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São José do Rio Preto, 17 de Janeiro, 2010 - 1:28
Arrependidos pagam até R$ 2 mil para retirar tatuagem

Graziela Delalibera

Guilherme Baffi
O dermatologista Carlos Roberto Antonio utiliza o laser para retirada de tatuagem em paciente
O arrependimento tem levado ao menos 60 pacientes todos os meses a dolorosas sessões para retirada de tatuagens com raio laser em clínicas de dermatologia de Rio Preto, segundo especialistas ouvidos pelo Diário. Além de enfrentar um processo demorado até a eliminação total dos pigmentos, em torno de um ano, eles pagam um preço alto: de R$ 300 a R$ 2 mil por sessão, dependendo do tamanho e do número de cores do desenho. O serviço não está disponível na rede pública de saúde.

São necessárias em média dez sessões para a remoção total, e a maioria das sessões realizadas nas clínicas custa em torno de R$ 700 cada. “A tatuagem corresponde a uma roupa que você veste e não tira nunca mais”, diz o dermatologista João Roberto Antonio, da Clínica Pelle, professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) e presidente da regional de São Paulo da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). “Muitas vezes a tatuagem é feita num momento carregado de emoção, que para aquela época é totalmente adequada, mas a motivação acaba e é substituída por uma desilusão”, observa.





Rubens Cardia
Médico João Carlos Pereira: alguns casos requerem 10 sessões para remoção


Segundo o especialista, a maior parte dos pacientes chega ao consultório por causa de término de relacionamentos - para retirar o nome ou alguma mensagem que remeta ao antigo parceiro - ou por motivos profissionais. Também há casos em que o paciente simplesmente enjoa do desenho, ou passa a ter ideias diferentes daquelas que originaram a tatuagem.

“Quando fiz pensava que seria para sempre, mas agora não vejo mais razão.” O depoimento é do designer gráfico Rafael (nome fictício), 37 anos. Ele se refere à inicial de uma ex-namorada que tatuou no pulso e agora faz tratamento para remoção. Já passou por seis sessões e serão necessárias mais duas para apagar a marca. O tratamento para retirar a tatuagem que na época custou R$ 50 ficará em cerca de R$ 1 mil.

Um estudo realizado na Famerp e coordenado pelo dermatologista Carlos Roberto Antonio, que entrevistou 220 pessoas, apontou que 95% delas não fariam novamente a tatuagem, e 50% têm interesse em fazer a remoção. O médico atende ao menos um paciente por dia para remoção de tatuagem, o que corresponde no fim do mês a três dias úteis com o aparelho de raio laser ligado.

A demanda é tanta que a partir de abril a clínica terá uma médica exclusiva para o procedimento. No caso dos nomes e iniciais de parceiros, áreas como virilha e região pubiana são bastante comuns nas mulheres. No caso dos homens, a preferência é tatuar braços, tornozelos e pernas.

Thomaz Vita Neto
Puff refaz os nomes tatuados de pessoas arrependidas
Alto custo

Há casos em que o alto custo do tratamento e o tempo dispensado, além da dor, torna a remoção inviável. Um jovem com as duas pernas fechadas de desenhos foi até o consultório acompanhado da mãe. A remoção custaria em torno de R$ 150 mil e foi descartada.

Para o dermatologista João Carlos Pereira, da Clínica Derm, ainda existe preconceito na sociedade em relação à tatuagem, embora seja bem aceita no meio artístico. Ele faz o procedimento há 15 anos e diz que muitas pessoas que fizeram tatuagem na juventude optam pela remoção a partir do momento em que se tornam pais e os filhos começam a questionar a atitude.

Em tratamento há oito meses, a estudante de direito P.F., 27 anos, conta que decidiu retirar o nome do ex-marido tatuado nas costas depois que passou a fazer estágio. “Comecei a frequentar o Fórum e escritórios de advocacia, que são ambientes onde a tatuagem não combina.” Por coincidência, hoje ela não está mais casada e fala que na época quis fazer uma surpresa para o então companheiro.

Outro que está prestes a ter duas tatuagens retiradas totalmente do corpo é o professor F.S.M, 38. Ele fez a primeira aos 16, quando integrava uma banda de rock. Fala que foi influenciado pelos ídolos da época e que agora os desenhos não estão de acordo com a vida que leva. “Já fui reprovado em dois concursos por causa das tatuagens.”

