Diário da Região

02/04/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

A última aventura do homem avestruz

Painel de Ideias

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Sílvio Santo – sim, ele próprio - foi, indiretamente, o patrono de uma tragédia que teve como cenário o centro urbano de Rio Preto, um episódio de desafios e reptos, que começou na praça Dom José Marcondes, em frente à Catedral, e terminou mais ou menos 100 metros abaixo, ao lado do edifício do Correio, com um tiro, um corpo estendido no chão e uma pequena poça de sangue.

O protagonista dessa história chamava-se Isaías dos Santos, alguém que impressionava as pessoas com a performance de “homem avestruz”: ele engolia (ou parecia engolir) não apenas as prosaicas espadas, que todo engolidor de circo também engole. Engolia coisas como amortecedor de automóveis, bolas de bilhar, cabo de vassoura, garrafa de Coca-Cola. Com tão estranhos hábitos alimentares, tornou-se conhecido em todo o Brasil por suas aparições dominicais no Programa Sílvio Santos, a cada semana engolindo uma coisa diferente.

Do alto de seus 15 minutos de fama, Isaías escolheu Rio Preto para fazer apresentações em praça pública, que terminavam com os aplausos de um público sempre intrigado e, é claro, com um providencial passa chapéu, responsabilidade de um irmão do artista. Essa celebridade remunerada foi bem até a tarde de 16 de julho de 1985, o dia em que um desconfiado espectador resolveu juntar-se à platéia do engolidor na praça, fazendo hora para pegar o ônibus de volta a Itapagipe.

O mineirinho, pouco convencido da autenticidade das engolidas, a certa altura, não se conteve e decretou, em voz firme:

- Ele não engole coisa nenhuma!!!

Silêncio no pequeno circo ao ar livre. As pessoas se entreolharam, a mãe previdente puxou o filho pela mão e se afastou, o engolidor e seu irmão cravaram os olhos no homenzinho intrometido:

- Que que foi?!?

- Você não engole porra nenhuma. Isso é ilusão de ótica!

O silêncio deu lugar a um rumoroso burburinho das pessoas trocando impressões entre si – umas concordando com a observação do estranho, outras apoiando o engolidor.

- Quer apostar? – desafiou o irmão do artista.

- Eu topo.

Foi, então, sob clima tenso que Isaías começou a mandar goela abaixo um apetitoso amortecedor de Volkswagen, enquanto o irmão parceiro estendeu o braço para receber o dinheiro apostado.

Que esperança! O incrédulo mineirinho saiu correndo em direção à estação rodoviária, o engolidor e o irmão atrás dele, em desabalada carreira. Quando estava perto de ser alcançado, o fugitivo parou, tirou do bolso um revólver e disparou. Isaías morreu na hora, mineirinho foi preso repetindo a frase:

- Engole coisa nenhuma, é um enganador.

O Lelé Arantes, que na época era repórter policial da Folha de Rio Preto, me ajuda a lembrar da história e da expectativa criada em torno da necropsia, aguardada como a chave para decifrar um impenetrável mistério. Mas o laudo, assinado pelo legista Ivan Miziara, revelou que órgãos como a laringe, faringe e o esôfago de Isaías eram absolutamente normais, nada levando a crer que ele fosse capaz de realmente engolir aberrações como aquelas.

O segredo de seus truques Isaías levou para o túmulo, no Cemitério São João Baptista, em uma sepultura simples, coberta de terra e demarcada apenas pela placa com o número 4880, sem identificação e sem cruz.

 

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