Diário da Região

29/03/2015 - 00h25min

O poeta é um ladrão generoso

Fabrício Carpinejar fala de relacionamento, poesia e amor

O poeta é um ladrão generoso

Lézio Júnior Escritor Fabrício Carpinejar
Escritor Fabrício Carpinejar

A infância solitária, recheada de bullying, não fez de Fabrício Carpinejar, 42 anos, um adulto resignado. Sua vida mudou, para muito melhor, quando passou a enxergar o mundo com humor e descobriu que não necessitava da aprovação de ninguém para levar adiante suas ideias, jeito de viver e escolhas pessoais.

Dono das próprias vontades, encontrou seu lugar no mundo e a voz para transformar em literatura de qualidade o turbilhão de pensamentos que toma conta de sua mente. Assim nasceu Fabrício, o cidadão comum. Assim surgiu Carpinejar, poeta, jornalista e cronista.

Seu processo de construção contou com componente especial: a escrita, que se mostrou reveladora. "Escrever é minha dança, escrever é meu teatro, escrever é meu cinema, escrever é esse espetáculo de distrações. Escrever me torna intenso. Permite redescobrir a mim mesmo nas demais pessoas."

A paixão com que produz seus textos amealhou milhares de fãs pelo Brasil. Fabrício, filho dos escritores Maria Carpi e Carlos Nejar, já entregou para os leitores mais de 20 livros de poesia e crônica. Nesta entrevista, conversa sobre literatura, vida, amizade, amor, relacionamento e muito mais.
 

Diário da Região - A poesia está presente nas coisas reais do dia a dia ou na forma como cada um vê o mundo?

Fabrício Carpinejar - Não há como entender a realidade sem emoção. Particularizamos o mundo quando nos sentimos parte dele. A poesia é do contra: sofre na felicidade e alegra-se na dor.
 
Diário - Em um mundo tão confuso, até duro, como enxergar o lado bom das coisas?

Carpinejar - Sou um otimista, porque esperança para mim já é amor. Espero o melhor mesmo quando estou na pior. O pessimista gosta de acertar a previsão de seus fracassos, eu já improviso. Os problemas são desafios.
 
Diário - O mais lhe interessa: pedras ou as flores?

Carpinejar - As pedras são flores que nunca morrem.
 
Diário - E como o amor se sustenta em tempos de cólera e de rede social?

Carpinejar - A cólera não dura nem 24 horas. O amor estará no mesmo lugar sempre.
 
Diário - Seus textos são recheados de teorias sobre relacionamentos. Quando surgiu a necessidade de tocar no tema?

Carpinejar - Das minhas próprias enrascadas amorosas. Precisava entender o quanto a idealização custava muitas vidas. Precisava partilhar as histórias para que ninguém se enxergasse tão sozinho no sofrimento como eu já fui um dia.
 
Diário - Mulher gosta mais do tipo canalha ou cafajeste?

Carpinejar - Canalha. Porque não mente, diz que não presta desde o princípio e é exaltado pela sinceridade corajosa. Já o cafajeste faz propaganda enganosa, mente para conseguir o que deseja e depois some. O canalha faz com que a mulher se veja bonita, o cafajeste só está preocupado com o autoelogio.
 
Diário - E o homem, gosta do quê?

Carpinejar - Safada só para ele. Uma mulher que é voraz e visceral na intimidade, mas que não banalize o sexo nem seja indiscreta ou vulgar socialmente.
 
Diário - O que mata o homem: indiferença ou saudade?

Carpinejar - A indiferença. A saudade é uma conversa a distância. Uma conversa telepata. A indiferença é a morte do ouvido.
 
Diário - E a mulher?

Carpinejar - O desprezo. Fingir que nunca a conheceu, que é pior do que romper laços.
 
Diário - Ciúme é bom?

Carpinejar - O ciúme é importante, se pontual. Não pode permitir que se torne ressentimento e desconfiança. Aí atrapalha. Ciúme guardado é investigação. Se posto para fora, é charme, preocupação e cuidado.
 
