Diário da Região

01/06/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

Museus em perigo

Painel de Ideias

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Noite de Guerra no Museu do Prado é um instigante texto da dramaturgia espanhola moderna. Escrito pelo poeta Rafael Alberti em 1956, no exílio em Buenos Aires, inspira-se num fato real: o traslado de obras do Museu à cidade de Valência, ante a ameaça de bombardeio pelas tropas de Franco, na Guerra Civil. No enredo, e prevendo a destruição, os personagens da tela Os Fuzilamentos de Três de Maio, de Goya, saltam da pintura e se entrincheiram com criaturas de outros quadros em defesa do museu. Aflitos, mobilizam-se pela preservação do Prado como reduto da memória e sagração do ser no mundo.

Que seria de mim sem conhecer ou ver os olhos dos que viveram antes? Quem seríamos nós sem o armazém de sentimentos e a mescla de indícios da civilização contidos nos museus de arte? Tais perguntas igualmente pontificam o filme Francofonia - O Louvre Sob Ocupação (2016), do russo Alexandr Sokurov. Exibido em raros cinemas, pode ser visto por streaming. Propõe-nos uma tese ficcional: os museus, eles-mesmos, pressagiam as guerras e nós os evacuamos. Assim aconteceu em 1940, na invasão de Paris pelo nazismo: obras do Louvre foram escondidas em vários castelos.

Picasso, Rembrandt, Da Vinci e Fídias estão mortos e não temos meios de acordá-los para que refaçam as preciosidades de que somos herdeiros. São únicas, insubstituíveis. Essa ideia perpassa o filme de Sokurov. O cineasta já havia feito A Arca Russa (2002), aplaudido em vários festivais. Concebido num único plano-sequência (sem nenhum corte), a câmera explora o interior do Museu Hermitage, de São Petersburgo. Combina teatro, música, literatura, artes plásticas e efeitos cinematográficos como alegorias bíblicas do dilúvio, a Arca de Noé e a redenção dos humanos.

Reflexões sobre a natureza da arte como essência atemporal do existir são recorrentes em Sokurov. Em 2012 filmou Fausto, uma soturna incursão nas entranhas do poema trágico de Goethe (está na Netflix). Como nas guerras, damos a alma ao diabo. Mas Francofonia - O Louvre Sob Ocupação resume o estilo do autor. Funde, em narrativa intrincada, cenas documentais da Segunda Guerra, o desempenho de atores, obras do Louvre como suportes de ideias e artifícios do cinema. Averigua por que Jacques Jaujard, então diretor do Louvre, se uniu a um interventor nazista em socorro do museu. Nas guerras, medita, o colaboracionismo e adesão ao inimigo implicam outras orlas de sentidos: a salvaguarda das artes como manifestações sublimes da humanidade.

Quando presenciamos, mormente no Terceiro Mundo, museus de arte sendo relegados a atenções inferiores por cidadãos e gestores públicos, ouvem-se zurros de desrazão, desapreço à história e ao patrimônio sociocultural. Em horas assim, obras como de Rafael Alberti e Alexandr Sokurov soam como graves lições de moral. E enérgicos puxões em pontudas orelhas.

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