Diário da Região

22/01/2017 - 00h00min

Painel de Ideias

Memórias de nossas putas alegres

Painel de Ideias

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- Benhê, paga uma cuba? Daí eu te conto como foi que eu caí na vida...

Feita hoje em dia, a proposta, tão recorrente nos anos 50, 60, precisa de tradução.

Assim começavam, no mais das vezes, os diálogos luxuriantes nas casas de zona - aqueles pequenos templos de um pecado consentido, estigmatizados pela luz vermelha do alpendre, lugares onde se refestelavam os garotos em fase de iniciação, os cafetões e as cafetinas, os boêmios, os transgressores, os sujeitos reprimidos e tudo o que é nego torto.

Ao longo dos últimos 80, 90 anos, a zona pontilhou a história da boemia rio-pretense, desde os tempos em que, nos modorrentos finais de tarde de sábado, homens vestindo ternos brancos de linho S-120 adornados por gravatas avermelhadas cruzavam a pé as ruas empoeiradas do centro da cidade em direção ao casarão da Ruth Berruga - um sobradão onde é hoje a Antonio de Godoy, entre Saldanha e Independência. Não se chegava àqueles confins da cidade podendo prescindir de um serviço disponível ao pé da escadaria da casa, onde um rapaz se oferecia para livrar os clientes da poeira dos sapatos com a ajuda de um pano seco. Em dia de chuva e barro, um pano úmido.

Quando a zona mudou-se para a Vila Ercília, no começo dos anos 50, a cidade acabava em frente ao cemitério, aonde se chegava por uma Avenida da Saudade mais romântica, vestida de paralelepípedos e enfeitada pelo verde dos fícus enfileirados no meio da rua. A vida se reacendia, no entanto, para quem contornasse o ajuntamento de túmulos e chegasse ao miolo de casinhas de alpendre avermelhado - a casa da Ditinha, dizem, era das mais concorridas.

Ali, entre as moças que vinham de Minas, do Mato Grosso, do Paraná - era raro virem de São Paulo - havia uma formosa dama cujos traços indígenas, os negros cabelos lisos, os olhos amendoados, o porte de gazela em fuga a inspiraram a adotar, como nome de guerra, o pseudônimo “Diacuí”.

A palavra, que, na língua da nação kalapalo, significa “planta que floresce no campo”, tornara-se muito badalada naquele tempo: era o nome de uma indiazinha do Alto Xingu, que obteve permissão para casar-se com o sertanista Aires da Cunha e, por conta disso, transformou-se em celebridade nas reportagens da revista “O Cruzeiro”, que a apresentava ao Brasil como “a Cinderela dos trópicos”.

Pois bem, a nossa Diacuí - morena lindíssima, capaz de despertar a cobiça de poderosos da cidade - cismou de se apaixonar por um rapazola que, com seus 17 anos, a encontrava sorrateiramente, duas ou três vezes por semana, para tórridas noites de amor, pelas quais tinha que pagar somente o aluguel do quarto.

A atração evoluiu para o incontrolável, Diacuí já não se contentava com o sexo bissemanal, queria o amante inclusive aos sábados, dia que ele costumava dedicar à namorada. Tal qual sua xará do Xingu, nossa Diacuí viu-se diante da alternativa crucial: ou a zona ou o amor. Ficou com a zona e foi embora, dela nunca mais ninguém ouviu falar, nenhuma notícia, nada...

Anos depois, o ex-amante de Diacuí, já homem feito, pai de família, participa de uma atividade profissional em outra cidade do estado de São Paulo, onde é apresentado ao prefeito, ao presidente da Câmara, ao juiz de Direito, ao delegado de Polícia, todos acompanhados das respectivas esposas, em noite de alegre compromisso social. Numa dessas apresentações formais, nosso ex-atleta de alcova cumprimenta determinado figurão e, ao estender a mão para a mulher que o acompanhava, sente o coração trespassar-se de um choque, a fugaz sensação da tontura lhe anuvia o pensamento, o corpo todo estremece...

- Muito prazer, senhora...

Adivinha quem era!

 

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