Do outro lado
   
02 de fevereiro
2012
A ordem da vida
 
Depois de muita insistência, seu Tonico concordou em dar uma saidinha do quarto naquele domingo nublado e ir até a varanda. Tio Ed chegava pela primeira vez com o velho trator Cinquentinha vermelho todo reformado, novinho em folha. A lataria brilhava, um antigo desejo de seu Tonico enfim se concretizava.

O filho parou a máquina perto da porta da sala de jantar, onde o pai era surpreendido parado de ...pé, e a deixou ligada. O trator roncava alto e soltava fumaça preta, tudo muito familiar ao velho e cansado vô Ico. Era aquele trator que lhe servira anos como instrumento de trabalho, e que, antes de a doença o pegar de jeito, era usado para andar pelo sítio e percorrer alguns metros a rodovia que passa em frente à propriedade e chegar até o bar onde proseava com amigos.

Filhos e netos então começaram a se mobilizar para acomodar seu Tonico perto do antigo companheiro de lida. Ele, com a boina inseparável e apoiado em sua bengala, determinou que colocassem a cadeira bem de frente para o bicho, que roncava e esfumaçava sem parar. Nada disso o incomodava. Ao contrário, para ele, era puro prazer.

Já sentado, vô Ico fechava os olhos e mexia a cabeça devagar, num movimento que parecia acompanhar um balanço imaginário em cima do trator.
Agora era meu pai quem acelerava a imponente e estática máquina, num ritmo bem aquém do que o velho faria se estivesse no comando.

Insatisfeito, o pai toma a frente e sinaliza com a mão direita, dando uma ordem ao filho: “Mais alto!”. O ronco aumenta e a fumaça preta sobe mais densa, enquanto seu Tonico continua inebriado com seu passeio imaginário em cima do velho Cinquentinha.

Até parece curado de todos os males, e decide assumir a direção no lugar do filho mais velho. Não é por coisa pouca: ele precisa conferir se o serviço ficou bem feito. Com uma leveza surpreendente, sobe no trator. Dá ré, devagar. Assustados, todos agora pedem para que ele desça. O velho atende o pedido, mas, sem que alguém perceba, segura a chave do Cinquentinha consigo. Depois, baixinho, me avisa: “ela está guardada aqui no meu bolso”. (Foto de Otavio Valle)

 
 

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01 de fevereiro
2012
Imbá, "morrendo e ressucitando"
 
Precisou esperar a aposentadoria como bombeiro para poder estudar piano. Ao lado de mocinhas delicadas, o homem de mãos rudes foi persistente e aprendeu já adulto a tocar o instrumento que o seduzira ainda na infância.

Ano passado, o incansável que também cultiva o gosto pelas letras (sim, até hoje faz poemas para a amada) deu um susto na família. Ficou meses imobilizado numa cama por causa de uma doença da qual agora não se lembra o nome, mas isso não importa.

Surpreendeu médicos, filhos e a mulher: aos poucos, voltou a se locomover e a dedilhar o velho piano que fica na sala da aconchegante casa num bairro antigo de Rio Preto. Semana passada, até tocou para a equipe de um jornal que o entrevistou.
No final, ao lado da companheira, Évora, tomou suco de manga maçã, fruto colhido do quintal de sua casa, que ele mesmo plantou.

“Fui indo, aos trancos e barrancos, morrendo e ressuscitando várias vezes, mas nunca abandonei meu ideal.” A frase repetiu seguidas vezes. Numa delas, fechou os olhos, juntou as mãos ao rosto marcado pelo tempo, baixou a cabeça. Esse é o velho Imbá, 74 anos, preciosidade de Rio Preto. (Foto de Sérgio Isso)

 
 

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23 de janeiro
2012
Uma voz do Pinheirinho
 
Não dá pra ficar alheio diante das imagens da desocupação violenta da tropa de choque da PM no Pinheirinho, em São José dos Campos.

Relato de moradores dão conta de que haveriam sete mortos. Um pai de família teria levado um tiro pelas costas e ficado paraplégico.

Hoje de manhã consegui o celular de um habitante da comunidade, que narrou um pouco dos momentos de desespero que acompanham esses homens, mulheres e crianças desde ontem.

Ele falou de um abrigo da prefeitura, onde todos aguardam a negociação para a retirada do que lhes restou do local. É pedreiro, tem seis filhos, e diz que nunca imaginou que um dia fosse presenciar tamanho desprezo à vida humana.

Revoltado com tudo o que viu, ele prometeu não se calar diante do tratamento brutal que a comunidade vem recebendo desde ontem quando a desocupação teve início. "Precisamos divulgar isso pra todo o mundo."