Diário - Conheço gente que cobra, de vez quando, uma ceninha de ciúme. É uma forma de se importar?

Carpinejar - Se tem ciúme, é porque gosta e está preocupado. A outra pessoa se sente amada no começo. E depois, no decorrer da convivência, sente-se desamada pelo ciúme. O excesso atrapalha. Indiferença e desapego são sinais de desgaste.
 
Diário - Como se relaciona com o tempo?

Carpinejar - Você nunca nota que está envelhecendo por si. Porque guarda uma imagem, aquela voz introjetada e certa impressão de vitalidade. É como jogador de futebol. Tem o mesmo raciocínio de campo, mas não tem a mesma execução. A cabeça mente que você tem outro corpo e fôlego. Sempre joguei. Sou peladeiro.
 
Diário - De que forma o tempo se revela para você?

Carpinejar - Eu noto o envelhecimento a partir dos meus filhos. Eles crescendo é que vão informar, denunciar, que eu estou envelhecendo. O fato de eu ter uma filha de 21 anos e um filho de 13 anos já me põe na balança. A gente nunca vê que envelhece pelo espelho, mas pela janela dos filhos.
 
Diário - E a solidão?

Carpinejar - Está enraizada em mim. Eu fui uma criança que sofreu bastante bullying. Fui excluído e ficava de lado. Assim, eu me abasteci de solidão na infância. Não preciso fazer o ritual da solidão para estar só. Posso me encontrar em pleno movimento, no tumulto, na multidão, e me sentir sozinho. Tenho capacidade de concentração grande. A solidão é meu silêncio interior.
 
Diário - Quando se libertou dessas amarras?

Carpinejar - Eu me sentia deslocado na infância. Queria convencer os outros de que eu era diferente. No momento em que tive autocrítica e humor, eu me libertei. No sentido de que não tinha nada a perder. Se alguém quisesse fazer uma piada sobre mim, eu fazia antes. Então, acabava a graça. Deixei de levar a vida a sério, ou seja, sofrer com que os outros pensam a meu respeito.
 
Diário - Isso é coragem?

Carpinejar - Covardia é deixar os outros decidirem nossa vida. Coragem é assumir a própria vida, por menor que seja.
 
Diário - E agora, como é?

Carpinejar - Como fiquei muito tempo sozinho na infância, estou tentando descontar na maturidade. Sou eufórico e hiperativo. Uso qualquer pretexto para churrasco, reunir amigos, conversar e fofocar.
 
Diário - Escrever deve ter ajudado a superar as ranhuras que surgiram no caminho?

Carpinejar - Eu amo escrever. Escrever é minha dança, escrever é meu teatro, escrever é meu cinema, escrever é esse espetáculo de distrações. Eu não fico sofrendo para escrever. Escrever me torna intenso. Permite redescobrir a mim mesmo nas demais pessoas.
 
Diário - Seus textos surgem e são publicados na internet ou são mostrados após intenso processo de criação?

Carpinejar - Sei trabalhar o texto mentalmente. Tenho essa facilidade de memorizar e escrever em pensamento. Vou publicar na internet da mesma forma que no jornal ou livro. Vou tentar colocar o meu melhor. A imperfeição ilumina. Isso é importante.
 
Diário - Borges dizia que publicava para se livrar do livro. Do contrário, iria reescrevê-lo. A reiterada edição retira a emoção do texto?

Carpinejar - Demorei muito tempo para ser rápido. Há uma paciência interior que me calça. A gente pensa que a pessoa é leviana por publicar ou se expor com mais frequência ou rapidez. Não. Talvez ela seja leve. Gosto de uma frase do poeta Paul Valery: "A gente tem de ser leve como um pássaro, não como uma pluma. A pluma voa mais lenta que um pássaro."
 
Diário - Como reage diante dos percalços?