Thomaz Vita Neto
Julia Azevedo tem 11 tatuagens no corpo; nome do marido está gravado no pulso
A tatuagem dura mais do que o namoro

“Costumo alertar o cliente que a tatuagem é para sempre e o namoro não. A gente tem que agir como psicólogo. Em vez do nome ou a inicial do namorado, recomendo fazer um desenho, algo que remeta ao momento que a pessoa vive,” diz o tatuador Puff. Como qualquer profissional de sua área, além de criar desenhos e transferi-los para a pele, também trabalha cobrindo iniciais e nomes no corpo de pessoas arrependidas.

A escolha de frases amorosas para marcar o relacionamento também é comum e, com o fim do relacionamento, ficam sem sentido. “São casos que aparecem toda a semana”, diz ele, que tem no corpo um desenho tatuado referente a um relacionamento do passado. “Não me incomoda, apenas eu sei o que representa e remete a uma época importante que vivi.”

Felicidade

“Na hora de fazer a pessoa só pensa na felicidade daquele momento”, diz o tatuador Lagartixa. Foi o caso do estudante de administração V.B., 27 anos. Ele escreveu o nome da ex-mulher dentro de um desenho tatuado nas costas. Alguns meses depois, o relacionamento acabou. Com uma nova namorada, ele preferiu procurar o tatuador para cobrir o nome da ex-mulher. “É uma coisa que eu não voltaria a fazer em outro relacionamento. Fui muito impulsivo na época. Hoje pensaria mil vezes antes.”

Rubens Cardia
A mesma frase de amor, em latim, está tatuada no corpo do casal Isabela e Paulo
Casal manda tatuar uma frase de amor em latim

‘Amor para toda a vida’, em latim, foi a frase que o empresário Paulo de Tarso Ribeiro, 28 anos, pediu para que um padre escrevesse em um papel, há cerca de 3 anos, com a desculpa de que seria impressa num convite de casamento. O resultado, no entanto, pôde ser visto algumas horas depois no estúdio de um tatuador de Rio Preto. “Era Dia dos Namorados e enquanto ele foi buscar a frase, eu esperava no estúdio, onde já tinha hora marcada”, conta a mulher do empresário, a jornalista Izabela de Paula D´ Oliveira, 26.

Os dois fizeram a tatuagem nas costas como forma de compromisso. “A frase não significa que estamos presos. Sabemos que ela tem um sentido especial para nós e é isso que importa. Não penso em arrependimento”, explica ela. A dona-de-casa Júlia de Gouveia Azevedo, 35, é outra que quis marcar o relacionamento na pele. Ela é colecionadora de tatuagens e uma de suas 11 é o nome do marido, Devanir, escrito em seu pulso. “Fizemos juntos ele também tem o meu no mesmo lugar”, conta. Nas costas, ela carrega a frase “Só Deus pode me julgar”, tatuada, segundo a dona de casa, em um momento difícil, quando se separava do primeiro marido.

Cores

O dermatologista João Carlos Pereira afirma que as cores mais difíceis de ser eliminadas pelo aparelho de raio laser que utiliza em sua clínica são o amarelo, laranja e o vermelho. As tatuagens mais fáceis de ser removidas (azul marinho e preta) necessitam de cerca de cinco sessões, enquanto que as mais difíceis, mais de 10 sessões. Elas são feitas com intervalos de 30 a 45 dias.

O dermatologista Carlos Roberto Antonio explica que a luz do laser tem atração por pigmentos específicos, que, quando atingidos, são desintegrados. Antes de iniciar o procedimento, é aplicado creme anestésico. Para os muito sensíveis, é preciso anestesia local, feita pelo médico. Os pacientes em tratamento enfrentam desconforto causado pelo calor dos raios laser, que varia de acordo com a sensibilidade de cada um. No mesmo dia da sessão, o paciente pode voltar às atividades normais. Ele vai ter apenas uma ardência no local por algumas horas, minimizada por compressas geladas e analgésicos, segundo médicos.

