Diário da Região

29/01/2017 - 00h00min

Bola & Batom

As regras do jogo

Bola & Batom

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Aos 32 anos, concluindo o ensino médio em uma sala de educação para adultos, mãe de três meninos, moradora de região pobre de Ribeirão Preto, Judete Pimenta foi uma das minhas heroínas da vida real no início dos anos 1990. Militante das comunidades eclesiais de base, vertente progressista da Igreja Católica que acabou sufocada pela linha conservadora imposta pelo papa João Paulo 2º, ela, no esplendor de sua intelectualidade orgânica, debatia de igual para igual os rumos dos movimentos sociais e a importância das lutas feministas em eventos que reuniam figuras célebres como Frei Beto, Marilena Chauí, Martha Suplicy, Ruth Cardoso, Marina Silva, entre outras.

Com Judete, meus arroubos feministas de quem achava que sabia tudo aos 23 anos, recém-formada, casada e mãe começou a ganhar algum verniz. O que era intuição pura recebeu fundamentação, prática e virou postura de vida. Foi ela também quem me fez substituir bravatas por embates mais serenos, estratégicos.

Uma das lições preciosas foi inspirada no machista universo do futebol. “Na luta por espaço procure sempre se posicionar ao lado dos homens. Se você ficar atrás, terá de chutar para avançar e vai levar cartão vermelho. Se ficar na frente, terá de dar coices. E perderá a razão. Fique ao lado. As cotoveladas são mais eficientes e discretas. O juiz quase nunca vê.” É ou não uma goleadora essa mulher que, até hoje, não se conforma com o fato de só homem rezar missa?

As sábias palavras de Judete me ajudaram a domar o ciúme imaturo. Certa vez, ouviu divertida meu relato irado do dia anterior, quando atirei um estrado de cama atrás do Elvis, que tinha chegado bêbado em casa depois de um domingo inteiro com os amigos do futebol. No melhor estilo Indiana Jones, ele desembestou por uma escadaria de mais de 40 degraus com o trambolho assassino quicando atrás. “Se fizer isso de novo, eu largo”, esbravejava. Ela, serena, ponderou. “Para quê, para abrir mão de seus projetos e se virar para criar sozinha sua filha? Arrume também algo divertido para fazer da vida no domingo.” Sacou?

Eu me lembrei da Judete quando, recentemente, minha filha, Lígia, se firmou como minha heroína da vida real do século 21, legítima representante da luta feminista agora pulverizada e digital, mas não menos importante. Ainda aluna de direito da USP Ribeirão Preto, ela fazia trabalho social em um núcleo violento da cidade.

Certo dia, a missão era mediar um conflito que se arrastava entre o grupo das meninas e o dos meninos. Elas, mais generosas, reivindicavam o uso compartilhado da quadra de futebol. Eles não cediam. Consideravam o espaço uma exclusividade masculina. A sugestão de solução para o embate veio justamente do líder dos garotos. “E aí, tia? Vamos tirar a melhor no balãozinho, eu e você? Quem ganhar, fica. Quem perder, vaza”, propôs o garoto marrento de cabelo descolorido. Lígia, claro, não é do tipo que foge à luta.

E a bola pulou 53 vezes do peito do pé do boleirinho para o alto sem cair. Triunfal, olhar provocativo, ele passou a bola para a garota pequena e magricela que, nada intimidada, fez a pelota bailar no ar 113 vezes sem interrupção. Parou sob aplausos e uivos das adolescentes, porque a ideia não era humilhar o menino.

Moral da história. A mulher não precisa se transformar em um homem (nas práticas e ideias) para conquistar seu espaço. Se for assim, a busca pelo exercício do poder perde o sentido. Mas precisa aprender a jogar o jogo deles, com as regras feitas por eles, para sobreviver. Porque essa peleja, vai longe...

 

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