Carpinejar - Às vezes, sofro. Se tenho alguma dor, isso fortalece o meu voo. É uma forma bem-humorada de lidar com o sofrimento. A gente não tem como diminuir a gravidade dos acontecimentos ou mandar na vida. Não temos essa onipotência. Mas temos como mudar a nossa reação diante dos acontecimentos.
 
Diário - Isso seria o sentido da vida?

Carpinejar - O sentido da vida é desaprender (risos). Não ficar viciado nas suas dores, angústias e falhas. É saber que aquilo aconteceu e seguir adiante. A gente chora para atrair as pessoas e os olhares. Rir não chama ninguém para perto.
 
Diário - Como no verso de Manoel de Barros: "Desaprender oito horas por dia ensina os princípios"?

Carpinejar - A gente tem de desaprender para recuperar o brilho no olhar e o ineditismo das coisas e das experiências. Eu sou adepto disso. Sempre deixo dinheiro guardado no bolso dos ternos. A alegria de reencontrar esse dinheiro. Meu Deus! É um investimento guardar dinheiro no bolsos. Temos de fazer experiências assim. Iria resolver tudo. A gente pensa que felicidade é ter certeza. Felicidade é viver e saber improvisar. Não entrar em pânico. O problema é que a gente quer mandar na vida.
 
Diário - Tem outras manias?

Carpinejar - Dobrar roupa, adoro. Não posso ver uma roupa desamparada, que vou lá e arrumo. Faço blitz telefônica com meus amigos. Sou fofoqueiro. Não posso ficar com uma novidade só para mim. No final do dia, a novidade está velha, de tanto que eu contei. Tenho mania de sublinhar livros e guardar fotos antigas dentro dos livros.
 
Diário - E com a família?

Carpinejar - Tenho mania de incomodar meus filhos. Todo pai é um chato. Pai não é amigo. Pai precisa encampar a vida adulta, de responsabilidade e limite. O bom pai é o que sabe que é chato. Não vai ficar rodeando, com o coração na mão.
 
Diário - Parece que não necessita grandes acontecimentos para se sentir feliz...

Carpinejar - Eu sou feliz do meu jeito. Não preciso de fatos importantes, como viagem ou realização de sonho. Me dá um pão com queijo de colônia e salame, que fico superfeliz. Fico feliz ao ir a um jogo do meu time. Ler um bom livro me deixa feliz. Ir ao cinema. A felicidade está nos pequenos gestos.
 
Diário - É filho de poetas. Pensou em outra coisa ou foi natural seguir esse caminho?

Carpinejar - Escrever é uma vingança. É a capacidade de se expressar, encontrar a palavra certa, descrever aquilo que está próximo do silêncio, do invisível. É antecipar pensamentos.
 
Diário - É o papel do poeta?

Carpinejar - O poeta é um ladrão generoso. Rouba dos outros para devolver. É uma repescagem do olhar. Algo que você não notou e não valoriza em ti, o poeta vai lá e mostra. Veja como é estranha a vida. Costuma gostar de coisas mais em ti, depois que vê nos outros. Como a gente tem dificuldade de apreciar nossos defeitos, que é o que nos diferencia dos demais.
 
Diário - Tem novidade?

Carpinejar - Vou publicar em 2015 o livro 'Para Onde Vai o Amor?', de crônicas, pela editora Bertrand Brasil. Você teve intimidade com uma pessoa durante anos. Para onde vai esse sentimento na hora que termina a relação? Como desaparece? Você sabe tudo sobre ela. Mas não tem serventia nenhuma. E não dá para apagar. Em que lugar da memória a gente coloca isso? Como a gente desabilita a intimidade? Ama loucamente e um dia isso não serve para nada. Como o amor termina?
 
Diário - Chegou a uma conclusão?

Carpinejar - Meu papel não é concluir. É fazer a pergunta certa. Não sou um autor que fala pelos outros, eu vou falar com os outros.

 

 


 

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