Diário da Região

15/06/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

Terra em transe

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Terra em transe. Não, não desejo falar da atual conjuntura institucional brasileira, mas dum filme que enfoca uma república germinada nos trópicos por nome El Dorado, há exatamente meio século. É em tal cenário que reside Terra em Transe (1967), a extraordinária obra de Glauber Rocha, atemporal enquanto mergulho no transe enfermiço da alma relacionado ao poder, e pressagiadora da nefasta pinguela em que passamos.

Há 400 anos, em Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617), Cervantes ensinava que “o ano abundante em poesia costuma ser também de fome”. Refere-se ao estado de crise generalizada pelo desprezo da ética e moral pública como combustível da exuberância e resistência pela arte. Em 1967, a música popular desfolhava sua força criativa no 3º Festival da Record. Edu Lobo reverenciava a cultura nacional num “Ponteio” de viola; Gilberto Gil revelava, em flashes visuais, a tragédia romanesca dum “Domingo no Parque”; Chico Buarque falava duma moenda cíclica a disseminar o medo, em “Roda Viva”. E Caetano Veloso confrontava a Ditadura Militar e conclamava com ironia a “Alegria, Alegria”. Em 67 nascia a Tropicália e, no teatro, José Celso Martinez Correa encenava “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, inédita desde 1933. Enunciavam-se elos entre o ideal modernista e o moderno resplendente em nossa arte.

É nesse clima de apogeu inventivo que Glauber escrevia com luzes e trevas audiovisuais e produzia zonas cinzentas de alucinações no transe dum país. Convulsivo, como metáfora de seu tempo, o filme costura o enlace entre a expressão sintética da poesia, na boca de criaturas políticas opressoras e orgíacas, e a forma analítica do cinema. O resultado são 115 minutos cinematográficos cheios de pontas soltas como operação consciente de concepção estética. Polêmico, imprevisível e perturbador, mais sugestivo que informativo, como num quadro umedecido com tintas barrocas, Terra em Transe é apontado como uma das mais instigantes obras do cinema. Juntamente com Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), é libertário, inovador.

Em El Dorado, a ânsia pelo poder transcende as disputas do poder, pois, no fundo, há uma só corja a dominar “o sacerdócio da vida pública”. Tudo se passa num palácio onde as autoridades flutuam bisonhas num nirvana à parte da população. Diz um governador, a recitar uma embolada de sentenças infindáveis do cinismo: Nós agimos “usando todas as facções e ideias políticas, afirmando hoje as mentiras de ontem, e negando amanhã as verdades de hoje. Eis a imagem da virtude e da democracia”. Todos, usurpadores da fé, anunciam-se contra a ignorância e a miséria. E se acusam uns aos outros de comparsas do passado. Se pensarmos no agora, e não há 50 anos, nossa vida é um plágio da arte, a nos dizer que Glauber Rocha foi um artista alarmado, premonitório, genial. Viva o Brasil!

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