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A revolução dos bichos
São José do Rio Preto, 4 de Julho, 2010 - 3:31
Acuados em seu habitat animais ‘invadem’ as cidades

Helen Ventura

Ferdinando Ramos
Filhote de lobo-guará apareceu faminto na porta de uma casa há 15 dias
A dona de casa Miriam Gomes Ribeiro, 27 anos, surpreendeu-se na última terça-feira, pela manhã, ao sair de casa e se deparar com um filhote de lobo-guará no portão. O animal tinha aproximadamente um mês de idade e estava fraco. Miriam diz que não sabe como o bicho apareceu. Por ser um “bebê”, a dona-de-casa aproveitou a mamadeira do filho de dois anos, colocou leite, e ofereceu ao lobo.

“Ele demorou para pegar. Mas, depois de um tempo, começou a aceitar. Sempre que percebia que ele estava fraco, dava de novo. Ele ficou em casa dois dias. Comprei outra mamadeira para o meu filho.” O lobo-guará também ganhou um bicho de pelúcia. Ela chamou a Polícia Ambiental e o animal, uma fêmea, foi levado para o Bosque Municipal, onde está sendo tratado e alimentado.

Assim como o lobo-guará, outros 193 animais silvestres foram apreendidos entre janeiro e junho de 2010 na região de Rio Preto. A maioria deles são gambas, 47 no total. Em 2009, no mesmo período, foram 160 apreensões e, em 2008, 64. O aumento de animais apreendidos, em relação a 2008, é de 201%. De acordo com o tenente Alessandro Daleck Moreira, da Polícia Ambiental de Rio Preto, o desmatamento é uma das principais causas para o surgimento de animais silvestres na área urbana.

Miriam, por exemplo, mora próximo de uma mata, mas dentro da cidade, em Paulo de Faria. “Além disso, existem as queimadas, que afugentam os bichos, e a expansão desordenada da cidade. Cada vez mais estamos nos aproximando de uma área que é deles”, diz Daleck. O zoólogo e professor aposentado da Universidade Estadual Paulista, Dino Vizotto, confirma a informação e acrescenta que o uso de agrotóxicos também contribuiu para essa migração. “Os animais se deslocam porque percebem as mudanças e sabem que podem ter problemas. Há falta de recursos alimentares e eles buscam isso nos centros urbanos.”

O tenente acrescenta que outro ponto a se considerar são as fiscalizações ambientais, que coíbem crimes contra a fauna e a flora, o que proporciona o crescimento da população de animais silvestres. O pescador Jorge Mustafé Absi, 48 anos, concorda. “Sou pescador desde que me conheço por gente. Há cinco anos eu não via o que consigo flagrar hoje: jacarés aos montes, antas na beira do rio, veados.”

Raposa no quintal

Em Nova Granada, na última quinta-feira, a dona de casa Izilda de Jesus Figueiredo, 33, flagrou uma raposa no quintal de casa. “Foi um susto”, explicou. Izilda diz que o bicho foi atraído pelo galinheiro da propriedade. Ao perceber a presença dela, o animal ficou com medo. “A raposa entrou no viveiro, amedrontada. Aproveitei para fechá-la e chamar a polícia.”

O bicho foi capturado pela Polícia Ambiental e, depois de examinado, foi reintroduzido na mata. Porém, nem todos que se atrevem a se refugiar dentro da cidade tem a mesma sorte da raposa e do lobo-guará. Um tamanduá-bandeira de 31 quilos foi espancado, no início do mês, no Parque da Cidadania, zona norte de Rio Preto. Segundo a Polícia Ambiental, o animal levou pauladas, foi amarrado e arrastado. O bandeira, espécie ameaçada, foi internado no Hospital Veterinário da Unirp, mas, devido ao estresse, morreu dias depois.

A polícia ainda investiga os autores da agressão. Eles poderão responder por maus-tratos e podem pegar de 6 meses a um ano de detenção. Naquela mesma semana, um tamanduá-mirim, que fugiu do Bosque Municipal, foi localizado no São Deocleciano. E em dezembro do ano passado, um filhote de tamanduá-bandeira foi encontrado na avenida Nelson da Veiga, no Jardim do Bosque. O artesão João Aparecido Brandão, 52 anos, dominou o animal e o colocou dentro de um tambor. “Demos manga e banana para ele. Parecia ser dócil, acho que por ser filhote ainda.”

Cobra apareceu perto de escola

Em março deste ano, o Corpo de Bombeiros capturou uma cobra caiçaca na avenida Juscelino Kubitschek, em frente ao colégio Coopen. Foi a primeira cobra da espécie apreendida nos últimos dois anos. A suspeita é de que a cobra saiu de uma mata próxima do local. A apreensão de cobras na área urbana de Rio Preto saltou de 17 em 2008 para 47 no ano passado, aumento de 176,4%, segundo a Polícia Ambiental. Somente em 2010, foram feitas 15 apreensões.

