Diário da Região

10/03/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

Carta do cárcere

Painel de Ideias

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- Doutor. Eu errei. Fiz péssimas escolhas na vida. Uma delas, meu marido. Ele entrou no mundo do crime. De repente, havia coisas roubadas em minha casa. Drogas, embora eu nunca tenha feito uso, também ingressaram lá, pelas mãos dele. Tinha medo e não denunciava. Até que um dia a polícia me levou junto. Tenho para mim que não infringi a lei, mas a justiça diz que sim. E aqui estou. Condenada. Presa.

- O que mais me dói, doutor, são meus filhos. Não sai da mente o rosto de cada um. Sofro muito. Conto os minutos à espera da visita. Quando eles chegam, meu coração dispara. São sorrisos, lágrimas, abraços, arrependimentos fortíssimos e um desejo ardente de liberdade. Mas não escrevo para o senhor para me lamentar, ou para contar minha história ou a dor que me corta. Eu preciso de ajuda. Com um dos meus filhos, um menino, lindo, saudável, já adolescente.

- Na última visita, ele me disse que um colega, da mesma escola, ofereceu maconha a ele. Mesmo dizendo que não pegou, sinto que ele está sendo seduzido. Sabe, doutor, acho que todos nós estamos sujeitos à sedução, das mais diversas. E quase sempre, naquele momento da tentação, onde a curiosidade nos domina, ou a gente confia demais na nossa capacidade de lidar com a questão, ou simplesmente não pensa direito. E embarca na situação. Quebra a cara.

- Recorro ao senhor porque, além de presa, sem estar perto de meu filho para orientá-lo, eu me vejo sem moral alguma. Como um filho vai respeitar uma mãe, condenada por tráfico de drogas? E um pai, igualmente atrás das grades, por vários crimes? Mas eu amo muito meus filhos e rezo todos os dias para Deus me perdoar. Acredito na justiça e por isso vim pedir sua ajuda, por favor. Converse com meu filho.

Recebi essa carta e a resumi. Adaptei as palavras, as frases, obviamente. A remetente, embora com muito esforço, escreve num português quase incompreensível. Tentei manter as ideias nela contidas.

Essa carta me fez lembrar meus primeiros dias na profissão, há vinte anos. Havia um preso, em Estrela d’Oeste, uma linda cidade onde trabalhei por mais de 7 anos, que queria falar comigo, mas no Fórum. Eu achava difícil, pois dependíamos da polícia para levá-lo, as questões de segurança etc. Até que a polícia gentilmente me atendeu e o levava, de vez em quando, ao Fórum, para conversar comigo. Ele queria notícias de sua pena, quanto tempo faltava. Também arriscava alguns palpites, alguns pedidos. Ele era analfabeto. Desenhava o nome. Nasceu então a ideia da alfabetização na cadeia. O Sindicato Rural nos ajudou, com os professores, e o Delegado até reformou uma cela que servia de sala de aula.

Nunca me esqueci daquele preso, o de Estrela d’Oeste, que cumpria pena por homicídio qualificado. Ele me tratava com respeito, considerando-me um interlocutor importante, não apenas para analisar seu tempo de prisão, mas para prestar mais atenção em quem estava detido. Pessoas pobres, analfabetas, que se alegravam, sentiam-se igualmente importantes sendo tratadas dignamente.

Talvez um dia eu me lembre desta mãe, cuja carta está aberta aqui, bem agora, ao lado do computador enquanto escrevo. Eu nunca a vi, não sei como ela é, mas vi sinceridade em seu pedido. Nesses tempos duros, de criminalidade absurda, parece até contraditório ocupar este espaço para tratar de assuntos de presidiários. Mas a justiça não é a casa de Pilatos, ou o ambiente para ressonância dos medos. E sim o lugar da medida das coisas, onde até o apenado pode promover o bem.

 

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