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Bacia do Grande/Turvo
São José do Rio Preto, 15 de Abril, 2010 - 2:46
Região usa água de forma insustentável

Allan de Abreu e Michelle Berti

Thomaz Vita Neto
Engenheiro Marcos Bertani com sistema, ao fundo, de uso adequado de água em irrigação
A região de Rio Preto está usando a água disponível na bacia do Turvo/Grande de forma insustentável. De toda a água ofertada na bacia, o ideal é que fossem utilizados somente 30%, mas o consumo corresponde a 69,3% do volume. É o que revela diagnóstico das 22 bacias existentes no Estado feito pela Secretaria de Meio Ambiente.

Além de Rio Preto, outras duas bacias também estão em condições críticas no Estado: a bacia do Alto Tietê, na Grande São Paulo (uso de 209% do total da bacia, o que obriga a Capital a importar água de outras bacias), e do Piracicaba/Capivari Jundiaí (78%), ambas regiões industriais.

“Em períodos de grande estiagem, pode haver falta d’água na bacia. É uma situação crítica, que tem preocupado muito o governo estadual”, diz Laura Stela Perez, coordenadora de recursos hídricos da secretaria.

Diferentemente das outras duas bacias problemáticas, no Noroeste Paulista, onde predomina a atividade agropecuária, quem mais consome água são os setores da laranja, na irrigação das plantas, e da cana-de-açúcar, que lava a planta antes da moagem.

“Falta investimento em novas tecnologias para minimizar o uso da água. O desperdício ainda é grande”, diz Laura. Além do uso pouco racional, a bacia tem pouca disponibilidade de água superficial, a sexta pior do Estado. “A situação é tão grave que já não é mais possível conseguir outorgas para exploração no rio Turvo, devido à alta demanda que existe”, diz.

“Há pouca oferta de água por aqui. Os mananciais de superfície são poucos, o que dá à região um dos maiores déficits hídricos do Estado”, afirma o especialista em irrigação da Unesp de Ilha Solteira Fernando Tangerino. A situação só não é pior devido à oferta de água subterrânea, 37,54 metros cúbicos por segundo.

Uma boa alternativa, segundo o biólogo da Unesp de Rio Preto Arif Cais, é cobrar pelo uso da água. “Isso faria com que os setores investissem em reuso e novas possibilidades, como irrigar durante a noite.”

Canhões

Na laranja, ainda é possível encontrar irrigação das plantas por canhões na região. O sistema é 30% mais barato e é móvel, mas consome até o dobro de água em relação a outras técnicas, como os microaspersores e o gotejamento. “Do ponto de vista ambiental, os canhões são condenáveis”, diz o técnico em irrigação Marcos Oliveira.

A região tem 30,4 milhões de pés de laranja, a maioria esmagada na Citrovita, em Catanduva, e em empresas da região de Araraquara e Bebedouro. As 15 usinas de açúcar e álcool instaladas na bacia usam até cinco litros de água para cada tonelada de cana lavada. “A terra é abrasiva e corrói as correntes do maquinário que esmaga a cana.

Por isso a planta precisa ser lavada”, explica Paulo Júnior, gerente industrial da Usina Vale, em Onda Verde. A empresa retira 100 metros cúbicos por hora do rio Turvo, volume insuficiente. “Precisa reusar a água, senão passamos aperto.” Por dia, a usina lava 5 mil toneladas da planta. Na safra 2009/2010, foram esmagados 44,6 milhões de toneladas de cana na região.

Rubens Cardia
Água extraída do rio Grande para a irrigação de laranjais na região: uso irracional do recurso
Falta recurso aos produtores


O presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio Viegas, afirma que faltam recursos aos produtores de laranja para investir em novas tecnologias de irrigação. “O produtor vai investir em técnicas melhores se tiver renda para isso. No entanto, não há segurança para os citricultores.”

A irrigação por microgotejamento, segundo Veigas, é a melhor maneira de utilizar a água de maneira racional. No entanto, além do preço alto, a técnica só serve para laranja. “Se o produtor tiver que erradicar seu pomar, o sistema não teria outro uso. Por isso muitos ainda preferem o canhão, que pode ser reaproveitado em outras plantações.”

Viegas afirma que a associação faz trabalhos constantes de orientação com os citricultores. “A outorga para exploração de água está cada vez mais difícil, e por isso é preciso racionalizar.” No caso do setor sucroalcooleiro, o reuso da água já é discutido há cerca de 30 anos, segundo André Elia Neto, do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).

“Na década de 70, se utilizava cerca de 10 mil litros de água para lavar uma tonelada de cana. Hoje usamos dois mil. Nossa intenção é chegar a mil.” A diminuição será possível devido ao protocolo ambiental do Estado, que prevê a mecanização do corte da cana até 2014. “A cana é picada pela máquina e não necessita de lavagem.”

Usina e produtor inovam

Com supervisão da Unesp de Ilha Solteira, o engenheiro agrônomo Marcos Bertani implantou um sistema de uso racional da água em uma fazenda de Pereira Barreto, que cultiva milho. O sistema foi criado para utilizar a quantidade certa de água que a planta necessita. Para isso, Bertani monitora as condições climáticas por meio de estações meteoroló-gicas para estimar quanto de água as plantas perderam por conta da evapotranspiração.

“Se foram perdidos 5 milímetros, ajusto meu sistema para que essa quantidade seja distribuída na plantação.” A perda é estimada por meio de cálculos matemáticos que consideram fatores como época do ano, tipo e estágio da cultura e condições climáticas. A água utilizada na irrigação da fazenda é captada do rio e armazenada no solo. A captação envolve gasto com energia elétrica, e por isso o uso racional também traz impactos econômicos.

A economia - tanto de água quanto de recursos - também depende de um equipamento calibrado. “A manutenção deve ser feita com frequência para evitar vazamentos”, diz o professor Fernando Tangerino, da Unesp de Ilha Solteira. A usina São José da Estiva, de Novo Horizonte, foi a primeira da região a abandonar o uso da água no processo de moagem da cana.

Desde o ano passado a empresa limpa a planta por meio de um processo de ventilação. O sistema retira mais de 80% das impurezas da cana, que são reutilizadas na correção de solo, de acordo com Roberto Holland, superintendente-geral da usina. “Agora usamos água somente para a limpeza do piso no sistema, por isso nosso consumo se aproxima de zero”, disse.





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