.

Diário - Como é possível conceituar o que é o linfedema?
José Maria - Linfedema é um tipo específico de edema causado pela falha do sistema linfático em drenar as proteínas e macromoléculas do espaço intersticial.

Diário - Quem são as pessoas que podem se tornar vítimas?
José Maria - Podemos dividir em causas congênitas e adquiridas, sendo que nas causas congênitas o paciente já nasce com a doença, que pode se manifestar em qualquer fase da vida. Nas causas adquiridas o indivíduo nasce sem doença e durante o transcorrer de sua vida algum fator pode desencadear a lesão no sistema linfático como, por exemplo, a ressecção da mama e dos linfonodos axilares. Dentre as causas adquiridas as principais causas são os pacientes com filariose, cirurgias de câncer que removem os linfonodos, traumas e erisipela.

Diário - Quando a pessoa sofre com o problema, quais os riscos aos quais está sujeita?
José Maria - A progressão da doença para formas mais graves como a elefantíase, infecções como as erisipelas e grandes limitações de mobilidade.

Diário - Ao que tudo indica, em geral o problema afeta os obesos, qual a relação?
José Maria - A obesidade é um agravante do linfedema e sem dúvida o obeso tem mais chance de desenvolver o linfedema. Um dos exemplos é na retirada dos linfonodos axilares, onde a chance de desenvolver o linfedema é bem maior nos obesos. Por outro lado, o tratamento do linfedema é prejudicado pela obesidade.

Diário - Que tipo de tratamento é indicado nestes casos?
José Maria - Uma associação de terapias que envolve a drenagem linfática, mecanismos de contenção, cuidados com as infecções e suporte psicológico e nutricional.

Diário - Como o seu trabalho chegou ao conhecimento dos estrangeiros?
José Maria - O recente interesse é de um grupo espanhol que conhece o nosso tratameto graças à minha participação em congressos internacionais. O interesse ocorre por se tratar de um novo conceito no tratamento do linfedema, baseado nos princípios científicos, cujos resultados despertam a curiosidade e o interesse. O maior centro de tratamento do problema fica na Alemanha, porém o custo é inviável.

Diário - Em que consiste o tratamento com a meia e como ela age para que algumas melhoras sejam sentidas?
João Maria - As meias devem ser inelásticas ou de baixa elasticidade, portanto este produto não é produzido comercialmente, é feito de forma artesanal. Desenvolvemos uma meia e uma braçadeira que preenchem estes requisitos. Há interesse de grandes fabricantes internacionais de meia, mas há dificuldades quanto ao tecido para confecção.

 
     
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