Diário da Região

26/01/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

O Caruaru

Painel de Ideias

NULL NULL
NULL

Quando eu menino, o Caruaru parecia autoridade. Distinguiam-no o quepe escuro a sombrear-lhe a face, a camisa puída de brim azulado e o crachá escrito com letras de forma: “Chefe dos Carregadores”. Diligente, respeitoso, puxava o carrinho de mão atulhado de matulas até o ponto de táxi ou à entrada dos hotéis. No intervalo entre os trens da meia-noite e o primeiro da aurora, ao dissipar-se o burburinho dos que iam e chegavam, hospedava-se no interior de seu carro de madeira, sob a marquise da estação.

Afeiçoei-me àquele varão atarracado, a surgir dos vãos e parece que os anos só passaram para mim. Falou-me que foi casado e dum enteado remoto, embora quanto a isto e demais episódios da história privada preferia a discrição. Era um baixote esfumado e taciturno, resignado da condição de excluído. Certa vez perguntei-lhe se sabia cantar. Respondeu-me entoando a voz rouca, afinada e desinibida: “Teu vestido de baile, lembro ainda, / era branco, todo branco, meu amor...”. Mas, no geral, recolhia-se em silêncio e desaparecia como viajante na hora de partir.

Nos enredos da vida, Caruaru era um sujeito no molde dos inventados. Poucos atinavam que fora criança e, no presente, envelhecera. Como um ser imaginário, estagnou-se na idade estanque dos adultos, sem passado, nem futuro. Poucos o viam como pessoa, mas um arremedo, simulacro de gente, criatura plagiada do sadismo humano inconfessável e alheio às dores alheias. Denotava-se um rascunho, página solta de novela tragicômica, um Sancho Pança em desventuras urbanas. Sim, talvez nos fosse mais confortável senti-lo como personagem imune aos arranhões do tempo e submisso aos humores dum existir fictício.

Quase sempre não nos damos conta de que a comédia é a tragédia dos outros. Nos outubros e novembros de eleições municipais, candidato a nada, obtinha inúmeros votos por deboche ou idiotice de eleitores. Anti-herói compassivo, tratado como um lagarto do Nordeste, era sereno, digno, altivo, entendia mais coisas do que pudéramos supor. Mas não fazia questão de que o soubéssemos. Nos últimos anos, descia duma bicicleta de selim rebaixado e circulava imperceptível entre mesas de bar.

Caruaru modificou-me por dentro em tempos difíceis, a escutar-me e ele atento, solidário, mais amigo meu que eu dele. De onde vinha, para onde ia esse servil aos transtornos do destino e à sina dos desmerecidos? Depois que morreu, no necrotério com a etiqueta de indigente amarrada no pé e inscrito no livro dos predestinados que já nasceram exclusos, vejo-o crescer em silhueta e o tenho com ternura. Eia, o comboio noturno dos passageiros invisíveis, um apelido somente, pivô de anedotas, solitário contrito, anônimo chefe dos que carregam, inexoravelmente, as matulas dos que jamais lhe prestaram atenção. E o gratificaram com gorjetas (Mário da Silva, 1928-2012).

 

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

Não lembro a minha senha!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso