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São José do Rio Preto, 18 de Abril, 2010 - 1:45
Cemitérios ameaçam lençol freático na região

Allan de Abreu

Guilherme Baffi
Manchas escuras na parede das gavetas do cemitério São João Batista que, segundo especialista, são de necrochorume
Sem mecanismos de proteção ao lençol freático, os 115 cemitérios da região de Rio Preto ameaçam a água do subsolo com produtos tóxicos e vírus de doenças contagiosas provenientes dos cadáveres, segundo o hidrogeólogo Leziro Marques Silva.

Principal pesquisador do assunto no País, Silva constatou a contaminação no lençol com o líquido, chamado necrochorume, nas proximidades de oito cemitérios do Noroeste Paulista, incluindo o São João Batista, em Rio Preto. “Nenhum cemitério da região se preocupou com o assunto até agora”, diz o especialista.

Uma resolução de 2003 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) estabelece prazo até dezembro deste ano para todos os cemitérios despoluírem o subsolo e passem a monitorar a qualidade da água do lençol. Mas, até agora, as alterações têm sido mínimas, segundo o hidrogeólogo. “É necessário descontaminar a área por meio de produtos oxidantes aplicados em perfurações de até cinco metros e construir pequenas bacias no fundo das covas para o necrochorume não escorrer para a terra”, diz (veja quadro nesta página).

O líquido decorrente da decomposição do corpo se infiltra no solo e chega até o lençol freático, cuja profundidade varia entre três e 20 metros, em média. Como o necrochorume é altamente solúvel, mistura-se à água e pode avançar quilômetros no subsolo. Segundo Silva, a água da chuva que se infiltra no subsolo pode carregar o necrochorume para profundidades maiores, atingindo o aquífero Bauru, que abastece 65% de Rio Preto e está a 150 metros de profundidade. A prefeitura garante não haver contaminação (leia mais nesta página).

Tóxico

O necrochorume é composto por substâncias altamente tóxicas, como a cadaverina e a putrescina, que em contato com a pele provocam dermatites graves e, se ingerido, pode causar envenenamento. Como um cadáver produz cerca de 30 litros da substância, é possível estimar que as 42,8 mil sepulturas nos cinco cemitérios da cidade tenham gerado 1,2 milhão de litros de necrochorume ao longo das últimas oito décadas.

Há cinco anos, o hidrogeólogo constatou a contaminação do lençol freático em 900 cemitérios do País, dos quais oito na região - Rio Preto, Catanduva, Votuporanga, Mirassol, Nova Granada, Onda Verde, Itajobi e Três Fronteiras. “Desde então, nada mudou no noroeste do Estado. Só piorou porque o sepultamento ainda está longe de ser feito nas condições ideais.”

Apesar da gravidade do assunto, o poder público se move lentamente para solucionar a contaminação. Somente no fim do ano passado a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) iniciou um levantamento da localização dos cemitérios paulistas. “Apenas mapeamos, não foi feita análise do subsolo”, disse o gerente regional do órgão, José Benites de Oliveira.

Segundo ele, devido à resolução do Conama todos os cemitérios terão de obter licença de operação da Cetesb a partir do próximo ano. Para isso, terão de fazer análises da água do lençol e apresentar ao órgão ambiental. “Se houver contaminação, terão de limpar”, afirma. Caso contrário, a multa deve chegar a R$ 82 mil.

Gavetas

A assessoria da Prefeitura de Rio Preto informou que o problema foi solucionado no São João Batista com os sepultamentos em gavetas. No ano passado foram construídas 720 novas gavetas, ao custo total de R$ 441.237,27. Conforme a assessoria, cada gaveta tem um cocho para a retenção do líquido. Além disso, a laje é “rigorosamente impermeabilizada, evitando assim que escorra o líquido para a parte externa das gavetas”.

No entanto, é possível constatar manchas pretas e marrons nas paredes das gavetas - resultado da ação do necrochorume, segundo o hidrogeólogo, que analisou as fotos feitas pelo Diário. Além disso, não há nenhum plano para descontaminar o subsolo. O Ministério Público pretende pressionar a Prefeitura para que a contaminação seja eliminada. “Se nada for feito, vamos instaurar um inquérito civil contra a administração”, disse o promotor do Meio Ambiente Sérgio Clementino.

Cartilha dá dicas para o uso da água

Na edição de hoje, o Diário da Região distribui um folheto do Comitê da Bacia Hidrográfica do Turvo/Grande com dicas para utilizar a água com racionalidade. Entre os conselhos está tomar banhos rápidos, fechar a torneira enquanto se escovam os dentes, regar as plantas com baldes, e não esguicho, limpar as calçadas somente com a vassoura e informar qualquer vazamento de água à empresa responsável pelo abastecimento público. “Esperamos auxiliar na conscientização ambiental dos leitores do Diário”, disse o secretário-executivo da bacia, Hélio César Suleiman.