Aproximação

O tenente Alessandro Daleck Moreira explica que, em casos como este, é preciso ter cuidado. Segundo ele, o animal pode ser agressivo e machucar as pessoas que tentam se aproximar. “A orientação é para que nunca tentem capturar o animal sozinhas. No Corpo de Bombeiros e na Polícia Ambiental existe pessoal capacitado especialmente para isso. Os bichos sentem medo e podem atacar, ferir. Tem animal que se estressa e pode até morrer.” O oficial orienta o morador que encontrar um animal silvestre a telefonar para a Polícia Ambiental pelo telefone (17) 3234-4122. Se quiser, pode comunicar o Corpo de Bombeiros pelo 193.

Guilherme Baffi
Equipe do hospital veterinário trata de tamaduá-bandeira espancado
Hospital é referência para as ‘vítimas’

No Hospital Veterinário da Unirp, em Rio Preto, os animais silvestres ficam sob os cuidados médicos dos veterinários. Há três semanas, um tamanduá-bandeira capturado no Parque da Cidadania foi levado para receber cuidados médicos na unidade. Ele foi agredido a pauladas e chegou a ser arrastado, segundo testemunhas, por uma moto, pela rua.

O outro animal, uma jiboia, chegou com marcas de queimadura pelo corpo e a suspeita é de que ela também tenha sido vítima de maus-tratos. A jiboia está internada há um mês e, segundo a professora responsável pelo atendimento, Tatiana de Andrade Cruvinel, já está bem. “São poucos os animais silvestres capturados em área urbana que chegam até nós. Normalmente, conseguimos reintroduzi-los na natureza, e este é o objetivo.

O problema é quando o tratamento é muito demorado. Quanto mais tempo no hospital, menores são as chances de ser reintegrados.” No local, os animais têm direito a tratamento completo. Passam por exames de raios-X e ultrassom e, quando necessário, por cirurgia. O hospital gasta, por semana, uma média de R$ 150 em alimentação. A ração varia de acordo com o animal e vai de frutas, roedores e galinhas. Os bichos que mais aparecem, segundo Tatiana, são maritacas, tucanos, papagaios, tamanduás, saguis, gambás, macacos e cachorros-do-mato.

Rubens Cardia
Tejo, ou sabiá-do-campo, em propriedade que é reduto para animais
Nova moradora

No Bosque Municipal, a mais nova moradora é a fêmea de lobo-guará capturada em Paulo de Faria. Segundo o veterinário responsável, Bernhard Von Schimonsky, é o primeiro animal silvestre que chega tão novo ao local. Ele explica que, em casos como este, as pessoas não devem colocá-lo próximo de outros bichos, como os cachorros. “Os animais silvestres são muito indefesos e podem pegar viroses de outros que estiverem em contato com eles.”

Schimonsky afirma que a migração da fauna silvestre para a zona urbana é comum. “Aqui próximo ao bosque existe uma família de tamanduá. De vez em quando, um deles aparece por aqui. Mas ninguém precisa ter medo, é só não mexer com eles.” O tenente Alessandro Daleck de Oliveira explica que não há informações sobre números de animais mortos capturados em área urbana. Mas ele afirma que a grande maioria sobrevive. “Conseguimos com que grande parte dos animais volte ao habitat natural. Este é o nosso objetivo.”

Um santuário ecológico na área urbana

O prazer de cuidar e preservar a natureza é cultivado todos os dias pelo corretor de imóveis Carlos Villanova. A chácara, de propriedade da família, tem pelos menos 190 palmeiras imperiais, entre jovens e adultas, e outras 200 árvores frutíferas ou de espécies de regiões distintas da flora brasileira. Todas plantadas por ele, adquiridas em viagens que fez desde que comprou o terreno, há 20 anos.

Para ele, cultivar o santuário ecológico - denominação que ele deu à chácara - é mais do que uma obrigação. Villanova explica que o trabalho funciona como uma terapia, principalmente nos momentos em que está estressado. Além disso, segundo ele, é uma forma de contribuir para o meio ambiente.

Isto porque o terreno, de nove mil metros quadrados, funciona como uma espécie de refúgio ou de parada obrigatória para uma variedade de pássaros. São papagaios, maritacas, quero-quero, anu, sanhaço-cinzento, periquito-tuim, sabiá-do-campo, joão-de-barro, corruíra, merro, tico-tico-rei cinza e até tucanos, que pousam nas árvores em busca de alimentos ou de uma sombra para descansar.

O corretor diz que também já viu macacos e araras no local, mas são casos raros de ocorrer. “Acredito que aqui seja um espaço de encontro entre a natureza e Deus. É um lugar que transmite paz, muita paz. Quando posso, venho até duas vezes num mesmo dia”, diz Villanova. A explicação para a variedade de animais, segundo ele, é uma represa com mata ciliar que existe próximo ao local. “Com certeza, os bichos vem de lá.”





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