Diário da Região

09/07/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

A vingança do Borá, do Canela e do Cheiroso

Painel de Ideias

NULL NULL
NULL

O nome era Evaristo, mas mesmo dona Aparecida, a mãe, e seu Gino, o pai, só se lembravam disso em época de procurar o registro de nascimento do menino para renovar a matrícula no grupo escolar ou para atualizar a carteira de vacinação no dispensário. Fora essas ocasiões, Evaristo era o “Cheiroso”, apelido que ganhou junto com o hábito de não sair de casa sem tomar banho de água de colônia.

Aos nove ou 10 anos, Cheiroso era o mais inteligente dos meninos do ônibus escolar que o encontrava todas as manhãs esperando nos bancos de madeira do abrigo que o dono da fazenda mandou construir sob a paineira frondosa que se vestia de lilás nos finais de verão de chuva abundante. E que o levava, aos sacolejos, pela estrada empoeirada até a escola, em Schmitt.

Toda vez que a velha jardineira passava ao lado do tímido filete de água que serpenteava o caminho pedregoso desde Cedral, Cheiroso ensinava a quem estivesse com ele: - É a nascente do rio Preto! - e havia em sua voz o brilho indisfarçável de quem se orgulha de ser conterrâneo do rio. Os dois nasceram em Cedral.

Nunca soube responder à indagação que lhe fizera havia algum tempo um colega interessado em saber o que aconteceria se alguém tapasse a nascente com o dedo: “será que o rio seca?”. Tanta coisa tinha perguntado sobre o rio, mas nunca lhe ocorrera perguntar uma coisa dessas.

Sabia muitas coisas, uma delas que o rio Preto apenas passa pela cidade à qual dá o nome antes de deslizar pelos quase 150 quilômetros que o levam à foz. Achava isso uma injustiça: o rio batiza a cidade e justamente ela é o seu algoz, capaz de sujar sua água, matar seus peixes, destruir sua vegetação, roubar-lhe a vida.

Pior do que isso. É o rio que mata a sede e garante o banho e a saúde dos moradores, como comprovou no dia da excursão da escola à represa e ao Palácio das Águas, o lugar onde as sereias de pedra com tetas de fora disputavam a atenção dos visitantes com os bolhões de água que rebentavam em salas envidraçadas. O rio mata a sede da cidade e, depois, a cidade mata o rio, inconformava-se sempre que pensava no assunto.

Conformou-se um pouco quando soube que, bem mais para baixo, lá longe, o rio renasce, fica largo e cristalino, vibrante em suas corredeiras que parecem fervura de sonrizal, a espuma límpida e branca preparando o mergulho no Turvo. Deixa para trás as cicatrizes que lhe infligem seus dois afluentes mais sujos - o Borá e o Canela, que hoje jazem sob a canalização das avenidas Bady Bassitt e Alberto Andaló. Suas margens, ouvira dizer, eram povoadas de jacarés e sucuris, tal a vitalidade de que se cercavam bem lá no passado, no tempo de seu avô, talvez no tempo do bisavô, muito antes de as pessoas os transformarem em esgotos a céu aberto.

Foi daí para cá, concluiu, que começou o problema das enchentes, o Borá e o Canela despejando no rio Preto toda a água da cidade impermeável, provocando transbordamentos, enxurradas, alagamentos, prejuízos... Até mortes, como andou ocorrendo há menos tempo.

Só pode ser uma vingança, raciocina. O rio Preto, o Borá e Canela estavam se vingando do jeito eram tratados. - Bem feito! Quem mandou chamar de rio bosteiro?

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha?
Não lembro a minha senha!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso