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A guerra dos Mahfuz
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São José do Rio Preto, 5 de Fevereiro, 2012 - 1:50
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Tradicional família de Rio Preto briga na Justiça por patrimônio
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José Carlos Moreira/Arquivo
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O empresário Antonio Mahfuz vive hoje nos Estados Unidos
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A família Mahfuz, uma das mais tradicionais de Rio Preto, está em guerra. A disputa, que chegou à Justiça, é por um patrimônio avaliado em pelo menos R$ 26,5 milhões, que inclui a J. Mahfuz, uma das maiores redes de móveis e eletrodomésticos do Estado, além de 25 imóveis na região. De um lado, as irmãs Aida, Laila, Nádia e Sônia, autoras da ação na 1ª Vara Cível de Rio Preto pedindo a anulação de procuração lavrada no 3º Cartório de Notas da cidade em 19 de julho de 1971. No documento, o pai delas, Elias Mahfuz, concede plenos poderes ao filho Antonio na administração da Irmãos Mahfuz Ltda, sociedade dos irmãos sírios Elias e João Mahfuz.
As irmãs alegam no processo que a assinatura de Elias foi falsificada. Baseiam-se em laudo assinado pelo perito Jorge Paulete Vanrell, contratado por elas, atestando que “a assinatura do documento não proveio do punho de Elias Mahfuz e, via de consequência, é falsa”. Foi com base nessa procuração que Antonio ingressou na empresa, junto com o primo, João Mahfuz Júnior. Ambos figuram na extensa lista de réus do processo, que abrange quase todos os Mahfuz: a ex-mulher de Antonio, Heloísa, os filhos Eduardo, Elias e Maria Fernanda, além dos irmãos de João Mahfuz Júnior e sócios da J. Mahfuz, Márcia, Silvia, Sérgio e Ricardo, além da mãe, Célia.
Caso a Justiça confirme, em laudo oficial, a falsidade da assinatura e declare nula a procuração, as quatro irmãs pedem a anulação de todos os atos posteriores ao documento. É aí que começa o imbróglio que revolve todo o patrimônio atual em nome dos 11 réus. E não é pouca coisa. Em 22 de julho de 1971, três dias depois da assinatura da procuração, Antonio e João Mahfuz Júnior ingressam na empresa, em parceria com o pai desse último, João Mahfuz. Após a morte de João, em 1984, os primos decidem cindir a empresa em duas: Lojas Mahfuz, em nome de Antonio e da mãe, Victoria, e J. Mahfuz, de João e os outros quatro irmãos.
Após a divisão, Antonio cria 12 empresas que, segundo o advogado das irmãs, Claudenir Pigão, usufruíram do patrimônio das Lojas Mahfuz. A mais famosa delas é a A. Mahfuz, que chegou a ter 126 filiais em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná, mas acabou se atolando em dívidas que, alega o advogado, resultaram na dilapidação do patrimônio da família.
Um exemplo citado na ação é um apartamento no Centro de São Paulo e uma casa em Mirassol, ambos pertencentes a Victoria, penhorados pelo banco Chase Manhattan devido a dívidas da A. Mahfuz. Outra empresa criada a partir da Irmãos Mahfuz é a H Flex, que Antonio retirou do controle da Lojas Mahfuz para dar aos filhos. A firma permanece ativa, e é dona de um galpão no Distrito Industrial de Rio Preto, atualmente locado para várias empresas.
Holding
Na outra ponta, João Mahfuz Júnior e os irmãos criaram a Green Field Participações, holding que administra os vários imóveis do grupo. Um deles, em área nobre de Rio Preto, esquina da avenida Alberto Andaló com rua Independência, pertencia à Irmãos Mahfuz, conforme o advogado Pigão, e atualmente está locado para uma empresa de outdoors.
“Antonio e João Júnior, por meio de operações aparentemente amparadas no direito (...), dilapidaram o patrimônio dela e construíram para si um império”, escreve o advogado das quatro irmãs na petição inicial.
Na ação, Nádia, Sônia, Aida e Laila pedem que os 25 imóveis atualmente em nome das empresas de Antonio e João Mahfuz Júnior sejam reescriturados para constar como proprietária a Irmãos Mahfuz e seja feita a redistribuição dos bens. Caso não seja possível, os autores pleiteiam o pagamento de indenização às quatro irmãs, em valor a ser apurado em juízo. Os réus já foram citados por edital, mas não há prazo para o julgamento do caso. “As irmãs querem que volte para elas o que o pai delas construiu”, resume o advogado. Procuradas, Sônia, Laila e Nádia não quiseram se pronunciar.