Surpresa
"Fomos pegos totalmente de surpresa. Acordamos com o choque chegando, lançando bombas de efeito moral, gás de pimenta. Ninguém reagiu. A gente sabe o relato de sete óbitos, fora os feridos. Um amigo estava com uma criança no colo e levou um tiro pelas costas. Pai de família, vai ficar paraplégico. É uma injustiça, falta de respeito, desprezo com a vida humana."

Confusão
"Inicialmente as famílias foram levadas para um centro poliesportivo da prefeitura. Lá estavam separando mães e filhos, mulheres de maridos. Aí fomos para o pátio de uma igreja."

Bairro sitiado
"Nós não temos mais o bairro do Pinheirinho. Está sitiado, fechado nos quatro cantos. A única vida que tem lá dentro são nossos animais de estimação que tivemos de deixar para trás e os policiais. A gente não pode chegar perto do Pinheiro, que estamos sendo recebidos a bala. Está um tumulto violento. O que nós queremos é tirar nossas coisas de lá."

Noite
"A noite foi tensa. Ninguém dormiu, só uns cochilos. Aqui virou um Afeganistão. O cidadão brasileiro está tendo os seus direitos constitucionais respeitados."

Confusão
"O momento é de desespero. Nós tínhamos dúvidas se íamos ficar ou não, tínhamos uma esperança e eles mataram nossa esperança.
O pouco que nos restou estão barrando de deixar retirar. Está uma confusão generalizada."

Ditador
"O prefeito é um ditador, um carrasco. Se fosse um homem que teria o mínimo de consciência com seus eleitores ele não teria feito o que ele fez."

 
 

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06 de janeiro
2012
Jornalista-empreendedora
 
Já comentei aqui em outra ocasião a história da minha corajosa amiga Marisa, jornalista que a certa altura da vida deixou a carreira de lado para tocar um restaurante com o marido em Porto Seguro (BA).

Pois, mais uma vez, Marisa merece ser tema de um post. Ela me surpreendeu mais uma vez. Depois de saber que a distância que a fazia morrer de saudades dos filhos que ficaram em Sorocaba a trouxe de volta, acabo de descobrir que ela retomou a profissão.

A mulher de espírito empreendedor que aprendi a admirar numa redação de jornal diário agora coordena um site de notícias, mas garante que ainda planeja no futuro montar seu restaurante.

Essa é a Marisa Batalim, duplamente corajosa, que não deixa a peteca cair e me serve de inspiração.

Bem vinda, Marisa, novamente ao time dos que sonham em largar essa profissão muitas vezes insana e um dia poder ter seu próprio negócio!


 
 

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24 de novembro
2011
A vida na viela
 
Essa matéria saiu hoje no Diário. Como a gente tinha muitas fotos, optamos por cortar o texto. Vou publicar aqui o original, com alguns detalhes da "Vida na Vila" não publicados no papel. A foto é do repórter fotográfico Hamilton Pavan.
Bom dia a todos!


Graziela Delalibera

Cultivar uma mini-horta na própria calçada, e sentar numa cadeira posicionada no meio da rua, bem em frente de casa, todos os fins de tarde. A cena de calmaria descrita parece acontecer apenas na zona rural, mas ela está presente em um dos bairros mais tradicionais de Rito Preto, a Vila Maceno, perto da área central.

É na “Vila Bona-Parte Pedro José de Carvalho”, uma viela sem saída localizada na rua General Glicério, a duas quadras da movimentada avenida Philadelpho Gouvêa Neto, que o casal Antônio Rafael Gonçalves, 55, aposentado, e a dona de casa Sônia, 48, (foto) desfrutam da tranquilidade de morar em uma endereço que passa quase despercebido.

“Cultivo cebolinha, salsinha, pimenta; ninguém mexe, aqui é um sossego”, diz Sônia. A pequena vila possui dez casas, e em sua entrada preserva um portal que leva o nome de seu construtor. “O único inconveniente é a falta de garagem. A gente acorda cedinho e coloca o carro lá fora, depois no fim da tarde trazemos de volta.”

A aposentada Ruth Pinho Fiorezi, 69, mora há sete anos na Travessa Santa Maria, na Vila Aurora, uma ruazinha de paralelepípedos que transporta quem transita por lá para fora do grande centro que se tornou Rio Preto. Ruth colhe mangas do pé que plantou na calçada logo que se mudou, e deixa o saco com as frutas pendurado no portão do vizinho, para que ele as guarde quando chegar.

