Diário da Região

23/03/2017 - 19h54min

Entrevista

Faça o seu melhor a cada instante

Entrevista

Divulgação Monja Coen Sensei é missionária da tradição Soto Shu, com sede no Japão
Monja Coen Sensei é missionária da tradição Soto Shu, com sede no Japão

Se perguntarmos para diferentes pessoas qual é a melhor forma de vivermos a nossa vida, certamente as respostas serão as mais diversas e complexas. No entanto, para Coen Sensei, monja zen budista brasileira e missionária oficial da tradição Soto Shu, com sede no Japão, a resposta é simples: fazendo o seu melhor a cada instante, não mais tarde ou amanhã, mas neste momento, e vivendo com plenitude. "A nossa vida é breve e passageira. A única coisa garantida para todos nós é que vamos morrer. Então, nesse intervalo entre o nascer e o morrer, por que não apreciarmos cada minuto? 

Por que não criarmos causas e condições benéficas para nós, para as pessoas à nossa volta e para tudo o que existe?", questiona. Essa é uma maneira de viver com dignidade, com respeito e com gratidão. E tem mais. Segundo ela, a melhor forma de viver ainda é ter uma vida digna. Isso significa ser digno com você e com seus princípios éticos, não pensando em receber alguma coisa de volta. "Você deve fazer o bem sem o propósito de medalha ou se alguém vai agradecer, mas porque é o correto, o adequado", diz.

Monja Coen também é fundadora da Comunidade Zen Budista em São Paulo e hoje é bastante conhecida por fazer palestras, participar de reuniões e diálogos interreligiosos e promover a Caminhada Zen em parques públicos, projeto com objetivos ambientais e de paz. Tem seguidores por todo o País e até mesmo na Suíça. Autora de dois livros - Viva Zen e Sempre Zen -, ela é certamente a mais famosa praticante e líder budista do Brasil. Sobre esse e outros assuntos, ela falou com exclusividade para a Revista Bem-Estar. 

Fazer o melhor a cada instante é a condição para que nossas orações sejam atendidas?

Coen Sensei - Para que nossas orações sejam atendidas, nós temos de ser a oração. Temos de nos transformar nesse objeto que transforma a realidade. Não posso só pedir perdão, eu tenho de me transformar, tenho de fazer metanoia: eu me arrependo e me transformo. Se o que eu fiz, o que eu pensei e o que eu falei não foram benéficos, eu tenho de me transformar. A oração não pode ser apenas um balbuciar sem o comprometimento de viver a vida, mas uma oração viva.

Você tem de ser essa mão sagrada; o que você está fazendo com essa mão sagrada em relação à sacralidade da vida. Não espere que os outros façam, faça você, seja o exemplo, não julgue os outros, não condene, não aponte tanto os erros alheios. Seja um modelo para o mundo ao invés de querer que os outros sejam. Aí você encontrará uma vida plena e satisfatória porque você sabe que está fazendo o seu melhor com as condições que tem agora para que as condições melhorem cada vez mais.

O que é felicidade para você?

Coen Sensei - A felicidade é um sentimento de bem-estar e de completude. Se procurarmos a origem da palavra, ela tem a mesma de fértil e de frutífero. O que nos faz sentir bem é quando nossas ideias são aprovadas, quando somos incluídos. Esse sentido de fertilidade, aquilo que vai dar frutos, que nos inclui, é aquilo que nos faz bem. Não é um estado permanente, é claro. No budismo, falamos em nirvana, que é um estado de bem-estar e tranquilidade que pode permear até mesmo as nossas infelicidades, os nossos sofrimentos e as nossas dores porque sabemos que não há nada fixo nem permanente.

E por que as pessoas têm tanta dificuldade em aceitar que nada é permanente?

Coen Sensei - As pessoas têm medo. Elas criam os castelinhos de areia e querem segurá-lo, mas o mar vem, destrói e leva. A nossa vida é um processo incessante de transformação, não há nada fixo nem permanente. Esse é o ensinamento de Buda. A pessoa pode estar trabalhando em uma empresa e ficar folgada, achando que vai ser para sempre, e, de repente, acontece algum movimento, a empresa fecha e ela perde o emprego, por exemplo.

Então, em vez de ficar triste, tem de dizer: 'Olha, essa porta fechou, mas outra se abrirá e vou procurar essa porta'. Isso ao invés de ficar só se lamentando por alguma coisa que possa ter terminado ou não ter sido como você gostaria. Nós nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos assim como todas as plantas e todos os bichos. Como a pureza e impureza das águas do mar e da terra, tudo está tudo em transformação incessante.

Nós podemos definir para qual direção nós queremos ir, o que queremos estimular. Podemos usar a energia nuclear, por exemplo, para destruição ou para a cura. Temos de desenvolver uma cultura de paz, a capacidade de viver em harmonia, aquilo pelo qual a gente possa viver para transformar. Não há nada pelo qual a gente possa matar ou morrer.