Sérgio Menezes
Edson Alves, de Tanabi, é um outdoor vivo, com propagandas tatuadas no corpo
Homem se torna outdoor

Tudo começou como uma brincadeira na mesa de um bar, há quatro anos, quando Edson Aparecido Borin Alves, 34, popularmente conhecido como Baiano Facada, morador de Tanabi, recebeu a proposta de tatuar a propaganda de uma loja no corpo. Ele resolveu encarar a brincadeira na época e hoje é conhecido como homem-outdoor, somando 48 logomarcas em sua pele, de 40 clientes diferentes. Seu trabalho é circular sem camisa pelas ruas da cidade e em eventos. Em Tanabi, Baiano é conhecido em qualquer região que circula. Curiosidade mesmo é despertada quando aparece alguma visita de fora. “Se vem algum parente de outra cidade pede para tirar foto e tudo”, conta, orgulhoso.

Cada cliente paga uma taxa mensal para fazer propaganda em seu corpo, além de arcar com o custo da tatuagem. A sua renda mensal chega a aproximadamente R$ 2 mil. Ele diz que dá o preço conforme o porte da empresa. Sua primeira logomarca foi uma ótica. Agora, ele tem supermercado, loja de R$ 1,99 e até fábrica de tanque anunciando em sua pele. “No começo eu não fazia propaganda de dois clientes do mesmo ramo, mas agora comecei a aceitar”, conta.

O homem-outdoor também tem suas restrições. Não aceita propaganda política, embora afirme que já teve propostas de candidatos. “Não me interessei na época e nem quis saber quanto iam pagar”, recorda. Quem pensa que seu corpo é usado só para negócios se engana. Alves também é engajado e por vontade própria mandou escrever na pele a frase “Doe sangue, doe vida”. A logomarca mais nova que tatuou foi há três meses, de uma ótica do mesmo cliente.

Mesmo com a renda e o trabalho aparentemente fácil, Baiano diz que quer mesmo é um trabalho com carteira assinada. “É ruim ficar assim parado.” O homem-outdoor namora há três anos a mesma pessoa e diz que ela não se incomoda com sua opção de vida. O mesmo fala em relação aos familiares. “Já está todo mundo acostumado”, diz Baiano Facada, que ganhou o apelido após ter sobrevivido a uma facada que levou aos 16 anos, que perfurou seus dois pulmões. “Sobrevivi por um milagre.”

Thomaz Vita Neto
Tuatuador Lagartixa em plena produção com o equipamento de fazer tatuagens
Antes era marca; hoje todos têm

No passado a tatuagem era associada à marginalidade econômica e social (no corpo de marinheiros, prostitutas e criminosos), depois vinculada a gangues e a movimentos de contracultura (como o movimento hippie e mais tarde o movimento punk). Hoje ela possui público consumidor constituído fortemente pelas camadas médias da sociedade. A observação é da socióloga da Unesp Loriza Lacerda de Almeida.

“Atualmente há um forte parâmetro estético vinculado à prática da modificação corporal, especialmente a tatuagem”, diz ela. Segundo a socióloga, o argumento do uso estético da tatuagem se legitima pelo fato de que há tipos de tatuagem (pequenas, leves, lúdicas) e localizações no corpo que são socialmente aceitos e que fortalecem a idéia de uso de modificações para embelezamento e não para romper regras. “Muitas vezes a tatuagem é realizada de forma bem planejada, para demonstrar cuidado com sua aparência e individualização, ou seja, a busca de ser particular no universo, através de uma marca escolhida”, afirma.





Ferdinando Ramos
Hérick Mem perdeu a conta do número de tatuagens nos braços


O fotógrafo publicitário Hérick Mem, 28 anos. é um exemplo disso. Ele fez a primeira tatuagem aos 19 anos. Hoje, não consegue contar quantas são, pois fechou um dos braços com os desenhos. “Não me atrapalha na profissão e me sinto livre para tatuar, há bem menos preconceito do que antigamente”, diz.

Para a socióloga, a singularidade buscada por muitos acaba por criar uma enorme contradição neste tipo de comportamento. “Ocorre que muita gente buscou a diferenciação, de tal modo que se estabeleceu um modismo. O que era para ser muito diferente e pessoal, vem se transformando em uma marca que todos têm. O propósito da singularidade não mais se verifica. Todos ficaram iguais!”

 
     
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