“Não tem barulho, não passa carros, é muito tranquilo e a vizinhança vive em harmonia.” No jardim que preserva com zelo em frente à sua casa, a aposentada exibe um grande pé de canela, além de flores e plantas variadas. "Amo plantas e aqui achei o meu canto. Adoro viver aqui."

O autônomo Jonas Corrêa de Toledo júnior, 50, e a bancária aposentada Áurea Célia, 54, assistiram as duas filhas, Ludmila, 21, e Jaqueline, 22, crescerem naquela travessa. A boa localização junto com a tranquilidade fez com que o casal permanecesse no lugar. “Gostamos muito e nos sentimos bem nessa casa. Nunca tivemos problema com segurança, apesar de a cidade ter crescido bastante nesses anos”, diz ela.

Foi por causa do bairro onde está inserida que a família da dona de casa Sulei Aparecida Cruz de Oliveira, 42, escolheu a travessa Particular, na Vila Imperial, para morar. Ela confessa que, de vez em quando, até esquece que está perto de uma das avenidas mais movimentadas de Rio Preto, a Bady Bassitt. A travessa fica entre a avenida e a rua Imperial. A família veio de Guaraci quando sua filha Carla, 23, começou a cursar faculdade em Rio Preto, há quatro anos. “Escolhemos por ser perto do trabalho da minha filha e do colégio do meu menino. Como não passa carro, às vezes a gente coloca cadeiras na rua no fim da tarde. Até parece que ainda estou em Guaraci.”


A travessa Avelina Diniz

A um quarteirão da agitada avenida Alberto Andaló, além da calmaria, a travessa Avelina Diniz, sem saída e que nasce na rua Tiradentes, conserva quatro dos seis sobrados erguidos pelo construtor Luiz Tonello no final dos anos 1940. Um pedacinho do passado encravado na área central, que encanta moradores e pedestres.

Os carros que circulam por lá são em sua maioria de moradores, como a auxiliar de lactário Edicéia Marques da Silva, 52. Ela alugou há quatro anos um dos sobrados, onde vive com o marido e uma sobrinha. Além da boa localização e do sossego do endereço, ela gosta do espaço que usufrui dentro da casa. “É bom morar em casa antiga. Tem três quartos grandes em cima, e embaixo também tem bastante espaço.”

A cuidadora Maria Conceição Ramos Belmonte, 46, vizinha de Edicéia, compartilha da opinião. “É como se estivesse num bairro distante do centro, longe do agito, mas estou perto de tudo.”

O aposentado Luiz Gustavo Colturato, 62, neto do construtor Tonello, morou em um dos sobrados dos 16 aos 24 anos. Ele fala que só traz boas recordações do local. “Mudei com meus pais e saí de lá quando me casei”, diz ele, que hoje mora no Jardim Alto Rio Preto. Sua mãe, Celina, 86, ainda vive na travessa. “É um local muito bom de se morar, a localização é ótima e conservamos as casas com características originais”, diz ele.

Travessa Domingos Grisi, quase decadência

Também na região central, a travessa Domingos Grisi, entre as ruas Saldanha Marinho e Rubião Júnior, comporta residências e comércios, e perdeu um pouco do charme característico das vielas, apesar de um de seus imóveis chamar a atenção com floreiras nos janelões.

A cabeleireira Clara Maria Frezarin Plazza, 52, mudou para a travessa há quatro meses, onde mora com o filho e tem seu salão de beleza e estética. “Vim para cá porque precisava adequar o salão com acessibilidade e no antigo não tinha como. Estou há apenas quatro meses.” A travessa também tem pastelaria e escola.

Delcimar Teodózio, coordenadora do curso arquitetura e urbanismo da Unirp, pressupõe que as construções das travessas eram habitadas inicialmente pela comunidade de baixa renda, pois tratavam-se de lotes menores, próximos a baixadas, que surgiram antes das grandes avenidas, e mais distantes de endereços que comportavam os melhores imóveis, como a rua Bernardino de Campos, no centro.

Para a arquiteta Poliana Risso, as vielas estão ameaçadas e necessitam de revitalização, antes de caírem no abandono. “Apesar de serem bem localizadas, as casas têm valor bem mais baixo por estarem em terrenos pequenos e sem garagem. O ideal seria que essas vielas fossem transformadas numa espécie de pequenos boulevares, mais valorizados, com cafés e mesas na calçada, já que não há fluxo de carros.”


 
 

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Um blog sobre histórias que a gente pode encontrar por aí. Sou Graziela Delalibera, uma jornalista que anda muito a pé e de busão.

graziela.delalibera@diarioweb.com.br

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