Guilherme Baffi
Thiago Ramos dos Santos toma água de bica a 200 metros do cemitério São João Batista, no Jardim Itália


Votuporanga é a mais avançada

Os dois cemitérios mais avançados nas adequações à resolução do Conama são o Cemitério Municipal de Votuporanga e o Jardim da Paz, particular, de Rio Preto. Segundo o chefe do setor administrativo do cemitério de Votuporanga, Edson Genari, desde a publicação da norma, em 2003, as novas sepulturas atendem às exigências do Conselho Nacional de Meio Ambiente.

Paralelamente, a prefeitura tem modificado, por mês, uma média de dez sepulturas construídas antes de 2003 para também se adequar às normas. “Durante as obras, os restos mortais são preservados para que o local seja adaptado, retornando para a sepultura após sua remodelação.” Genari calcula que o investimento para as adequações girem em torno de R$ 1 mil a R$ 2,5 mil para cada túmulo, variando de acordo com o tamanho da sepultura. O cemitério tem cerca de 7 mil covas. Dessas, 10% já foram regularizadas.

O cemitério Jardim da Paz construiu um poço de monitoramento do lençol freático. “Até agora, não constatamos nenhuma alteração na qualidade da água”, diz o diretor, Moacir Antunes Júnior. A partir de junho, serão construídos outros três poços. Segundo ele, o fundo das sepulturas é impermeabilizado. “Desde o início do empreendimento, em 1990, tivemos essa preocupação.” Mesmo assim, a Cetesb não descarta que o subsolo do local esteja contaminado.

Semae garante que Bauru não está contaminado

O Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto (Semae), de Rio Preto, monitora o aquífero Bauru na região do cemitério São João Batista por meio de um poço instalado no almoxarifado da autarquia, vizinho ao cemitério. “Fazemos análise periódica da água no local e nunca constatamos nenhuma contaminação”, diz o geólogo do Semae Paulo Perosa. Ainda que houvesse qualquer traço de necrochorume, o produto seria eliminado no processo de tratamento da água, conforme o Semae.

O problema, afirma o geólogo, está nos poços particulares vizinhos ao cemitério. “Mesmo que o poço capte água abaixo do lençol freático, se for mal construído pode ser contaminado pela água mais superficial”, diz Perosa. A reportagem do Diário encontrou pelo menos cinco poços privados em dois bairros vizinhos ao São João Batista, Jardim Herculano e Jardim Itália. Um deles, a cerca de 200 metros do cemitério, disponibiliza água à população em uma torneira na calçada.

“Todo dia pelo menos um morador do bairro pega água nessa bica. Eu nem chego perto, tenho medo de contaminação. Prefiro comprar a água que eu bebo”, diz a dona de casa Lúcia Áurea. Um dos que pegam água com frequência na torneira é o vendedor Thiago Ramos dos Santos. “Às vezes dá receio, mas esta água é melhor do que a da torneira. Além do mais, faz pelo menos cinco anos que pego água aqui e nunca tive nenhum problema de saúde.” O poço foi construído há cerca de dez anos, segundo Lúcia. O proprietário não foi encontrado na quarta-feira.

Combustível invade subsolo

Os cemitérios estão longe de ser as únicas fontes poluidoras do lençol freático. No último levantamento de áreas do subsolo contaminadas, feito pela Cetesb em novembro de 2008, foram encontradas 147 áreas contaminadas por atividade comercial ou industrial na região.

A maioria esmagadora, 135, é decorrente de vazamento de combustível nos tanques subterrâneos dos postos. Outros sete são de tanques de armazenamento de combustível na avenida Cenobelino de Barros Serra, em Rio Preto, e de quatro indústrias de café solúvel e processamento de couro da região. De acordo com o gerente regional da Cetesb em Votuporanga, Alcides Arroyo Filho, entre os compostos do combustível está o benzeno e o chumbo, produto cancerígeno. “Se atinge o lençol freático, contamina toda a água”, afirma.

A principal causa dos vazamentos são tanques antigos, há muito tempo sem manutenção. Para renovar a licença de operação na Cetesb, os postos precisam trocar os tanques com mais de 15 anos de uso e instalar equipamentos para detectar vazamentos. Na microrregião de Rio Preto, 34 postos operam sem licença ambiental - um foi interditado.

Para o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro), muitos postos da região têm dificuldade em se adequar às novas normas ambientais devido ao custo da reforma e da documentação exigida. Os valores variam de R$ 300 mil a R$ 600 mil.





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