Empresário nega fraude
O empresário Antonio Mahfuz, que mora nos Estados Unidos, negou que a assinatura do pai na procuração que lhe deu poderes na empresa da família seja falsa. “Trata-se de uma infâmia”, afirma, em entrevista por e-mail. Ele disse que ainda não foi formalmente citado da ação - o que deve ser feito por meio de carta rogatória, via Ministério da Justiça. Mas disse ter lido o edital publicado no último domingo no Diário, o que o deixou “estarrecido com a pretensão das irmãs, que depois de 41 anos e de terem recebido em juízo integralmente, cada uma, a sua quota-parte da partilha dos bens de meu pai, pretendem dizer nulos os atos do inventário respectivo”.
Em seguida, ameaça: “A resposta à demanda será dada pelos meus advogados no momento próprio e garanto que não será nada agradável para elas.” Procurados, João Mahfuz Júnior, Sérgio João Mahfuz e o advogado do grupo J. Mahfuz, Emanuel Henrique de Carvalho Tauyr, não quiseram comentar o caso. “Nossa contestação será via judicial, por isso não posso dizer nada a respeito”, disse João. Os filhos de Antonio e sua ex-mulher não foram localizados na última semana.
‘Tinha de recomeçar a vida’
Faz 12 anos que Antonio Mahfuz trocou as dívidas milionárias no Brasil pela vida pacata em solo norte-americano. “Fiquei sem empresa, sem emprego, sem dinheiro. Tinha de recomeçar a vida”, justificou, em entrevista ao Diário no ano passado. Hoje, ele mora em uma casa à beira-mar em Hollywood, cidade próxima a Flórida, e é dono de uma empresa de cozinha planejada e acessórios para banheiro, com faturamento anual entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão, de acordo com site norte-americano.
No Brasil, Toninho, como é conhecido, deixou rastro de dívidas que alcançam R$ 50 milhões, resultantes de 221 ações judiciais - ele alega ter quitado a maioria desse passivo, embora os processos constem abertos no site do Tribunal de Justiça e da Justiça Federal. O imbróglio de Mahfuz com a Justiça se arrasta desde 1991, quando começaram a pipocar as dívidas da A. Mahfuz, na época uma das maiores redes de lojas de eletrodomésticos do País. Quando o déficit do empresário tornou-se impagável, decidiu mudar-se para a Flórida, em janeiro de 2000.
Logo após a mudança para os Estados Unidos, a 17ª Vara Cível de São Paulo decretou sua prisão, por ter sido depositário infiel em dívida contraída em 1991 pela A. Mahfuz com o banco Chase Manhattan. Devido ao mandado, o empresário não pôde assistir ao casamento do filho Elias Mahfuz Neto, na Capital, em 2007 - ele só obteve habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) após o evento. Durante a cerimônia, um constrangimento: com a informação de que Mahfuz estaria no casamento, a Polícia Federal fez blitz na recepção da festa, e chegou a deter um primo do empresário pensando tratar-se de Antonio. Em 2010, Toninho também esteve ausente do casamento do seu outro filho, Eduardo, e do enterro do corpo da mãe, Victoria Srougi Mahfuz, morta aos 93 anos.
O empresário só retornou ao Brasil em outubro do ano passado, quando obteve habeas corpus no Tribunal Regional Federal (TRF) contra mandado de prisão decretado pela Justiça Federal de Rio Preto em ação penal por apropriação indébita previdenciária - segundo o Ministério Público Federal, ele teria deixado de recolher R$ 88 mil ao INSS. Permaneceu cerca de um mês, e hoje está de volta à Flórida.
Patriarca veio da Síria em 21
Nascido em Damasco, Síria, Elias Mahfuz chegou ao Brasil em 1921. Tinha 18 anos, e veio sozinho, fugindo da pobreza na terra natal. Três anos depois chega seu irmão mais novo, João, e ambos se mudam para Mirassol, onde fundam a Casa Esperança, loja de tecidos e calçados. Mais tarde, nos anos 50, instalam em São Paulo a fábrica de meias “Pico” e compram a Casa Guarani, famosa loja de tecidos de Mirassol. Na década seguinte, fundam a distribuidora de gás Alta Araraquarense, que distribuía gás de cozinha a 56 cidades da região, e a Mahfuz, loja de eletrodomésticos com unidades em Rio Preto, Catanduva e Votuporanga.
Era o início de um dos maiores conglomerados empresariais do interior paulista, a Irmãos Mahfuz, e as empresas dela originárias, incluindo a J. Mahfuz, alvos da ação judicial, chamada “medida cautelar de protesto contra a alienação de bens”, impetrada pelas filhas de Elias contra o único filho, Antonio, e os primos. O advogado das irmãs, Claudenir Pigão, não soube estimar o valor do patrimônio questionado. No registro das empresas na Junta Comercial, consta capital social (valor declarado da empresa) de R$ 26,5 milhões no total.
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