Em qual momento as pessoas se tornaram tão individualistas e passaram a se preocupar tanto com o lado material?

Coen Sensei - Não sei em qual momento exato se deu isso, mas, se olharmos a história da humanidade, desde o princípio, vemos coisas semelhantes. Na Bíblia, vemos Caim e Abel, familiares se matando por poder e posições. Então, parece que isso vem conosco no momento em que desconhecemos que somos o outro, que somos todos um só corpo e uma só vida, um pensamento que Freud iria chamar de ego, o eu. Nos primeiros anos de vida, não temos noção de 'eu' separado de pai e de mãe.

O erro que acontece é achar que somos separados e quais vantagens vamos ter, o que será melhor para mim, como se eu pudesse pegar uma tesoura e me recortar da realidade - o que é impossível, eu sou essa realidade. Eu tenho contato direto com tudo: com a chuva, com o vento, com o ser humano, tanto aquele que gosta de mim quanto aquele que não gosta, aquele que me entende ou não me entende, e a gente acaba substituindo coisas materiais para ter essa coisa de felicidade no sentido de inclusão. É como se eu não tiver aquele tênis, aquele menino não vai conversar comigo, se eu não tiver um óculos daquela marca, aquela mulher do amigo do meu marido não vai me respeitar.

Então, acabamos substituindo o respeito pela dignidade, pela personalidade, pelas suas ações no mundo, pelas coisas materiais que representam status sociais. Esta é a baguncinha que nós fizemos.. Existem joias verdadeiras que são relacionamentos humanos, os filhos, as pessoas que a gente quer bem, o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, mais igualitária, isso é muito mais importante. O ser humano tem três venenos perigosos: a ganância, a raiva e a ignorância.

O ganancioso, por mais que tenha, quer mais, tem uma carência de quanto mais tem, mais precisa. Isso acontece porque tem insuficiência em si mesmo, não conhece o contentamento e a suficiência, está sempre faltando alguma coisa, tem medo de perder posição, de perder status, que ser incluído e acolhido por um determinado grupo de pessoas em que as joias são mais importantes do que o caráter. Embora nem todos sejam assim.

E para onde esse caminho irá levar?

Coen Sensei - Esses estão criando causas e condições que irão voltar para eles por uma vida, por um comportamento, gestos e atitudes. Se você criou uma coisa maléfica que prejudicou alguém, isso vai voltar para você; se você criou o benéfico, que beneficiou um maior número de seres, isso também vai voltar para você, sejam algumas coisas boas e outras não tão boas. A lei do dharma é inexorável e impessoal: as causas e condições que nós produzimos vão dar resultados que vão voltar ou contra ou a favor de nós. Quando você faz o bem para outros seres, está fazendo o bem também para você. Agora, se você pensa só em você, quer levar vantagem, você irá perder porque você não está separado. É o que está acontecendo com algumas pessoas.

Mas nem todas pessoas têm essa consciência ainda. Existe algum caminho para que as pessoas possam silenciar a mente e passar a se preocupar com o que realmente vale a pena nessa vida?

Coen Sensei - O que eu tenho como instrumento e como prática eu chamo de zazen, o sentar zen, sentar em meditação. No início das práticas meditativas, vamos observar o movimento da mente. É como ir à praia e observar as marolas na beira da praia. Mas a mente humana é bem mais do que os pensamentos e os não-pensamentos. Não é preferir o silêncio ao som, mas observar que temos em nós tanto a mente movimentada e cheia de pensamentos, memórias, sentimentos, ansiedade e arrependimentos como temos o silêncio, a quietude, o encontro com o sagrado. Nós só encontramos esse sagrado quando nos permitimos, nos entregar, se vamos atrás, ele foge. 

Temos de nos sentar e respirar conscientemente, endireitar a coluna vertebral, a cervical, deixar o queixo paralelo ao chão, deixar os olhos entreabertos, pousados à sua frente e respirar conscientemente. Faça da respiração consciente o seu foco de atenção porque virão pensamentos, memórias e emoções. Continue apenas sentado respirando para acessar a essência de ser. Mas não é fácil. Não é no primeiro dia que acontece. É preciso passar vários obstáculos e cada um de nós tem seus obstáculos. Mas como se desenvolve a resiliência? É não desistir nem de você, nem da sua capacidade humana de acessar a sabedoria perfeita porque nós temos essa capacidade. 

Se tivesse que deixar um conselho para as pessoas que procuram essas respostas, o que diria?

Coen Sensei - Aprecie a sua vida. Onde quer que você esteja é o lugar que você desabrochará. Faça o seu melhor a cada momento. Pense o bem, queira o bem e acredite que essa transformação já está acontecendo no seu coração, na sua vida e logo, na vida de todos os seres.

 

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